O Oscar talvez seja hoje a face mais sofisticada da hipocrisia cultural do capitalismo global. Hollywood construiu uma indústria capaz de transformar sofrimento humano em espetáculo rentável, consciência política em marketing e tragédia coletiva em prestígio internacional. Mas o problema não está apenas nos filmes, nos discursos ou nas celebridades. Está sobretudo nos financiadores invisíveis que sustentam essa engrenagem mundial do entretenimento.
Grande parte da indústria cinematográfica internacional, dos megaeventos culturais e até dos circuitos da arte contemporânea opera sob financiamento direto ou indireto de bancos transnacionais, fundos financeiros, plataformas tecnológicas, conglomerados empresariais e grupos de investimento profundamente ligados às estruturas econômicas que atravessam guerras, mineração predatória, petróleo, destruição ambiental, especulação financeira e colonialismo econômico contemporâneo. Os mesmos capitais que circulam entre corporações armamentistas, megaprojetos de expropriação territorial e cadeias globais de devastação aparecem também patrocinando festivais, premiações, museus, bienais e campanhas milionárias do cinema internacional.
O Oscar tornou-se uma espécie de liturgia elegante da absolvição moral do capital. Premiam filmes sobre injustiça enquanto seus financiadores seguem lucrando com um modelo planetário produtor de desigualdade, deslocamentos humanos, devastação ecológica e violência estrutural. Discursos emocionados sobre direitos humanos convivem tranquilamente com investidores associados aos próprios mecanismos econômicos que alimentam guerras e destruições em escala global.
Os protestos na Bienal de Veneza contra o pavilhão de Israel apenas expuseram uma fissura já antiga dessa indústria. O circuito artístico internacional demonstra indignação diante de determinados massacres, mas raramente questiona com a mesma intensidade os bancos, fundos e corporações que financiam tanto os conflitos quanto os próprios espaços culturais onde a indignação é performada. A crítica torna-se seletiva porque o mercado aprendeu a incorporar até mesmo a estética da revolta como parte do seu funcionamento simbólico.
No fim, a indústria global da arte e do entretenimento parece ter encontrado a fórmula perfeita da consciência tranquila: denunciar a barbárie sob patrocínio daqueles que lucram com ela.
Carpinteiro de Poesia

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