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Leitura Crítica de Policarpo Quaresma: Arte, Nacionalismo e Tragédia em Lima Barreto


triste fim de policarpo quaresma, romance publicado pela primeira vez entre 11 de agosto e 19 de outubro de 1911, pela edição da tarde do Jornal do Comércio, no estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro.

afonso henriques de Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881 e morreu em 1922. estudou no liceu popular niteroiense, onde colaborou em grêmios, jornais e revistas. trabalhou como tipógrafo a vida toda. o jornalismo veio a fazer parte da vida dele no século xx. não se casou e viveu sempre com a família. o alcoolismo provocou várias vezes a internação dele em casas de recuperação. escreveu, entre outras obras, clara dos anjos, a nova califórnia e recordações do escrivão isaías caminha. era um escritor do período de transição de séculos, do romantismo para o realismo. em seus escritos, é possível ver uma análise crítica da sociedade brasileira.

a obra

em triste fim de policarpo quaresma, lima barreto traça o perfil de um herói brasileiro que não deu certo: policarpo quaresma, que incorporou ao nome o título de major. mesmo sem conseguir fazer carreira militar, ingressou na administração pública e dedicou-se ao militarismo. homem austero, pretende reformar o país e construir uma grande nação, com um povo digno, mas acaba tropeçando na ingenuidade de seus próprios ideais. ao longo do romance, atravessa um processo crescente de desilusão, que se aprofunda até o desfecho trágico da narrativa. quaresma apresenta um caráter megalomaníaco, sem plena consciência das consequências que seu modo de ser e agir pode provocar no mundo. seu destino trágico é perseguido como se estivesse ironicamente traçado por forças superiores, indiferentes ao caos brasileiro. incapaz de se integrar a essa realidade, ele se recusa a se render ao país como ele é, rendendo-se apenas a si mesmo, de forma quase antropofágica.

sinopse

policarpo quaresma. um brasileiro. do rio de janeiro. começo do século. subsecretário do arsenal de guerra. dedicado ao estudo da cultura nacional. sonhava um novo brasil, mas não admitia que, em nome dele, cometessem atitudes equivocadas e vis. justo. sua vida começa a mudar depois que adquire um violão e passa a aprender modinha, para ele a mais autêntica representante do sentimento artístico brasileiro. estuda os costumes indígenas e chega a sugerir, em requerimento ao congresso nacional, que se adote o tupi-guarani como idioma nacional. o repente romântico de resgatar as tradições do passado é tratado com desprezo pela imprensa e sociedade nacional.

quaresma vai parar num hospício depois de perder o emprego. quando se recupera da crise, vai morar num sítio, em são cristóvão, onde se transforma, ou pelo menos tenta se transformar, num bom trabalhador rural; e de onde só sai para entregar pessoalmente um manifesto ao presidente ditador marechal floriano peixoto, que, na época, enfrentava uma revolta. quaresma vai à luta em defesa da república e chega a ser ferido em combate. depois da vitória dos legalistas, redige uma carta ao presidente, criticando atitudes autoritárias e opressoras de alguns militares. vai preso por isso.

quaresma mora com a irmã adelaide e com ela sai de são januário para morar no sítio “sossego”, em são cristóvão. ela representa a típica mulher da época. educada. atenciosa. vive sossegada em seu canto e sempre discorda das ideias esquisitas do irmão. comporta-se como uma matrona que adotou o irmão como filho.

policarpo quaresma. um brasileiro. do rio de janeiro. começo do século. subsecretário do arsenal de guerra. dedicado ao estudo da cultura nacional. austero. sonhava uma nação forte, mas não gostava que, em nome dela, se cometessem atitudes equivocadas. era justo. por causa da pesquisa que faz sobre os costumes indígenas, sugere, em requerimento ao congresso nacional, que se adote o tupi-guarani como idioma nacional. esse repente romântico de retornar ao passado foi tratado pela imprensa e pela sociedade do país com muito escárnio.

quando se recupera da crise, vai morar com a irmã adelaide num sítio (“sossego”), em são cristóvão, onde se transforma em autêntico trabalhador rural. de onde só sai para entregar pessoalmente um manifesto ao então presidente floriano peixoto, que enfrentava uma revolta contra a república. quaresma participa da luta em defesa dos legalistas, mas aos poucos vai se desiludindo. acaba preso depois da vitória do governo por ter escrito ao presidente criticando as atitudes de certos militares que oprimiam o povo.

fazem parte do universo dele, primeiro em são januário, onde morava, os amigos albernaz (general que nunca foi à guerra, pai de muitas filhas que prepara para o casamento, entre elas ismênia, que morre de amor depois que o noivo desaparece e nunca mais lhe escreveu), coleoni, o compadre, e a afilhada olga, pessoa que lhe ajudou a subir na vida. há ainda os amigos e o cotidiano da repartição onde trabalhava como subsecretário. depois, em são cristóvão, o sítio, entra em cena o preto anastácio, caboclo trabalhador que o ajuda a limpar o terreno e plantar e colher os produtos que depois vende no rio de janeiro, e também os rivais políticos do local, antonino e o doutor campos. outros personagens que circulam a vida do major ao longo da história têm a sua importância específica, mas não determinam conflitos fundamentais da trama.

estrutura do romance

o brasil de policarpo quaresma está ainda se adaptando à nova forma de governo, a república. aqui e ali, há focos de resistências às mudanças. os militares representam a seriedade da nação. estão com as responsabilidades de colocá-la em contato com o mundo moderno. os covardes se calam, os oportunistas aproveitam. a política se manifesta no cotidiano da nação. o protagonista do romance é um dos tantos anônimos que sonham com a manifestação do governo da consciência nacional dentro desse ambiente histórico. é desta realidade que Lima Barreto retira os “fatos” da ficção.

é desta realidade que Lima Barreto retira os “fatos” da ficção. os conflitos criados pelo autor aconteceram, mas estão impregnados pela sua imaginação literária, ainda que o humano lhes seja estranho. a estrutura se desenvolve de uma maneira tradicional.

enredo / foco narrativo / tempo / espaço

o romance triste fim de policarpo quaresma, de lima barreto, está dividido em três partes de cinco capítulos cada uma. ao desenvolver a narrativa, o autor atua como um contador de história que não se preocupa com uma sequência lógica rígida, o que faz com que a obra ultrapasse a noção linear de ficção. triste fim de policarpo quaresma é um romance de estilo psicológico introspectivo.

a ação se organiza de acordo com a mudança de espaço vivida pelo major policarpo quaresma, que sai de são januário para o hospício, depois para o sítio em são cristóvão, no interior do estado, e por fim retorna à capital. apesar desses deslocamentos, o ambiente urbano predomina ao longo da narrativa. a paisagem rural e a descrição dos deslocamentos dos personagens também funcionam como elementos de caráter psicológico, revelando uma preocupação do autor em acentuar as diferenças entre os espaços onde a história se desenvolve.

lima barreto evidencia como certos ambientes favorecem mais facilmente o desenrolar dos conflitos narrativos. é impressionante a maneira como o autor trabalha o foco narrativo: embora escreva em terceira pessoa, interfere de forma intensa no desenvolvimento da trama, fazendo comentários pessoais carregados de ironia. essa postura transforma constantemente a relação do leitor com a narrativa, de acordo com os conflitos apresentados no romance.

nesse sentido, o tempo na obra de lima barreto torna-se maleável, ajustando-se às necessidades da própria narrativa. o tratamento psicológico dado ao enredo funciona como um mecanismo de controle, que o autor utiliza para sintonizar diferentes frequências narrativas, conduzindo o leitor pelos múltiplos planos da história.

características psicológicas das personagens

criador e criatura se misturam no romance de lima barreto, que também trabalhou como amanuense da secretaria da guerra em 1903. quaresma era subsecretário do arsenal de guerra. depois enlouqueceu e é tratado como louco. o pai de lima barreto sofreu várias crises em razão da doença mental. policarpo quaresma é o condutor da história, a personagem principal. tem hábitos reconhecidos por todos: chega todos os dias na mesma hora em casa, lê, almoça, tudo dentro de uma rotina que lhe interessa e da qual nem se dá conta. é absurdamente megalomaníaco. quer reformar o país, tocar violão, participar do folclore, questiona o anti-nacionalismo, duvida dos homens que se comportam como meros reprodutores de ideias alheias. como não pôde fazer carreira militar, decide estudar administração militar e consegue um emprego como subsecretário do arsenal.

estudava e lia bastante, sendo criticado por isso. o episódio do requerimento em que sugere que se adote o tupi-guarani como idioma nacional é consequência direta de seu orgulho infinito na brasilidade. suas conversas giravam sempre em torno do retorno às tradições nacionais. mesmo quando se retira em silêncio para o sítio, pretende edificar uma nova vida não apenas para si, mas também para a cidade de são cristóvão. queria que todos produzissem, que as terras abandonadas fossem trabalhadas pela comunidade. seu ideal é um ideal de consciência, com caráter típico, tipicamente brasileiro. sonhador, perseguidor de um país autêntico, de uma pátria mítica.

quando atravessou a rua onde morava em são januário com o violão sob um dos braços, causou espanto nos que o observavam sorrateiramente, sendo considerado um capadócio. foi por meio da arte que começou a enlouquecer. a arte tem essa possibilidade, pois abre os horizontes dos homens ao infinito divino. mas esse foi apenas um dos acontecimentos de sua vida. depois veio o requerimento e, por último, a carta endereçada ao presidente marechal ditador floriano peixoto, tecendo críticas aos militares. policarpo quaresma era romântico, profundamente humano, sobremaneira antropofágico, como macunaíma, um herói sem caráter.

era conhecido nos subúrbios cariocas, embora não fosse do povo. tocava nas festas e começava a receber o reconhecimento que lhe era devido. era pobre, morava num subúrbio afastado e levava a vida com dificuldades. vivia mergulhado no próprio mundo, sonhando, como os artistas, em ser alguém, ter sucesso. sua figura é fundamental ao romance triste fim de policarpo quaresma. é ele o mestre do major nas aulas de violão e é ele quem, no final do romance, se mostra amigo leal e companheiro do major, tentando convencer as pessoas da inocência de quaresma e lutar por sua libertação quando este é preso.

adelaide é a tia de quaresma. vive sossegada em seu canto e sempre discorda das ideias esquisitas do irmão. não se mete nas coisas e comporta-se como uma senhora que adotou o irmão como filho. vai para onde o irmão vai, está sempre ao lado dele, nada questiona, apenas vive comportando-se como uma típica mulher de sua época. era educada, muito educada.

olga é a filha do compadre de quaresma. representa a mulher forte, crítica, dotada de admiração pelo padrinho. procura entender seus ideais. é ela quem sugere a quaresma a mudança para o sítio. é ela quem consegue a dispensa do marido junto ao arsenal peixoto, que é médico e cuidará da vida de quaresma quando este estiver no hospital público. é também quem, no final do romance, tenta articular a libertação de policarpo. tem o pé no chão e representa a nova mulher do novo mundo.

coleoni é o pai de olga e compadre do major policarpo quaresma. recebeu ajuda dele e até o fim do romance comporta-se fiel a essa amizade. por ser italiano, estrangeiro, mantém-se tranquilo e não se envolve nas políticas do brasil.

antônio dilan é confidente enfrentado por floriano. era pobre e humilde, mas depois que ascendeu socialmente tornou-se soberbo, embora permanecesse amigo. tem horror ao povo e às questões sociais, mas evita o confronto por causa da filha. gosta de viajar e desloca-se com frequência para a europa. foi um dos poucos que ajudou o major quando este esteve internado no hospício.

ismênia é uma das filhas do general albernaz, amigo de quaresma. foi educada para o casamento. era noiva de cavalcanti, que desapareceu sem romper o compromisso. ela ficou à espera de uma carta que nunca chegou. passou a viver isolada, sendo considerada estranha pelos moradores da casa do general. tipicamente romântica, não conseguiu arranjar outro homem. entristeceu-se e, ao ver as irmãs se casando, perdeu o vestido de noiva e deixou-se morrer.

general albernaz é um militar, amigo de policarpo. cuida de uma família com cinco filhas. trata bem os dependentes, chegando a ajudá-los nos estudos. nunca foi à guerra, mas fala dos movimentos militares como se tivesse participado deles.

comandante bustamante, almirante caldas e tenente flores são amigos do general. servem de apoio aos diálogos, com ideias nacionais que não ultrapassam o militarismo e comentários preconceituosos sobre o povo.

dona maricota é a esposa do general albernaz. cumpre o papel tradicional de mulher e mãe, sempre ao lado do marido e preocupada com a educação das filhas.

genecio é o marido de quitéria, uma das filhas de albernaz. trabalha no tesouro nacional, torna-se confidente e escreve sobre os acontecimentos.

anastácio é o preto velho empregado do major no sítio. ajuda quaresma no trabalho da terra. tem uma filosofia de vida interiorana, cuja sabedoria está além das academias e das ideias nacionalistas.

felizado é outro empregado do major. é fofoqueiro, conta tudo o que ocorre na vila e vive escondido com medo de ser recrutado pelo exército para combater os revoltosos.

mano carneiro é outro empregado de quaresma no sítio. ajuda-o na segunda parte da limpeza do terreno.

antonino é empregado do fisco e mora em são cristóvão. é político do local.

dr. campos é vereador, típico político de são cristóvão. tentou sem sucesso conquistar o apoio do major e, depois disso, resolveu persegui-lo e puni-lo legalmente.

floriano peixoto é o marechal ditador, figura prestigiosa, conduzida ao posto de estadista sem explicação clara. o autor do romance dá a ele um tratamento crítico, ressaltando sua época e a incapacidade de combater os revoltosos.

estilo e linguagem / tipos / a ordem das críticas

lima barreto deixa a impressão de escrever da mesma forma que pensa. os acontecimentos do romance se sucedem com rapidez, de modo que o leitor percebe, nas entrelinhas, o movimento do pensamento do autor. sua literatura é simples, mas profundamente crítica. seu estilo lembra machado de assis, sobretudo pela capacidade de realizar análises sociológicas do país. descreve de forma simples e, ao mesmo tempo, profunda todos os elementos que se relacionam com a vida do major policarpo quaresma.

o autor traça um perfil despido do rio de janeiro do começo do século xx. relata a vida comum do bairro de são januário, onde quaresma morava, mostrando o comportamento cotidiano e rotineiro do major e de sua vizinhança. quando desloca a narrativa da cidade para o interior, evidencia as diferenças entre os espaços e entre as pessoas que os habitam. investiga a fundo a psique das personagens do romance e as relações que elas estabelecem com a existência.

lima barreto é um crítico feroz e irônico de seu tempo. concentra seus comentários pessoais nas instituições que, já naquela época, se encontravam falidas: a burocracia militar, a família burguesa, o casamento, a ascensão social e a política. de todos os assuntos tratados pelo autor, a guerra — a revolta enfrentada pelo marechal floriano peixoto — é a que mais desperta atenção. inicialmente, ele a analisa da mesma forma que os demais acontecimentos do romance, esclarecendo sua influência sobre o comportamento das personagens e, consequentemente, sobre as mudanças que orientam a obra.

lima barreto desvela e critica a carreira de floriano peixoto, situando-o como um ser político produto do fetiche e de uma invenção pré-histórica e retrógrada do povo brasileiro. essa leitura torna o romance extremamente atual, transformando o autor num sociólogo bem-humorado e esclarecido, capaz de iluminar a dependência de certos personagens e do próprio governo, bem como a incapacidade do marechal de enfrentar diretamente a revolta. a maquinaria do poder político, materializada na guerra, aparece como uma das expressões mais reais da natureza humana: nada é mais devastador e, ao mesmo tempo, mais devastado do que ela.

no sítio em são cristóvão, onde se localiza a propriedade do major, a guerra chega a unificar inimigos, como ocorre com dr. campos e antonino. o enfrentamento armado entre republicanos e revoltosos, num primeiro momento, causa espanto à sociedade, mas depois passa a não provocar mais estranhamento. a cidade habitua-se aos sons constantes de tiros disparados contra navios que ousavam enfrentar o presidente floriano. balas invadem lojas, e portas inauguram uma indústria e um comércio que passam a lucrar com a própria violência. a guerra surge, assim, também como disputa e como concretização de um imaginário popular, pois o ser humano está sempre, de algum modo, em guerra contra os problemas que surgem à sua frente. o romance expõe, sem disfarces, a violência humana.

outro aspecto tratado pelo autor é a submissão de alguns personagens ao governo. observa-se uma profunda alienação e bajulação, como nos casos de genecio, noivo de quitéria, uma das filhas do general albernaz, e de dr. armando borges, marido de olga, filha de coleoni, compadre de quaresma. para esses personagens, apenas a ascensão social por meio de um emprego público parece valer a pena. o mundo dos militares, seus pensamentos e a burocracia das repartições são alvos de críticas profundas de lima barreto, que não deixa escapar nenhuma atitude hipócrita das personagens ao longo do enredo.

a vida política em são cristóvão também é marcada por disputas e ridicularizações, sobretudo envolvendo os políticos locais, antonino e dr. campos, um médico astuto diante da ignorância popular. essa ignorância, porém, adquire outro valor na figura do preto anastácio, que nunca frequentou escola, mas revela conhecimentos advindos de uma sabedoria simples e interiorana, situada além de qualquer academia. lima barreto critica severamente a sociedade burguesa e, de modo particular, a família do general albernaz, como forma de expor a decadência humana. suas filhas foram criadas e preparadas não apenas para o casamento, como se o matrimônio fosse uma simples estratégia de ascensão social. ismênia é a principal vítima desse condicionamento: educada para casar, não chega a questionar essa lógica e acaba sucumbindo a ela.

olga surge como exceção. embora aceite o casamento, rebela-se contra os valores familiares e critica a hipocrisia presente no seio da família. lima barreto estabelece um paralelo claro entre as duas personagens femininas: ismênia morre por nunca ter conseguido viver por si mesma, apenas reproduzindo os valores de sua época; olga, mesmo submetida a esses valores, consegue debatê-los criticamente ao longo do romance.

dois fios centrais atravessam a narrativa: a arte e a loucura. a arte aparece representada por ricardo coração dos outros, que introduz o major no violão, embora policarpo já demonstrasse tendências artísticas anteriores. gostava de ler, buscava conhecimento, interessava-se pelas tradições nacionais e pelas diversas áreas do saber. os acontecimentos em sua vida passam a prejudicá-lo de forma mais acentuada depois que se aventura no violão e inicia as aulas com o mestre do subúrbio, ricardo coração dos outros.

há, no romance, uma paixão intensa ligada ao nacionalismo e à arte. artistas aparecem como seres transcendentes, capazes de abrir horizontes para além da vida ordinária. a arte, porém, não serve de escudo para o major, mas de caminho para a revelação de sua dignidade. policarpo nunca aprendeu formalmente a tocar violão; tocava por instinto, de maneira orgânica à sua sensibilidade. é sintomático que ricardo seja a única personagem que se mobiliza efetivamente para tentar libertar o major após sua prisão, assim como é significativa a ausência de olga nessa empreitada final.

o autor traça, assim, um paralelo entre ricardo e olga, personagens autênticos em sua essência, nunca hipócritos. a arte, para quaresma, não é cosificação de aprendizado, mas essência. por ser brasileiro, tipicamente brasileiro, sonhador de uma nação nova, forte e justa, ele sai do senso comum, é ridicularizado e incompreendido. por isso o rotulam como louco. entretanto, o major policarpo quaresma não enlouquece. deixa-se apenas conduzir pela beleza de seus ideais, mais profundos que sua vida rotineira e mais profundos que a hipocrisia social de sua época. a loucura que lhe atribuem é uma loucura institucionalizada.

o triste fim de policarpo quaresma é, paradoxalmente, também um fim feliz, como pensa olga. ao perceber a vontade dos burocratas militares, ela decide não mais interceder pela libertação do major. pedir liberdade àqueles homens tornaria pequena toda a obra de sua vida. policarpo quaresma permanece, assim, como o artista, o criador, o pensador, o transformador e, sobretudo, o homem.


FRANCISCO WEYL














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