Eu sei que sou um vitorioso. E digo isso com orgulho, porque sou filho do meu pai, Zenito, e da minha mãe, Zinha. Tenho na minha cabeça o meu pai Ogum, o meu pai Oxóssi, a minha mãe Iansã, o meu pai Exu. Tenho em mim os pretos e as pretas velhas, o São Jorge Guerreiro. Eu sei que a vida é a coisa mais linda que existe e que o projeto humano é um projeto em construção. Dentro dessa condição, sei que sou um cidadão vitorioso e bastante privilegiado por ter estudado e hoje ser doutor. Mas confesso: nem sempre sei lidar com as derrotas. Embora eu não esteja derrotado neste momento. Porque, vindo de onde vim, passando pelo que passei, sendo quem sou e enfrentando o que enfrento, sou muito mais do que vitorioso. Sou rico. Profundamente rico. Abundantemente rico. Espiritualmente rico. Tenho os meus animais, a minha esposa, os meus filhos, meus irmãos e irmãs, meus amigos, os poemas, os filmes e toda essa arte que emana em mim. É isso que me movimenta no meu nomadismo, n...
Hoje Argentina e Inglaterra disputam uma vaga na final da Copa do Mundo. Escrevo antes da partida. Portanto, minha posição independe do resultado. Ela nasce de uma reflexão que o próprio Mundial vem provocando em mim. Tenho visto muitos brasileiros dizendo que não vão torcer pela Argentina em razão da questão do racismo e da omissão de muitos atletas argentinos diante das manifestações racistas de parte da torcida. Compreendo essa indignação. Quando alguém ocupa um lugar de referência pública, sua voz também produz responsabilidades. E o seu silêncio, diz muito. Mas, ao mesmo tempo, pergunto: por que nossa indignação para justamente aí? Se concentramos toda a crítica apenas sobre uma seleção, corremos o risco de deixar de lado outras hipocrisias que também atravessam o futebol mundial. A FIFA tornou-se uma das instituições mais poderosas do esporte. Seu modelo econômico movimenta bilhões e depende justamente do caráter planetário da Copa do Mundo. Não digo que a FIFA deva tratar todos ...