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O tapete vermelho do Oscar e a indústria da hipocrisia Hollywood

O Oscar talvez seja hoje a face mais sofisticada da hipocrisia cultural do capitalismo global. Hollywood construiu uma indústria capaz de transformar sofrimento humano em espetáculo rentável, consciência política em marketing e tragédia coletiva em prestígio internacional. Mas o problema não está apenas nos filmes, nos discursos ou nas celebridades. Está sobretudo nos financiadores invisíveis que sustentam essa engrenagem mundial do entretenimento. Grande parte da indústria cinematográfica internacional, dos megaeventos culturais e até dos circuitos da arte contemporânea opera sob financiamento direto ou indireto de bancos transnacionais, fundos financeiros, plataformas tecnológicas, conglomerados empresariais e grupos de investimento profundamente ligados às estruturas econômicas que atravessam guerras, mineração predatória, petróleo, destruição ambiental, especulação financeira e colonialismo econômico contemporâneo. Os mesmos capitais que circulam entre corporações armamentistas, me...
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Leitura Crítica de Policarpo Quaresma: Arte, Nacionalismo e Tragédia em Lima Barreto

triste fim de policarpo quaresma, romance publicado pela primeira vez entre 11 de agosto e 19 de outubro de 1911, pela edição da tarde do Jornal do Comércio, no estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro. afonso henriques de Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881 e morreu em 1922. estudou no liceu popular niteroiense, onde colaborou em grêmios, jornais e revistas. trabalhou como tipógrafo a vida toda. o jornalismo veio a fazer parte da vida dele no século xx. não se casou e viveu sempre com a família. o alcoolismo provocou várias vezes a internação dele em casas de recuperação. escreveu, entre outras obras, clara dos anjos, a nova califórnia e recordações do escrivão isaías caminha. era um escritor do período de transição de séculos, do romantismo para o realismo. em seus escritos, é possível ver uma análise crítica da sociedade brasileira. a obra em triste fim de policarpo quaresma, lima barreto traça o perfil de um herói brasileiro que não deu certo: policarpo quaresma, que inco...

A Bienal e o Capital

 Na Biennale di Venezia, o pavilhão de Israel virou foco de protestos por causa da guerra em Gaza, das denúncias internacionais contra o Estado israelense e das pressões de artistas, curadores e movimentos culturais que defendem boicote institucional. Parte significativa desse circuito, entretanto, pertence historicamente à burguesia e à pequena burguesia cultural internacional, integrada aos mercados de arte, às universidades, às fundações, aos bancos e aos próprios mecanismos de prestígio do capitalismo global, muitas vezes sem trajetória concreta de militância contínua junto aos povos historicamente massacrados pelo colonialismo e pelo imperialismo. Houve mesmo pedidos de fechamento do pavilhão e manifestações que interromperam temporariamente atividades ligadas à representação israelense. Mas a crítica não pode parar apenas em Israel como exceção moral dentro de um sistema cultural que sempre esteve articulado ao capital internacional, às elites europeias e aos interesses geopo...

Arte Usina Caeté retoma POET CAST MARAMBAIA

O POET CAST MARAMBAIA entra em uma nova etapa em 2026, consolidando um processo iniciado em 2023 pela ARTE USINA CAETÉ, com a publicação da primeira coletânea em formato fanzine, sob a editoria do Carpinteiro de Poesia Francisco Weyl. O projeto reúne experiências construídas ao longo de uma trajetória na Marambaia, envolvendo atuação de poetas e ativistas culturais no Centro Comunitário Tiradentes, a criação do Movimento Cultural da Marambaia, do Movimento Tela de Rua, do Movimento Cinema de Rua, da Galrar Cultural, do Abominável Tancredo das Neves, e o grupo Troupe The 4 Pracena. Essas ações articulam produção artística, formação, circulação e organização cultural no território. Esse percurso também foi desenvolvido no campo acadêmico por meio da dissertação de mestrado “Cenas Poéticas da Marambaia” (PPGARTES-UFPA-2014), que sistematiza essas práticas como produção de conhecimento e linguagem. Nesta nova edição, o POET CAST MARAMBAIA passa a ser publicado em formato digital, com ed...

Marambaia retoma articulação do Fórum Permanente de Políticas Públicas Periféricas

Em Belém, o bairro da Marambaia volta a se mobilizar coletivamente em torno de uma agenda que já não é nova, mas se torna cada vez mais urgente: a articulação política e comunitária frente à crise climática e social. No próximo 30 de abril de 2026, às 18h30, moradores, coletivos culturais e iniciativas de base se reúnem na Rua da Mata, 366, no espaço onde hoje funciona o Ponto de Cultura FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté, para uma reunião aberta de rearticulação do FPPPPM COP30. A convocação parte de uma rede ativa de coletivos do bairro, incluindo o Instituto Vagalume da Marambaia, Biblioteca BombomLER, Casa do Poeta, FICCA Ponto de Cultura e os cineclubes Casa do Poeta e República de Portugal. Mais do que um encontro pontual, a reunião marca a retomada de um processo político-territorial iniciado anos antes da COP30 entrar no radar institucional da cidade. Uma trajetória que antecede a COP30 A mobilização da Marambaia não surge como resposta imediata à conferência cli...

Palavra, imagem e memória de José Ribamar Gomes de Oliveira

  “Alma das Ruas” é um documentário íntimo e afetivo que registra o pensamento do professor José Ribamar Gomes de Oliveira sobre a história do cinema e da cultura em Bragança do Pará. A partir de uma entrevista realizada em 2017, o filme costura memórias, reflexões e paisagens urbanas, transformando a palavra de Ribamar em gesto de permanência e homenagem. Um encontro entre pesquisa, território e afeto, que devolve ao público a potência da memória coletiva. 🎞️ SINOPSE  Em 2017, dois pesquisadores – Francisco Weyl e Christovam Pamplona Neto – encontraram o professor José Ribamar Gomes de Oliveira para conversar sobre cinema, educação e história cultural de Bragança. A entrevista, registrando sua lucidez e delicadeza intelectual, tornou-se matéria viva de memória audiovisual. “Alma das Ruas” retoma essas imagens anos depois, reconhecendo Ribamar como mestre e referência. O filme revisita suas ideias sobre cineclubes, escolas, arquivos, movimentos comunitários e resistências cul...

Sobre atentados culturais e outras reexistências artísticas

Eu defendo, divulgo e pratico o que conceituo artisticamente como "atentados culturais". Atentados culturais podem ser ações performáticas políticas de impacto social que não se limitam à tentativa de reversão de um quadro excludente, mas sobretudo à demarcação de um campo de resistência artística e consciência social.  São gestos incisivos que expandem a percepção sobre os fatos, provocam deslocamentos sensíveis e desafiam os processos e políticas públicas que excluem, marginalizam e violentam criadores e fazedores de cultura. Nesses atos, não há tutela nem moderação institucional.  Eles se inscrevem na radicalidade do efêmero e no improviso tático, sustentados por uma lógica libertária, subjetiva e insurgente.  Sua força está na autonomia e na imprevisibilidade: acontecem de forma breve e eventual, podendo emergir isoladamente ou em simultâneo, espalhando-se como rastros nômades pelo território e pela cidade, em deslocamentos e errâncias que reconfiguram a própria polít...

Tese anuncia novo marco no pensamento amazônida sobre cinema

A defesa da minha tese Kynema – Estéticas de Guerrilhas, Poéticas das Gambiarras, Tecnologias do Possível , realizada em 27 de março, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará, não se reduz a um ato acadêmico. Ela condensa um percurso, torna visível um campo de forças, explicita um modo de pensar e fazer que venho construindo na travessia entre arte, cinema, território e ação cultural na Amazônia. Chego a esse momento a partir de uma trajetória em que produção intelectual, criação artística e intervenção sociocultural não se separam. Escrevo, filmo, performo, organizo, articulo — e é nesse entrelaçamento que a pesquisa se constitui. Um pensamento que não se coloca à distância do mundo, mas que se dá em presença, implicado nos contextos amazônidas, atravessado por suas tensões, suas urgências e suas potências. Ao mesmo tempo, esse percurso se expande em deslocamento. O estágio doutoral na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa i...

A excludente Ilusão do Consenso Cultural - Por Carpinteiro da Poesia

Este texto se constrói a partir da experiência direta com o território, com suas disputas, suas mediações e suas permanências. Ao longo dos próximos movimentos, o que se busca é tensionar aquilo que já parece natural: os modos de financiamento, os critérios de legitimação, as formas de circulação e os dispositivos que organizam a cena cultural.  Nem tudo o que se apresenta como cultura nasce do território. Nem tudo o que circula como diversidade carrega conflito real. Há uma organização em curso, silenciosa, eficiente, que define o que pode ser visto, o que pode ser dito e, sobretudo, o que pode ser esquecido. Antes de falar em representação, é preciso admitir o desconforto. Mais do que perguntar quem representa, interessa compreender o que está sendo organizado quando se fala em representação. Porque, no fim, não se trata apenas de cultura. Trata-se de estrutura. MOVIMENTO I — Representar é Organizar Eu nunca sei exatamente por onde começar quando falo de representação cultural. E...

A coragem de produzir pensamento onde historicamente se esperou apenas paisagem

Pensar cinema na Amazônia exige mais do que filmar: exige formular. Exige a coragem de produzir pensamento onde historicamente se esperou apenas paisagem. Exige enfrentar a ausência estrutural de crítica, a escassez de pesquisa sistemática, a negligência de políticas públicas, a desinformação sobre realidades complexas e a insistência em tratar a região como imagem exótica — nunca como sujeito. Nesse deserto de análises e proliferação de estigmas, os artigos que temos construído nos últimos anos tornam-se documentos estratégicos: não porque oferecem respostas definitivas, mas porque desorganizam hierarquias e inauguram perguntas que ainda não haviam sido feitas. A produção de conhecimento sobre cinema na Amazônia permanece concentrada em poucos nomes, poucos espaços, poucos esforços individuais, e justamente por isso cada texto escrito, cada reflexão publicada, cada artigo discutido se torna parte de um gesto político de sobrevivência. Pensar a Amazônia desde dentro, sob a perspectiva...