A defesa da minha tese Kynema – Estéticas de Guerrilhas, Poéticas das Gambiarras, Tecnologias do Possível, realizada em 27 de março, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará, não se reduz a um ato acadêmico. Ela condensa um percurso, torna visível um campo de forças, explicita um modo de pensar e fazer que venho construindo na travessia entre arte, cinema, território e ação cultural na Amazônia.
Chego a esse momento a partir de uma trajetória em que produção intelectual, criação artística e intervenção sociocultural não se separam. Escrevo, filmo, performo, organizo, articulo — e é nesse entrelaçamento que a pesquisa se constitui. Um pensamento que não se coloca à distância do mundo, mas que se dá em presença, implicado nos contextos amazônidas, atravessado por suas tensões, suas urgências e suas potências.
Ao mesmo tempo, esse percurso se expande em deslocamento. O estágio doutoral na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa intensifica essa abertura e consolida uma rede que atravessa Brasil, Portugal e África lusófona. Nesse trânsito, o cinema de guerrilha se afirma também como linguagem de circulação, como prática de encontro, como possibilidade de construção de outras cartografias sensíveis.
A tese se organiza a partir de três operadores — estéticas de guerrilhas, poéticas das gambiarras e tecnologias do possível. Não são categorias fixas. São ferramentas em movimento. Nascem do fazer, retornam ao fazer. Operam na precariedade como campo de invenção, no improviso como inteligência técnica, na coletividade como fundamento. É nesse terreno que o cinema se reconfigura como prática viva.
A Amazônia, no meu trabalho, não aparece como cenário. Ela se afirma como pensamento. Quilombos, comunidades ribeirinhas, periferias urbanas, circuitos culturais independentes — são nesses espaços que o conhecimento se produz, se partilha, se transforma. As práticas audiovisuais, performativas e pedagógicas que desenvolvo nesses territórios ativam memória, história e educação em artes como dimensões inseparáveis.
Esse percurso deixa marcas concretas. Nos artigos publicados, como Contra os canhões: o cinema brasileiro na cena lusíada, do Cinema Novo às estéticas de guerrilha e Experiências do cinema de guerrilha no quilombo do América, o debate se desloca e se projeta, estabelecendo diálogo com outros campos e outras geografias do cinema. Nos capítulos de livros — FICCA, Afrikateua e Cinemateua, Práticas e memórias do cinema de guerrilhas no quilombo do América, Dona Maria, a artesania das resistências, Relações de força e produção audiovisual no Nordeste Paraense, Imaginário de Cabo Verde pelo Brasil — esse pensamento se aprofunda, se enraíza, se desdobra em diferentes frentes, sustentado por circuitos editoriais que garantem sua circulação.
As comunicações científicas, apresentadas em eventos no Brasil e no exterior, ampliam esse movimento. A presença no III Seminário Internacional de Memórias Cênicas da Amazônia e na Conferência Internacional Processos de Criação, na Universidade do Algarve, intensifica o trânsito da pesquisa e reforça sua dimensão internacional.
Em paralelo, mantenho a escrita em fluxo contínuo no Blog Carpinteiro de Poesia. Textos como Resistência Climática e a Arte como Prática de Sobrevivência do Cinema de Guerrilhas, Vivências do Cinema de Guerrilhas – Resistência Climática em Braga, (In)certas memórias de uma Benquerença que vive na pena do Corisco, Contribuição à História do Cineclube e do Cineclubismo no Pará seguem acompanhando o pensamento em movimento, em contato direto com o tempo presente.
Filmar também é pensar. A Alma das ruas, Ecopontes, #ForaCargill, Do lugar onde se vê não se colocam fora da tese — são parte dela, são modos de elaborar imagem, território e experiência. Da mesma forma, as performances e exposições que realizei — Apologia à Crise, a Trilogia EXERCITO.Ogum — ativam o corpo como campo de conhecimento, instauram presença, produzem sentido no encontro.
Minha atuação como poeta, editor e articulador cultural em Belém e Bragança atravessa tudo isso. Não como atividade paralela, mas como extensão direta do pensamento. É nesse trânsito entre linguagens que a pesquisa ganha corpo, respira, se mantém em movimento.
Na Linha de Pesquisa 3 — Memórias, Histórias e Educação em Artes — encontro um campo de ressonância. O cinema, aqui, se afirma como dispositivo de formação. As práticas cineclubistas, as oficinas, as ações culturais e comunitárias operam como modos de transmissão de saberes, ativando pedagogias sensíveis, construídas no encontro, na escuta, na partilha.
O Abecedário do Cinema de Guerrilha emerge desse processo como síntese e projeção. Um conjunto de operadores que organiza o pensamento em outra forma, condensando conceito e linguagem poética. Sua indicação para publicação, junto com a tese, reconhece essa força e aponta para sua continuidade.
A defesa não encerra o percurso. Ela intensifica. O diálogo que estabeleço com o Grupo de Pesquisa PERAU e a aproximação com o Ponto de Cultura FICCA abrem um novo campo de ação: webinários, formações, mostras, oficinas, rodas dialógicas. Espaços de pensamento em prática, de conhecimento em circulação, de território em ativação.
É nesse movimento que me situo.
Entre imagem e palavra, entre corpo e território, entre memória e invenção.
Um cinema que não se fixa — se faz.
E ao se fazer, pensa.
CARPINTEIRO DE POESIA FRANCISCO WEYL
SERVIÇO -
Título da obra:
KYNEMA: ESTÉTICAS DE GUERRILHAS, POÉTICAS DA GAMBIARRA E TECNOLOGIAS DO POSSÍVEL NA AMAZÔNIA PARAENSE
Autor:
Francisco de Assis Weyl Albuquerque Costa
Presidente / Orientador:
Prof. Dr. José Denis de Oliveira Bezerra (UFPA)
Banca Avaliadora:
Prof.ª Dr.ª Ana Cláudia da Cruz Melo (UFPA)
Prof. Dr. André Luis dos Santos Queiroz (UFF)
Prof. Dr. Celso Luiz Prudente (USP/UFMT)
Prof. Dr. Savio Luís Stoco (UFPA)
PROGRAMA DE PÓS-GRADUCAÇÃO EM ARTES
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

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