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Atirar para todos os lados, disparar contra si próprio: a engrenagem e o ruído

 Aqui pensando sobre as eleições para o Conselho de Cultura, nesse movimento em que me aventuro como candidato do segmento audiovisual. Aventuro-me não por ilusão institucional, mas por fricção. Sou desses militantes que atiram para todos os lados e também disparam contra si próprios, porque não me interessa uma política cultural confortável, tampouco a posição de vítima esclarecida. Interesso-me pela política cultural audiovisual de forma desinteressada, se é que isso é possível: sem projeto pessoal de poder, mas mirando justamente esse poder centralizador, hierárquico, que tudo corrói quando não é tensionado. Entro sabendo que o risco é alto. Que a engrenagem institucional tende a triturar quem não se adapta à sua lógica de procedimentos, atas, prazos e formalidades. Sei que, mesmo mantendo-me firme, lúcido e crítico, o processo em si é burocrático, pouco dialógico e estruturalmente distante da vida real do audiovisual que se faz nos territórios, nas bordas, nas urgências. O qu...
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FIM-ME abre inscrições para filmes de Médias-Metragens

Começam hoje, 20 de janeiro , as inscrições para o FIM-ME — Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens , novo certame internacional dedicado exclusivamente a obras que habitam o tempo do meio do cinema: filmes com duração entre 26 e 50 minutos . O FIM-ME surge como resposta a uma ausência histórica no circuito contemporâneo. Nem curta demais para o desenvolvimento de um gesto, nem longa o suficiente para se submeter às engrenagens industriais, a média-metragem foi sendo progressivamente empurrada para fora dos festivais, do debate crítico e das políticas de difusão. O festival nasce para reocupar esse espaço, afirmando a média-metragem como forma cinematográfica plena . Criado a partir das articulações construídas pelo FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté , o FIM-ME se estabelece como projeto autônomo , com identidade, calendário e processos próprios, sem interferir na culminância do festival-mãe. Desde a sua origem, o FIM-ME se constitui como uma articulação int...

CINEMA, REPRESENTAÇÃO CULTURAL E LUTA DE CLASSES NA AMAZÔNIA PARAENSE

Eu falo a partir da Amazônia paraense. Falo a partir do deslocamento contínuo entre territórios, comunidades, rios, escolas, periferias, aldeias, salas improvisadas de cinema e espaços institucionais que raramente compreendem o chão que pisam. Não falo desde um ponto fixo. Falo em movimento. Esse movimento não é figura de linguagem. É condição de existência. O corpo aprende antes da palavra. O olhar aprende antes do conceito. O cinema que faço nasce desse aprendizado lento, feito de retorno, de repetição, de presença insistente. O território não se entrega inteiro a quem passa. Ele exige tempo. Exige escuta. Exige permanência. Exige que a gente aceite não entender tudo de imediato. É desse lugar que penso a representação cultural. E eu nunca sei exatamente por onde começar quando o assunto é representação. Não porque falte tema, mas porque ele sobra. Ele chega carregado de ruído, de expectativa, de disputa, de gente falando em nome de outras gentes, de lugares falando por outros lugare...

FIM-ME: nasce o Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens

O surgimento do FIM-ME — Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens não é fruto de um gesto isolado nem de uma estratégia de expansão de marca. Ele nasce de uma constatação concreta, compartilhada por realizadores, pesquisadores e curadores em diferentes territórios: a média-metragem, historicamente decisiva para o ensaio cinematográfico, para o amadurecimento de linguagem e para o cinema-pensamento, foi sendo empurrada para fora dos festivais, do debate crítico e das políticas de difusão. Nem curta demais para o desenvolvimento de um gesto, nem longa o suficiente para se submeter às engrenagens industriais, a média-metragem tornou-se um território órfão. Paradoxalmente, isso ocorre justamente num tempo em que o cinema precisa de duração para escutar, experimentar e elaborar — sem a pressa do mercado nem o confinamento do exercício preliminar. O FIM-ME emerge como resposta a essa ausência: não como festival temático ou de nicho, mas como festival de forma, linguagem e gesto ...

FIM.ME — Festival Internacional de Filmes de Médias‑Metragens

Este festival nasce de uma ausência concreta no circuito contemporâneo: a média‑metragem — forma cinematográfica historicamente fértil, decisiva para o ensaio, para o cinema‑pensamento e para a maturação de linguagem — foi sendo progressivamente empurrada para fora dos festivais, do debate crítico e das políticas de difusão. Nem curta demais para o desenvolvimento de um gesto, nem longa o suficiente para se submeter às pressões industriais, a média‑metragem tornou‑se um território órfão — justamente quando o cinema precisa de tempo para escutar, tempo para experimentar e tempo para elaborar. O FIM.ME afirma a média‑metragem como cinema pleno: campo de elaboração estética, política e poética. Não é um festival temático, nem um festival de nicho. É um festival de forma, linguagem e gesto cinematográfico, orientado por um compromisso ético com um cinema humanista, socialmente engajado e esteticamente rigoroso. O FIM.ME nasce das articulações realizadas através do FICCA – Festival ...

Bragança: a volta do Cavalo de Troia - Por Carpinteiro de Poesia

Entre a poesia das ruas de Bragança e o pulsar da juventude carnavalesca, o bloco Cavalo de Troia anuncia seu retorno. Ausente desde o início da pandemia, o grupo se reorganiza para voltar à avenida com força total, prometendo até 2.000 abadás e a mesma espontaneidade que marcou seus primeiros carnavais. O Cavalo de Troia é um dos blocos mais irreverentes do carnaval. Inspirados na história grega, eles construíram um enorme cavalo de madeira que, em vez de esconder soldados, vinha recheado de cajuaçi, que é uma bebida tradicional de Bragança. A bebida era distribuída pela traseira da estrutura enquanto os foliões, vestidos de espartanos, empurravam o cavalo pelas ruas. A criatividade do bloco chamou atenção da cidade, ganhou repercussão na mídia e se tornou um destaque do carnaval bragantino, unindo sátira, cultura popular e muita brincadeira. Raízes na Juventude, Entre Amizades e Fantasias - A história do Cavalo de Troia começou como uma brincadeira entre amigos do bairro da Aldeia. E...

Notas para uma História Crítica do Cinema Periférico no Atlântico Paraense

A relação entre o FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté – e a Mostra Internacional de Cinema Negro (MICINE) não se sustenta em homenagens protocolares ou aproximações circunstanciais. O que une os dois projetos é uma orientação intelectual compartilhada: compreender o cinema como prática crítica, como forma de organização do pensamento político e como ferramenta de resistência estética diante das estruturas que historicamente tentam controlar os modos de ver e narrar o Brasil. A MICINE, sob a curadoria de Celso Luiz Prudente, consolidou a leitura de que a imagem negra é soberania – não resíduo folclórico, não tópico identitário, mas centro produtor de linguagem e conhecimento. Esse deslocamento do olhar, que reorganiza a história do cinema brasileiro, dialoga diretamente com o que temos desenvolvido no âmbito do FICCA: um campo emergente de reflexão sobre o cinema amazônida, especialmente aquele que nasce do Atlântico Paraense, território hoje reconhecido como Região do Cae...

Um longa de guerrilha na terra dos autoproclamados primeiros

Na terra onde todo mundo se arvora como “o primeiro” ou “a primeira”, sempre tentando apagar quem ousa aparecer no presente, é de se admirar que o longa-metragem paraense tenha renascido numa escola pública da Marambaia. Sim, na Escola Estadual Temístocles de Araújo, um professor de História chamado Sebastião Pereira resolveu desafiar não só a escassez de recursos, mas também a tentativa de apagamento: enquanto alguns repetiam que “desde Líbero Luxardo não houve nada”, ele fez. E fez do seu jeito, fiel a uma tradição de cinema de guerrilha, sem depender de holofotes ou patrocínios. O resultado foi Cabanos (BR, 2009, 60 min), sobre a Cabanagem, com 110 atores voluntários — alunos e ex-alunos — e gravações em Curuçá, Icoaraci, Mosqueiro, Cidade Velha e Ilha das Onças. O filme teve sua estreia oficial no histórico Cinema Olímpia, em Belém, consolidando a ousadia do projeto. Cabanos é mais que um filme: é resistência cultural em movimento, prova de que é possível fazer história na tela gra...

Marambaia na vanguarda da luta pelo clima em Belém

Na tarde de sábado (1.11), em Belém, a Marambaia — bairro urbano consolidado, de classe média, com raízes comunitárias e memória de luta — sai às ruas com o seu Cortejo Climático — e com algo mais raro que figurino, microfone e poesia: um método. Não começou agora O cortejo é episódio de uma história que vem sendo escrita há pelo menos dois anos — e protagonizada longe do centro, desde 2023 , quando a Marambaia fundava o seu Fórum Permanente de Políticas Públicas Periféricas  . A vulnerabilidade admitida, a autonomia exigida Bairro urbano, é classe média, tem asfalto e padaria, mas também tem enchente, calor extremo, remendo urbano e desigualdade de acesso . No documento base da Carta Climática  — ainda em construção — a formulação é direta: “A crise climática não é futura. É presente nas ruas, casas e corpos.” A ideia, repetida em reuniões, não busca piedade. Busca lugar de fala política : Se a COP vem, a pergunta na Marambaia virou provocação: “Quem fala por quem? Arte não ...