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Migração e identidade: a hibridização cultural dos Brasileiros em Portugal

O pensamento é tanto um puzzle quanto um pêndulo, tem uma estrutura modular, mas uma circularidade que reflete a própria condição humana. Se observarmos, por exemplo, as conquistas romanas, como este Império se expandiu até a Península Ibérica, nós observaremos que a médio e longo prazo, a construção de uma identidade linguística, ou de uma Nação, ela se origina no desmanche da língua, no latim vulgar, portanto, é esse latim vulgar que se expande, culturalmente, exatamente porque eram, por assim dizer, vulgares, ou pertenciam a subcategorias ou a submundos, os romanos que se deslocavam de Roma para habitar em outros países, a começar pelos próprios soldados, que pertenciam a castas inferiores e, portanto, não tinham o domínio da língua culta, e os pequenos comerciantes e demais pessoas que se deslocavam de Roma para habitar os demais países em busca do ouro. 

E essa colonização, portanto, ela se dá de baixo para cima, com a presença de pessoas das castas mais baixas que não tinham o domínio da cultura, da língua, e se impunham pelas armas, pelas forças, mas contraditoriamente, o fenômeno do substrato linguístico, onde, apesar da dominação, a diplomacia do imperialismo romano  negocia e perde a questão linguística, onde o latim, falado, sendo vulgar,  mistura-se com as demais línguas, algumas das quais, mais nobres e mais consistentes nas específicas regiões em que elas se instauraram.

Eu introduzi essa questão porque eu quero falar sobre o deslocamento de brasileiros a Portugal. Ora, o Brasil tem a língua-pátria como a língua portuguesa, que é a língua de um dominador que foi ao Brasil, no caso, Portugal, um colonizador, e impôs a sua língua, apesar de que nós temos as influências que são originárias às indígenas e as línguas indígenas estão em franco desaparecimento, exatamente por uma estratégia de dominação, portanto, Portugal chegou a desenvolver com os Jesuítas o Tupi-Guarani como uma língua intermediária, dialógica com as comunidades indígenas, que assediadas, foram perdendo as suas identidades linguísticas. 

Sabemos que antes da chegada dos pseudocolonizadores, as Américas eram habitadas por diversas nações indígenas, cada uma com suas etnias, culturas e línguas distintas, pertencentes a diferentes troncos linguísticos. É no decurso desse contexto que o Tupi-Guarani vai se impor como estratégia de diálogo e acaba por ser mitificado como um tronco linguístico, um acabamento, um ponto de encontro, uma interseção linguística das diversas nações indígenas para que o homem branco pudesse filtrar. Nós temos no Brasil esse fenômeno, em que o homem branco precisava filtrar para estabelecer o diálogo, que foi uma estratégia dos Jesuítas, que era uma Ordem que utilizava a educação como uma modalidade de contato e de domesticação das comunidades indígenas.

Então, nós temos nessa dimensão de dominação do Brasil a ocorrência de um fenômeno similar. Por ordem inversa, com a passagem dos anos, há uma grande migração de brasileiros praticamente para Portugal.

Dos 1.044.606 imigrantes legalizados em Portugal, 35,3% desse total, ou seja, 368.449 são brasileiros. Somente em 2023, quase 150 mil brasileiros foram autorizados a residir em Portugal. A migração ocorre por diversos fatores, considerando que Portugal pertence à comunidade europeia, apesar de que se diga que é o país mais africano da Europa ou mais europeu de África, o que seria até um elogio, considerando o diferencial que é Portugal para a própria Europa, sendo Portugal um país democrático, um país que respeita hoje as questões dos direitos humanos com bastante densidade cultural e recebe, por isso mesmo, diversos cidadãos estrangeiros, entre os quais os brasileiros. Mas aqui o racismo estrutural global é gritante, como em qualquer outro país.

O que eu tenho observado no fenômeno dessa migração é que não é simples se deslocar, é preciso recursos econômicos, há uma série de barreiras diplomáticas e burocráticas para que os brasileiros cheguem em Portugal, apesar dos acordos diplomáticos entre as duas Nações, supostamente unificadas por uma mesma Língua. E há exemplos desse substrato linguístico, que é um fenômeno que caracterizou a colonização da Península Ibérica, e há despeito do fato de falarmos numa determinada modalidade da língua portuguesa, que voa com o vento, que se expandiu em diversos países e diversos continentes, sendo uma das línguas mais faladas do mundo por milhões de pessoas, está em Timor, na Ásia, na China e na América Latina, sendo uma das mais faladas também pela quantidade populacional do Brasil, que dá essa grandeza quantitativa.

Voltando à questão do substrato e a migração de brasileiros para Portugal, eu diria que há um substrato intelectual, linguístico e cultural do brasileiro em Portugal, que, ao contrário de afirmar com maior força a própria cultura ou as culturas brasileiras, que são nos plurais, tornam-se ainda mais híbridas ao se contagiar e se contaminar pelas culturas que vão encontrar em Portugal, que é um país cosmopolita e que tem diversos níveis de culturas presentes e manifestadas, que influenciam essas culturas brasileiras representadas pelos cidadãos que cá estão. Mas isso não é um mal propriamente dito. Eu quero ainda construir a crítica ao fato de que muitos brasileiros que cá estão negam a sua própria cultura, e não trazem a dimensão histórica da formação e da própria origem do Brasil, não trazem a circularidade cultural de um diferencial miscigenado, fortalecido por uma identidade indígena e por uma identidade negra, e que, ao vivenciarem fora do país e numa dimensão histórica por vias inversas, o fenômeno desse substrato cultural, os brasileiros perdem ainda mais essa dimensão dessas identidades que são vilipendiadas e invisibilizadas no nosso país.

Eu diria que, na contemporaneidade, este fenômeno dos substratos culturais pelos cidadãos brasileiros em Portugal é do domínio de uma escolha intelectual, do domínio de uma subcategoria de brasileiros que raramente afirmam o seu território ou as suas identidades, até mesmo no seu próprio país. E, antes, é o contrário. O fato de estar cá faz com que se considerem muito mais cidadãos do mundo, portanto híbridos e sem identidades territoriais, diferente de raríssimos cidadãos brasileiros que têm os pés fincados na terra onde nasceram numa perspectiva cosmológica e simbólica e não apenas territorial.

E o fazem, não por uma compreensão da dimensão complexa de uma contemporaneidade, em que territórios são fronteiras a ser quebradas, numa dimensão burocrática, para que as pessoas tenham o direito de migrar e entrarem em qualquer país sem os problemas diplomáticos e econômicos que são interpostos. E a gente sabe que essas migrações acontecem muito mais por uma necessidade econômica do que por um desejo de uma ascese cultural. E quando esta ascese ocorre, ela é uma ascese essencialmente burguesa e branca.

Então, por uma necessidade econômica que faz com que os brasileiros para cá migrem, é também uma perda, traduz também a perda das suas identidades. E faz com que o cidadão brasileiro se submeta a uma lógica branca, neoburguesa, neocolonialista. Estou a dizer que são resultados de uma submissão dessas subcategorias hipócritas, vis, que são clássicas da história dessa contemporaneidade. Como brasileiro, eu me indigno e considero um subjugo ao neocolonialismo e às suas práticas neoliberais, de destruição dessas identidades, tornando-as cada vez mais híbridas, para que dentro dessa dimensão elas percam o seu valor, a sua força. E nesse suposto diálogo com o diferente, elas apaguem a sua própria história e esqueçam a sua força trágica, percam a sua memória. Este substrato linguístico operacional, técnico, tecnológico, psicológico e social, cultural, que nós vivenciamos, não fortalece. Ao contrário, é obviamente que destrói o brasileirismo histórico.

Carpinteiro de Poesia



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