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A Bienal e o Capital

 Na Biennale di Venezia, o pavilhão de Israel virou foco de protestos por causa da guerra em Gaza, das denúncias internacionais contra o Estado israelense e das pressões de artistas, curadores e movimentos culturais que defendem boicote institucional. Parte significativa desse circuito, entretanto, pertence historicamente à burguesia e à pequena burguesia cultural internacional, integrada aos mercados de arte, às universidades, às fundações, aos bancos e aos próprios mecanismos de prestígio do capitalismo global, muitas vezes sem trajetória concreta de militância contínua junto aos povos historicamente massacrados pelo colonialismo e pelo imperialismo. Houve mesmo pedidos de fechamento do pavilhão e manifestações que interromperam temporariamente atividades ligadas à representação israelense.

Mas a crítica não pode parar apenas em Israel como exceção moral dentro de um sistema cultural que sempre esteve articulado ao capital internacional, às elites europeias e aos interesses geopolíticos do Ocidente.

Há uma seletividade moral no sistema da arte contemporânea. Determinadas guerras e massacres mobilizam o circuito internacional; outros, sobretudo os que atingem povos periféricos, indígenas, negros e latino-americanos, costumam ser absorvidos pelo silêncio institucional ou transformados em “tema curatorial”.

A Bienal pode acolher obras “anticoloniais”, “de resistência” ou “de denúncia”, enquanto continua financiada por estruturas econômicas associadas às mesmas formas de dominação criticadas nas obras. A Bienal nasce e se consolida como dispositivo de legitimação simbólica das potências econômicas. Ao longo do século XX e XXI, inúmeros patrocinadores, bancos, fundos e transnacionais ligados ao circuito artístico internacional estiveram — direta ou indiretamente — associados à exploração mineral, guerras, colonialismo econômico, destruição ambiental e violência contra povos da África, da América Latina e da Ásia.

No fim, a arte contemporânea institucional parece ter descoberto a fórmula perfeita da consciência tranquila: combater o capital com patrocínio da mineração, denunciar o colonialismo sob financiamento de bancos transnacionais e performar radicalidade estética enquanto os logos da Vale dos consórcios da Hidrelétrica de Belo Monte e da Belo Sun Mining Corp. seguem discretamente impressos nos bastidores do vernissage.


Carpinteiro de Poesia



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