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Cineclube, memória e cultura popular atravessam os 75 anos da República de Portugal na Marambaia

 


Na noite de 16 de setembro, o documentário “Dia do Cortejo” voltou ao território onde suas imagens nasceram. Realizado por Francisco Weyl entre 2010 e 2012, o filme sobre o Boi Vagalume da Marambaia foi exibido no Cineclube República de Portugal, na Escola Municipal República de Portugal, com a presença de Mestre Cuité Marambaia, amo e criador do Boi Vagalume.

A sessão reuniu estudantes da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI), professores e integrantes da escola, entre eles a coordenadora pedagógica, professora Monique, e o diretor, professor Tiago. O encontro acontece num momento particular da instituição: a aproximação de uma grande jornada de memória, marcada para 8 de outubro, dentro das comemorações pelos seus 75 anos.

Fundada em 1951, a Escola República de Portugal está mobilizando sua comunidade para reencontrar documentos, fotografias, objetos e pessoas que atravessaram suas sete décadas e meia de existência na Marambaia. O que, algumas semanas atrás, aparecia como horizonte do projeto começa agora a ganhar materialidade dentro da própria escola.

“Eles estão arrumando os arquivos, que são muitos arquivos mortos, materiais que ficam guardados”, relata Francisco Weyl sobre a conversa mantida durante a sessão com a direção da escola.

Professores e trabalhadores estão se organizando para entrar nesse acervo e levantar materiais que possam participar da programação do aniversário.

“Um grupo de professores, trabalhadores, vão revirar esse arquivo e o objetivo é fazer uma exposição no próprio dia 8 com muitos desses materiais de arquivo, boletins, notas, detalhes.”

A mobilização já ultrapassa o arquivo institucional. Fotografias antigas e boletins começam a aparecer por intermédio de professores e pessoas ligadas à escola. A comunidade também está sendo chamada a participar, trazendo objetos, documentos, histórias e pessoas que possam prestar depoimentos.

“As pessoas estão se mobilizando para trazer pessoas, para prestar depoimentos, trazer objetos, coisas. Então, no dia 8 vai ser um dia muito bonito na escola.”

É dentro desse processo que a sessão de “Dia do Cortejo” adquire seu sentido.

Um filme da Marambaia volta à Marambaia

Produzido há mais de uma década, “Dia do Cortejo” acompanha o Boi Vagalume pelas ruas do bairro e registra uma experiência cultural profundamente ligada à trajetória de Mestre Cuité. Suas toadas, brincadeiras, personagens e cortejos carregam experiências da comunidade e os “gritos de luta” que Cuité transforma em criação popular.

Rodmilson Cuité Lopes atua culturalmente na Marambaia desde os anos 1980. Mestre de Cultura Popular, artista, poeta, arte-educador, compositor, dramaturgo, ator, mestre de boi e cantor de carimbó, criou, entre outras experiências, o Urubu Cheiroso e o próprio Boi Vagalume.

Sua trajetória também se encontra há décadas com a de Francisco Weyl. Teatro popular, cinema, intervenções de rua, invenções artesanais e experiências desenvolvidas desde a antiga Troupe THE 4 PraCena constituem parte dessa caminhada compartilhada.

Por isso, a presença de Cuité na escola colocou diante dos estudantes uma pessoa cuja história cultural foi construída no mesmo território onde vivem. O filme trouxe outra camada: imagens da Marambaia realizadas entre 2010 e 2012 retornaram ao bairro em 2026, agora dentro de uma escola que começa a organizar cinematograficamente a memória de seus próprios 75 anos.

A sessão aproximou, assim, processos que já estavam em andamento.

Uma escola começa a mexer em sua própria memória

Desde novembro de 2025, quando o FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté e a Escola República de Portugal criaram o Cineclube e formalizaram um Protocolo de Intenções, as sessões e atividades formativas vêm sendo construídas com um horizonte definido: contribuir para a realização coletiva de um documentário sobre os 75 anos da instituição.

A preparação do dia 8 de outubro mostra uma nova etapa desse percurso. O arquivo começa a ser aberto; fotografias estão sendo procuradas; antigos documentos reaparecem; professores e trabalhadores se mobilizam; a comunidade é convocada; pessoas que fizeram parte da escola poderão chegar para contar suas histórias.

A câmera encontrará esse material.

E encontrará também as pessoas.

É nesse ponto que cineclubismo, formação audiovisual, arquivo e memória escolar começam a se aproximar de maneira mais concreta. O documentário dos 75 anos poderá nascer das imagens atuais, dos testemunhos e também daquilo que a própria escola conseguir retirar de seus arquivos e devolver à circulação.

A sessão de “Dia do Cortejo” participou dessa preparação. Ao assistir a um filme realizado no próprio bairro, os estudantes puderam encontrar no cinema pessoas, ruas, práticas culturais e experiências que pertencem à Marambaia.

O Cineclube dentro de uma rede maior de formação

O trabalho na Escola República de Portugal também está ligado a outro movimento atualmente desenvolvido pelo FICCA Ponto de Cultura.

A partir do edital de ocupação lançado pelo Festival, duas oficinas selecionadas serão realizadas na escola. Uma delas será conduzida pelo poeta e escritor Clei Souza: “O carimbó, o boi-bumbá e a capoeira no modernismo literário paraense”, aproximando manifestações da cultura popular amazônica da literatura paraense.

A outra será realizada pela professora e pesquisadora Andreza Barroso da Silva: “Elementos da Dançaeira: dança contemporânea e capoeira na Amazônia”.

Francisco Weyl situa essas atividades dentro da relação que o Festival procura construir com a escola:

“A questão da capoeira, da cultura popular, vai também para a escola nessa direção para colaborar, contribuir com a formação escolar, com a dialógica que a escola faz e o compromisso do festival de construção dessas oficinas.”

As oficinas da República de Portugal fazem parte de uma circulação que já começou em outros territórios. Em 15 de setembro, um dia antes da sessão na Marambaia, o OCUPA FICCA realizou na Escola Lauro Barbosa dos Santos Cordeiro, no Patal, em Augusto Corrêa, a oficina “Construção de Marketing Pessoal”, com a atriz-professora Marta Ferreira.

Outras ações envolvem parceiros e espaços que vêm compondo essa rede de circulação cultural do Festival.

“Estamos aí rodando essas oficinas. É importante acentuar o papel das oficinas, do Cineclube na formação, na agregação, porque a cultura tem esse espírito agregador. De reconhecimento das diferenças e das diversidades”, afirma Weyl.

A fala ajuda a localizar a sessão de 16 de setembro dentro do momento atual do FICCA. O Cineclube República de Portugal constitui uma frente desse trabalho; as oficinas do OCUPA FICCA constituem outra; as ações em diferentes territórios vão estabelecendo relações entre formação, produção cultural, escola e comunidade.

Há também um eixo que atravessa essas experiências: a possibilidade de produzir narrativas audiovisuais a partir dos próprios lugares onde as pessoas vivem.

“E o mundo cada vez mais caótico, com várias narrativas, nós estamos colaborando para a construção das narrativas audiovisuais a partir do próprio território das comunidades. E, para nós, é muito importante fazer esse laço com a escola.”

Na República de Portugal, essa perspectiva encontra um campo concreto. A escola possui 75 anos de histórias para investigar e começa agora a reunir documentos e testemunhos para contar parte delas. Está localizada em um bairro que também possui seus artistas, mestres, manifestações e memórias. E o filme exibido na noite do dia 16 nasceu justamente desse território.

Um FICCA em várias frentes

A sessão também permite enxergar o momento de trabalho que o Festival Internacional de Cinema do Caeté atravessa neste segundo semestre de 2026.

Enquanto mantém o Cineclube República de Portugal e participa da preparação da jornada de memória da escola, o FICCA Ponto de Cultura coloca em circulação as oficinas selecionadas pelo OCUPA FICCA e desenvolve outras parcerias comunitárias e formativas.

Ao mesmo tempo, prepara suas próximas ações cinematográficas.

No dia 6 de novembro, Bragança receberá as sessões presenciais do Festival Internacional de Filmes de Média-metragem, em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará – Campus Bragança.

Depois, nos dias 8, 9 e 10 de dezembro, também em Bragança e no IFPA, acontece a culminância da XI edição do Festival Internacional de Cinema do Caeté.

São processos acontecendo simultaneamente e ligados por uma rede de parceiros, escolas, artistas, pesquisadores, comunidades e instituições.

“Estamos realizando oficinas, estamos desenvolvendo sessões cineclubistas, estamos preparando as nossas culminâncias, o nosso festival e estamos tocando o nosso barco, com a graça de Deus.”

A frase guarda a oralidade de quem tenta reunir numa mesma fala várias ações que estão acontecendo ao mesmo tempo. E talvez seja justamente essa simultaneidade que melhor situe o FICCA neste momento: o Festival está em circulação.

Na noite de 16 de setembro, essa circulação aconteceu na Marambaia.

Um filme produzido entre 2010 e 2012 retornou ao bairro. Mestre Cuité esteve diante dos estudantes. A escola falou dos arquivos que começa a abrir. Professores e trabalhadores preparam documentos para uma exposição. Fotografias antigas estão chegando. Pessoas da comunidade começam a ser chamadas para contar suas histórias. Duas novas oficinas se aproximam. E o dia 8 de outubro vai se formando como um momento de encontro dessas memórias.

O Cineclube República de Portugal acompanha esse movimento com a câmera voltada para o próprio território.

Aos 75 anos, a escola começa a reunir suas imagens, seus documentos e suas vozes para contar sua história.


FRANCISCO WEYL - CARPINTEIRO DE POESIA




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