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Os corre da pesquisa

Tenho pensado nisso enquanto continuo fazendo pesquisa, às vezes dentro da academia, às vezes fora dela, mas quase sempre no mesmo lugar: o lugar de quem precisa ir atrás das coisas para encontrar os documentos, as pessoas, as histórias, os vestígios e as relações que permitem compreender aquilo que está sendo pesquisado. Não foi a academia que me ensinou a ter rigor com a pesquisa. O rigor sempre esteve presente no meu modo de trabalhar. Independentemente de estar ou não dentro de uma instituição acadêmica, nunca dei espaço para a invenção de fatos. Posso interpretar os fatos, e interpreto. É parte do meu trabalho, seja como jornalista, seja como radialista, seja nos projetos e blogs em que escrevo, seja nos artigos científicos que venho produzindo. Nos últimos cinco anos, tenho produzido, em média, cinco artigos por ano, além da produção criativa. Essa passagem entre diferentes formas de produção não significa, para mim, uma passagem entre pesquisa séria e pesquisa não séria. Signifi...
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A história do cinema também é uma disputa pelo direito de olhar

Pensar o cinema exige também perguntar quem escreveu a sua história, quais imagens foram transformadas em marcos e quais experiências permaneceram durante décadas nas margens dessa narrativa. Talvez seja preciso começar justamente daí: o cinema possui uma história oficial e possui muitas histórias soterradas por ela. Quando se fala da origem do documentário, por exemplo, Nanook of the North , realizado por Robert Flaherty em 1922, aparece repetidamente como obra fundadora. Entretanto, seis anos antes, em 1916, no Brasil, Luiz Thomaz Reis filmava Rituais e Festas Bororo , no contexto da Comissão Rondon. O filme seria concluído e exibido em 1917. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros passaram a sustentar uma hipótese que modifica profundamente essa cronologia: Rituais e Festas Bororo pode ser considerado o primeiro documentário etnográfico da história do cinema. Isso significa que, antes de Nanook , havia no Brasil uma experiência cinematográfica construída a partir da permanênci...

Roberta Mártires leva Multifeira de marcas e produtos amazônicos ao Ponto de Cultura FICCA

A arte como encontro, circulação e território é a proposta da Multifeira – Encontro de Marcas e Produtos Amazônicos, que acontece no dia 12 de setembro, das 7h às 12h, no Ponto de Cultura FICCA, no bairro da Marambaia, em Belém. A programação coloca em evidência marcas e produções que têm na Amazônia não apenas uma referência estética, mas um território de criação, memória e pertencimento. À frente dessa iniciativa está Roberta Mártires, artista visual, produtora cultural, turismóloga, arte-educadora ambiental e crocheteira autoral. Sua trajetória reúne diferentes linguagens e experiências, sempre tendo como ponto de partida a relação entre arte, território e comunidade. No campo da produção cultural, Roberta acumula experiência na concepção, planejamento e realização de eventos, tendo participado de projetos como o FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté e realizado, em 2020, duas edições da Multifeira dentro do projeto Rios e Redes.  A nova ação também dialoga diretamen...

FICCA Ponto de Cultura amplia agenda cultural e prepara nova etapa de ações no Pará

O FICCA Ponto de Cultura inicia, neste mês de setembro, uma nova etapa de sua programação cultural, formativa e artística, reunindo atividades que se estendem até julho de 2027 e fortalecem a presença do Festival Internacional de Cinema do Caeté nos territórios onde desenvolve suas ações. O novo calendário articula cinema, literatura, música, teatro, dança, cultura popular, formação, memória e criação artística, aproximando artistas, pesquisadores, estudantes, professores, produtores culturais e comunidades em uma programação contínua construída a partir das redes de colaboração do FICCA. A agenda começa em setembro com a Multifeira – Multifário, na Casa FICCA, em Belém; a reabertura da Casa do Poeta; a exibição on-line das obras premiadas do FIM.ME; novas ações do Projeto Rosilene Cordeiro e o terceiro módulo da formação PHOMENTA. A Escola Municipal República de Portugal também integra essa nova etapa. O espaço receberá oficinas vinculadas ao Projeto OCUPA FICCA, ampliando o trabal...

Para quem é útil o voto útil ?

Diante desse debate sobre as “opções para o governo do Pará”, das pesquisas de intenção de votos e da recorrente fala sobre o “voto útil”, vamos começar por uma pergunta: por que candidaturas alternativas, como as do Bloco PSTU e da Unidade Popular, são sistematicamente invisibilizadas, como se sequer integrassem o debate político sobre o futuro do Estado? Como chegamos a um ponto em que as únicas opções consideradas competitivas são aquelas que o sistema político, empresarial e midiático apresenta como tais, enquanto outras candidaturas permanecem fora da narrativa antes mesmo que a sociedade tenha a oportunidade de conhecê-las, confrontá-las, criticá-las e pensar a partir delas? E há uma segunda pergunta, diferente desta, mas diretamente relacionada: qual foi o papel da pequena burguesia, dos intelectuais e dos artistas durante todos estes anos e de que lado eles se colocaram na construção dessa realidade? Porque precisamos olhar também para os brancos do centro da cidade, em seus co...

HUMBERTO CUNHA: MEMÓRIA EM MOVIMENTO

Entrevistar Humberto Cunha, para mim, Francisco Weyl, carpinteiro de poesia, foi reencontrar uma história política, humana e coletiva da qual também fiz parte. Humberto Cunha pertence a uma geração que pensou e viveu a política como campo de transformação concreta. Engenheiro agrônomo, defensor dos direitos humanos e homem público, construiu uma atuação marcada pela compreensão da Amazônia, da terra, da reforma agrária, da defesa ambiental, do combate aos agrotóxicos e das liberdades democráticas. Naquelas décadas, essas lutas se articulavam profundamente. A luta pela terra encontrava a luta pela moradia. A defesa dos trabalhadores do campo dialogava com as lutas urbanas. Educação, saúde, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, anistia e direitos humanos compunham um amplo campo de mobilização e construção democrática. Jornais alternativos, organizações populares, movimentos sociais, sindicatos, grupos de defesa dos direitos humanos e diferentes formas de organização política pa...

AGOSTO 22 - GLAUBER É E FOI E SEMPRE SERÁ GLAUBER

Glauber Rocha atravessa a minha vida como atravessa o cinema, com esta força estranha das coisas que pertencem ao tempo porque vivem dentro dele mas que o tempo não consegue possuir, e talvez tenha sido esta a primeira coisa que compreendi quando comecei a escrever sobre Glauber, que Glauber Rocha não está preso a tempo nenhum, que sua poética e sua estética cinematográficas eram dotadas de orientação ideológica mas não datadas, diferença essencial para quem compreende que a cultura pode ser datada mas a arte não, porque a arte alimenta-se das matérias culturais e simultaneamente escapa delas, avança sobre seus próprios cadáveres, destrói os nomes que inventamos para aprisioná-la e reaparece onde menos esperamos, razão pela qual nunca consegui aceitar Glauber simplesmente como um cineasta do Cinema Novo, encerrado numa década, numa escola, num movimento, numa cinematografia nacional, porque Glauber é uma força artística brasileira que atravessa a História para devolver ao homem a sua c...

José Ribamar Gomes de Oliveira: memória, poesia e as ruas de Bragança

José Ribamar Gomes de Oliveira nasceu em 1951, às margens do Rio Caeté, no bairro do Cereja, em Bragança do Pará. É desse lugar que começo a lembrá-lo, porque é também desse lugar que sua vida parece ter encontrado uma espécie de centro permanente: Bragança não foi apenas a cidade onde nasceu, mas a matéria que ele passou décadas pesquisando, escrevendo, ensinando e devolvendo aos outros através dos livros, das conversas, das instituições e dos projetos culturais que ajudou a criar. Sua formação em Letras e Artes pela Universidade Federal do Pará, onde foi orador de sua turma em 1997, deu passagem a uma trajetória em que a palavra acadêmica encontrou a experiência cotidiana da cidade, dos seus moradores, das suas ruas, dos seus templos, do rio, das festas, do cinema e das muitas histórias que Ribamar foi recolhendo ao longo do tempo. Quando penso nele, penso primeiro no professor Ribamar, que é como sempre gostei de chamá-lo. Foi uma pessoa que me acolheu e com quem aprendi bastante, ...