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A história do cinema também é uma disputa pelo direito de olhar

Pensar o cinema exige também perguntar quem escreveu a sua história, quais imagens foram transformadas em marcos e quais experiências permaneceram durante décadas nas margens dessa narrativa. Talvez seja preciso começar justamente daí: o cinema possui uma história oficial e possui muitas histórias soterradas por ela. Quando se fala da origem do documentário, por exemplo, Nanook of the North , realizado por Robert Flaherty em 1922, aparece repetidamente como obra fundadora. Entretanto, seis anos antes, em 1916, no Brasil, Luiz Thomaz Reis filmava Rituais e Festas Bororo , no contexto da Comissão Rondon. O filme seria concluído e exibido em 1917. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros passaram a sustentar uma hipótese que modifica profundamente essa cronologia: Rituais e Festas Bororo pode ser considerado o primeiro documentário etnográfico da história do cinema. Isso significa que, antes de Nanook , havia no Brasil uma experiência cinematográfica construída a partir da permanênci...
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Roberta Mártires leva Multifeira de marcas e produtos amazônicos ao Ponto de Cultura FICCA

A arte como encontro, circulação e território é a proposta da Multifeira – Encontro de Marcas e Produtos Amazônicos, que acontece no dia 12 de setembro, das 7h às 12h, no Ponto de Cultura FICCA, no bairro da Marambaia, em Belém. A programação coloca em evidência marcas e produções que têm na Amazônia não apenas uma referência estética, mas um território de criação, memória e pertencimento. À frente dessa iniciativa está Roberta Mártires, artista visual, produtora cultural, turismóloga, arte-educadora ambiental e crocheteira autoral. Sua trajetória reúne diferentes linguagens e experiências, sempre tendo como ponto de partida a relação entre arte, território e comunidade. No campo da produção cultural, Roberta acumula experiência na concepção, planejamento e realização de eventos, tendo participado de projetos como o FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté e realizado, em 2020, duas edições da Multifeira dentro do projeto Rios e Redes.  A nova ação também dialoga diretamen...

FICCA Ponto de Cultura amplia agenda cultural e prepara nova etapa de ações no Pará

O FICCA Ponto de Cultura inicia, neste mês de setembro, uma nova etapa de sua programação cultural, formativa e artística, reunindo atividades que se estendem até julho de 2027 e fortalecem a presença do Festival Internacional de Cinema do Caeté nos territórios onde desenvolve suas ações. O novo calendário articula cinema, literatura, música, teatro, dança, cultura popular, formação, memória e criação artística, aproximando artistas, pesquisadores, estudantes, professores, produtores culturais e comunidades em uma programação contínua construída a partir das redes de colaboração do FICCA. A agenda começa em setembro com a Multifeira – Multifário, na Casa FICCA, em Belém; a reabertura da Casa do Poeta; a exibição on-line das obras premiadas do FIM.ME; novas ações do Projeto Rosilene Cordeiro e o terceiro módulo da formação PHOMENTA. A Escola Municipal República de Portugal também integra essa nova etapa. O espaço receberá oficinas vinculadas ao Projeto OCUPA FICCA, ampliando o trabal...

Para quem é útil o voto útil ?

Diante desse debate sobre as “opções para o governo do Pará”, das pesquisas de intenção de votos e da recorrente fala sobre o “voto útil”, vamos começar por uma pergunta: por que candidaturas alternativas, como as do Bloco PSTU e da Unidade Popular, são sistematicamente invisibilizadas, como se sequer integrassem o debate político sobre o futuro do Estado? Como chegamos a um ponto em que as únicas opções consideradas competitivas são aquelas que o sistema político, empresarial e midiático apresenta como tais, enquanto outras candidaturas permanecem fora da narrativa antes mesmo que a sociedade tenha a oportunidade de conhecê-las, confrontá-las, criticá-las e pensar a partir delas? E há uma segunda pergunta, diferente desta, mas diretamente relacionada: qual foi o papel da pequena burguesia, dos intelectuais e dos artistas durante todos estes anos e de que lado eles se colocaram na construção dessa realidade? Porque precisamos olhar também para os brancos do centro da cidade, em seus co...

HUMBERTO CUNHA: MEMÓRIA EM MOVIMENTO

Entrevistar Humberto Cunha, para mim, Francisco Weyl, carpinteiro de poesia, foi reencontrar uma história política, humana e coletiva da qual também fiz parte. Humberto Cunha pertence a uma geração que pensou e viveu a política como campo de transformação concreta. Engenheiro agrônomo, defensor dos direitos humanos e homem público, construiu uma atuação marcada pela compreensão da Amazônia, da terra, da reforma agrária, da defesa ambiental, do combate aos agrotóxicos e das liberdades democráticas. Naquelas décadas, essas lutas se articulavam profundamente. A luta pela terra encontrava a luta pela moradia. A defesa dos trabalhadores do campo dialogava com as lutas urbanas. Educação, saúde, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, anistia e direitos humanos compunham um amplo campo de mobilização e construção democrática. Jornais alternativos, organizações populares, movimentos sociais, sindicatos, grupos de defesa dos direitos humanos e diferentes formas de organização política pa...

AGOSTO 22 - GLAUBER É E FOI E SEMPRE SERÁ GLAUBER

Glauber Rocha atravessa a minha vida como atravessa o cinema, com esta força estranha das coisas que pertencem ao tempo porque vivem dentro dele mas que o tempo não consegue possuir, e talvez tenha sido esta a primeira coisa que compreendi quando comecei a escrever sobre Glauber, que Glauber Rocha não está preso a tempo nenhum, que sua poética e sua estética cinematográficas eram dotadas de orientação ideológica mas não datadas, diferença essencial para quem compreende que a cultura pode ser datada mas a arte não, porque a arte alimenta-se das matérias culturais e simultaneamente escapa delas, avança sobre seus próprios cadáveres, destrói os nomes que inventamos para aprisioná-la e reaparece onde menos esperamos, razão pela qual nunca consegui aceitar Glauber simplesmente como um cineasta do Cinema Novo, encerrado numa década, numa escola, num movimento, numa cinematografia nacional, porque Glauber é uma força artística brasileira que atravessa a História para devolver ao homem a sua c...

José Ribamar Gomes de Oliveira: memória, poesia e as ruas de Bragança

José Ribamar Gomes de Oliveira nasceu em 1951, às margens do Rio Caeté, no bairro do Cereja, em Bragança do Pará. É desse lugar que começo a lembrá-lo, porque é também desse lugar que sua vida parece ter encontrado uma espécie de centro permanente: Bragança não foi apenas a cidade onde nasceu, mas a matéria que ele passou décadas pesquisando, escrevendo, ensinando e devolvendo aos outros através dos livros, das conversas, das instituições e dos projetos culturais que ajudou a criar. Sua formação em Letras e Artes pela Universidade Federal do Pará, onde foi orador de sua turma em 1997, deu passagem a uma trajetória em que a palavra acadêmica encontrou a experiência cotidiana da cidade, dos seus moradores, das suas ruas, dos seus templos, do rio, das festas, do cinema e das muitas histórias que Ribamar foi recolhendo ao longo do tempo. Quando penso nele, penso primeiro no professor Ribamar, que é como sempre gostei de chamá-lo. Foi uma pessoa que me acolheu e com quem aprendi bastante, ...

Bilhões em minérios, milhões sem direitos no Pará: essa conta não bate

O Pará encerra o primeiro semestre de 2026 diante de uma contradição econômica que já não pode ser tratada como detalhe do modelo de desenvolvimento amazônico. Em apenas seis meses, a indústria mineral faturou R$ 52,2 bilhões no estado. O Pará respondeu sozinho por 34,6% de todo o faturamento mineral brasileiro, ficando atrás apenas de Minas Gerais. No mesmo período, toda a mineração brasileira faturou R$ 150,7 bilhões. Ou seja: aproximadamente um de cada três reais faturados pela mineração nacional saiu do território paraense. Os dados são do Instituto Brasileiro de Mineração, o IBRAM. No mesmo balanço, o instituto informa que o setor mineral produziu US$ 20,3 bilhões de saldo comercial no primeiro semestre de 2026, equivalente a 48% de todo o saldo da balança comercial brasileira. O minério de ferro continuou decisivo nesse resultado e a China absorveu 70,1% do volume das exportações minerais brasileiras. O Pará ocupa posição central nessa máquina exportadora. Carajás, em Parauapebas...