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OCUPA FICCA NO PATAL: JUVENTUDE, AUTOIMAGEM E PERTENCIMENTO EM UMA MANHÃ DE FORMAÇÃO


Uma manhã de oficina pode abrir processos que pedem mais tempo.

Foi uma das percepções deixadas pela passagem do Projeto OCUPA FICCA pela Vila do Patal, em Augusto Corrêa, onde a Escola Lauro Barbosa dos Santos Cordeiro recebeu, no dia 15 de setembro, a oficina “Construção de Marketing Pessoal”, conduzida pela atriz-professora Marta Ferreira.

A atividade integra a programação do FICCA Ponto de Cultura e reuniu 25 estudantes, além de professores, cuidadores e trabalhadores da escola. Durante a manhã, entre 8 horas e perto do meio-dia, houve dinâmicas de grupo, jogos, reflexão, partilha, escrita e produção de vídeos.

“Foi muito massa, a participação, o acolhimento das professoras, apesar da escola ser provisória, né, ser bem precária, mas a gente conseguiu fazer tudo que a gente pretendeu fazer, né, das dinâmicas até a filmagem”, conta Marta.

A proposta apresentada por ela ao FICCA destinava-se a jovens entre 14 e 18 anos e articulava audiovisual e expressão corporal. O percurso começava com dinâmicas de grupo e jogos teatrais para estimular observação e autoconfiança. Depois, cada participante registraria suas habilidades e potencialidades, organizaria uma minibio, participaria de apresentações em duplas e faria uma vídeo-apresentação individual, com duração de um a dois minutos.

No Patal, esse roteiro encontrou as condições concretas da escola e a participação da comunidade escolar.

Dois jovens da comunicação, mobilizados pelo professor José Carlos Barroso, apoiaram a realização dos registros. “Foi muito bacana, muito”, observa Marta ao lembrar dessa colaboração.

Antes das gravações, os estudantes passaram por situações de interação e reconhecimento de suas próprias habilidades. A câmera aparece no final de um processo que envolve corpo, palavra, convivência e a elaboração de uma apresentação de si.

É justamente essa dimensão que aparece na fala de José Carlos Barroso.

“Teve a parte da dinâmica, teve um momento de reflexão, teve um momento também de partilha com os colegas, né? Então foi muito produtivo, né?”

Barroso é colaborador local do FICCA há cerca de cinco anos e participa da articulação das ações realizadas pelo Festival naquele território. Seu depoimento situa a oficina dentro de uma relação que vem sendo construída entre o FICCA, a escola e o cineclubismo local.

“Essa parceria com o FICCA, a escola e o Cineclube Urumajó também faz com que a gente intensifique mais esse momento, né? De parar um pouco, sair da sala de aula, das quatro paredes e desenvolver essa parte também com os nossos alunos.”

A reflexão prossegue quando Barroso fala sobre aquilo que percebeu entre os estudantes:

“De eles se fazerem uma reflexão, eles se autoavaliarem, né? No sentido de parar um pouco, né? Rever algumas atitudes, conhecer, se conhecer mais ainda, né? Ter essa parte de pertencimento à comunidade.”

Autoimagem e pertencimento, assim, foram aparecendo dentro da própria experiência. Os jovens eram convidados a reconhecer habilidades e potencialidades, colocá-las no papel e encontrar uma maneira de falar sobre si diante da câmera. O exercício individual acontecia no interior de uma atividade coletiva, entre colegas, professores e pessoas da própria comunidade.

Ao terminar a oficina, Marta fez também uma avaliação de sua proposta. O roteiro previsto foi realizado, mas a experiência indicou que quatro horas são insuficientes para desenvolver todas as etapas com o tempo que ela considera necessário.

“Apesar de a gente ter feito tudo o que estava no script, é uma oficina para dois dias, no mínimo, para a gente ter uma qualidade melhor, até para mostrar com calma, para todos se verem.”

Esse “para todos se verem” toca um momento que acabou ficando reduzido pelo tempo. Os vídeos foram produzidos, porém a turma não conseguiu assistir coletivamente a todas as apresentações.

“Ontem a gente não teve tempo no final para que todos se vissem. Faltou a estrutura da caixa de som também para escutar legal o áudio. Mas são detalhes que realmente não comprometeram a qualidade da oficina.”

A observação de Marta passa a integrar a própria memória metodológica da experiência. Uma nova realização poderá reservar mais tempo para a exibição dos vídeos, para a escuta e para a conversa entre os participantes depois de se verem na tela.

O trabalho desenvolvido no Patal interessa ao FICCA também por aquilo que devolve ao processo mais amplo do OCUPA FICCA. As oficinas compõem uma programação continuada, com diferentes artistas, linguagens, escolas e territórios, e deverão seguir até 2027, quando está prevista uma residência artística.

Por isso, os depoimentos produzidos depois de cada atividade, os registros audiovisuais, as avaliações dos oficineiros e as falas de quem acompanha as ações localmente passam a constituir material de trabalho.

Depois da oficina, Francisco Weyl conversou com Marta sobre essa dimensão do registro:

“Tudo isso para nós representa conteúdo para produção de relatório, ou seja, esses relatórios, eles não são meramente institucionalizados, né, eles têm uma dimensão pedagógica.”

A dimensão pedagógica a que Weyl se refere envolve guardar também aquilo que cada pessoa traz para o processo: “O teu trabalho, a tua visão, a tua pedagogia, a tua metodologia. Então, isso aí é muito grande para nós.”

Nesse movimento, registrar deixa rastros para as ações seguintes. A avaliação feita por Marta sobre o tempo da oficina, por exemplo, já acrescenta uma informação que não existia antes de sua realização. O encontro com os estudantes mostrou uma necessidade metodológica que o projeto escrito ainda não poderia oferecer: dois dias permitiriam desenvolver melhor o processo e criar um tempo próprio para que os participantes assistissem às imagens produzidas.

A circulação pública desses registros também integra a construção do FICCA. Ao falar com Marta sobre a reportagem que seria produzida depois da oficina, Weyl comentou a escala e a natureza desse circuito:

“Ainda que no nosso pequeno circuito, mas é uma circulação de qualidade, né, o público que acessa, de qualquer forma, é qualificado, assim, no sentido de reverberar o texto com mais responsabilidade.”

E a medida dessa circulação não aparece em sua fala somente como quantidade:

“É uma notícia que, de fato, não vai ter milhões de pessoas assistindo, mas é uma notícia que muito nos alimenta, né, que potencializa a esperança.”

É nesse circuito que a manhã do Patal passa agora a circular.

A experiência reúne o projeto inicialmente escrito por Marta, aquilo que aconteceu dentro da escola, as condições encontradas, os vídeos realizados pelos estudantes, a participação dos profissionais da instituição, o apoio dos jovens da comunicação, a avaliação posterior da oficineira e o olhar de Barroso, construído a partir de uma relação continuada com o FICCA naquele território.

“Enfim, foi uma manhã muito produtiva aqui na Escola Lauro Barbosa dos Santos Cordeiro”, resume Barroso.

A oficina terminou perto do meio-dia, mas sua avaliação já aponta para uma próxima possibilidade. Marta saiu do encontro considerando que o trabalho precisa de pelo menos dois dias. Os participantes produziram vídeos que ainda pedem um tempo de visualização e escuta. Os registros passam a integrar a memória do projeto. E a experiência entra em relação com as demais oficinas que formarão o percurso do OCUPA FICCA.

“Essas cenas são construções que estão sempre em andamento, têm uma interligação entre elas, né, que se amplia”, diz Weyl.

No Patal, uma dessas construções aconteceu em 15 de setembro: estudantes reunidos durante uma manhã para experimentar o corpo, conversar, escrever sobre suas habilidades, olhar para si, falar diante de uma câmera e produzir suas próprias imagens.

Agora essa experiência segue seu percurso dentro do FICCA Ponto de Cultura, junto às outras ações que irão compor o processo até 2027.

CARPINTEIRO DE POESIA - FRANCISCO WEYL







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