Aqui pensando sobre as eleições para o Conselho de Cultura, nesse movimento em que me aventuro como candidato do segmento audiovisual. Aventuro-me não por ilusão institucional, mas por fricção. Sou desses militantes que atiram para todos os lados e também disparam contra si próprios, porque não me interessa uma política cultural confortável, tampouco a posição de vítima esclarecida. Interesso-me pela política cultural audiovisual de forma desinteressada, se é que isso é possível: sem projeto pessoal de poder, mas mirando justamente esse poder centralizador, hierárquico, que tudo corrói quando não é tensionado.
Entro sabendo que o risco é alto. Que a engrenagem institucional tende a triturar quem não se adapta à sua lógica de procedimentos, atas, prazos e formalidades. Sei que, mesmo mantendo-me firme, lúcido e crítico, o processo em si é burocrático, pouco dialógico e estruturalmente distante da vida real do audiovisual que se faz nos territórios, nas bordas, nas urgências.
O que se chama de “categoria” permanece, em grande medida, passiva. Observa os trâmites como quem assiste a um rito administrativo que não lhe pertence. Participa quando interessa diretamente — sobretudo quando há editais em jogo — e se afasta do debate estrutural, da formulação política, da disputa de sentido. Isso produz uma categoria funcional ao sistema: elitizada, concentrada, confortável com a centralidade da capital e com a lógica mercadológica que atravessa a política cultural contemporânea.
A Secretaria de Cultura, por sua vez, opera como centro irradiador de regras, critérios e valores que se impõem aos interiores, às margens, aos territórios que existem mais como estatística do que como potência política. Os editais tornam-se o principal — às vezes o único — horizonte de relação entre Estado e cultura, convertendo política cultural em política de mercado, com verniz democrático.
Candidatar-se, nesse cenário, não é gesto de crença. É gesto de exposição. É aceitar entrar num espaço que não foi desenhado para o conflito real, mas tentar, ainda assim, produzir ruído, fissura, deslocamento. Não para “representar” uma categoria idealizada, mas para lembrar que o audiovisual não é apenas produto, nem apenas projeto aprovado: é trabalho contínuo, prática territorial, disputa simbólica e política viva.
Talvez nada mude. Talvez algo se desloque. Mas ficar fora, neste momento, seria apenas confirmar o funcionamento tranquilo de uma máquina que só se move quando pressionada.
NOTA - Nos dias 21 e 22 de janeiro acontece a eleição para composição do Fórum Setorial do Audiovisual, etapa que antecede a escolha do conselheiro e do suplente do segmento.Este momento, para mim, não é sobre projetos individuais, mas sobre assegurar que o Fórum seja um espaço sério, plural e comprometido com o conjunto do campo audiovisual no Pará. Não trago aqui propostas nem discursos. Minha trajetória, meu tempo de atuação e meu modo de compreender o audiovisual como trabalho contínuo falam por si.

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