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Antes da final: algumas notas sobre a Copa do Mundo - CARPINTEIRO DE POESIA


Hoje Argentina e Inglaterra disputam uma vaga na final da Copa do Mundo. Escrevo antes da partida. Portanto, minha posição independe do resultado. Ela nasce de uma reflexão que o próprio Mundial vem provocando em mim.

Tenho visto muitos brasileiros dizendo que não vão torcer pela Argentina em razão da questão do racismo e da omissão de muitos atletas argentinos diante das manifestações racistas de parte da torcida. Compreendo essa indignação. Quando alguém ocupa um lugar de referência pública, sua voz também produz responsabilidades. E o seu silêncio, diz muito.

Mas, ao mesmo tempo, pergunto: por que nossa indignação para justamente aí?

Se concentramos toda a crítica apenas sobre uma seleção, corremos o risco de deixar de lado outras hipocrisias que também atravessam o futebol mundial.

A FIFA tornou-se uma das instituições mais poderosas do esporte. Seu modelo econômico movimenta bilhões e depende justamente do caráter planetário da Copa do Mundo. Não digo que a FIFA deva tratar todos os assuntos indistintamente. Isso seria impossível. Mas, quando as questões envolvem ética, dignidade humana e violência, penso que existe uma responsabilidade institucional que não pode simplesmente ser ignorada.

Também me chama atenção a forma como determinados acontecimentos recebem enorme repercussão, enquanto outros praticamente desaparecem do debate público. Isso também precisa ser pensado.

A FIFA chegou a fazer um minuto de silêncio em homenagem a um atleta africano, da África do Sul, que disputou o Mundial e faleceu. Ao mesmo tempo, ignorou completamente a morte de um goleiro palestino.

O meio-campista sul-africano Jayden Adams, de 25 anos, foi encontrado morto em sua casa na Cidade do Cabo no dia 11 de julho. O goleiro Saleem Al-Ashqar, de 32 anos, defendia o Khadamat Khan Younis, morreu após ser baleado durante uma ação do Exército de Israel na região de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, segundo informou a Associação Palestina de Futebol, PFA. Al-Ashqar também atuou por Al-Aqsa e Al-Masdar ao longo da carreira. O Exército israelense não se pronunciou sobre o caso até a divulgação da informação.

Nós sabemos e quando não sabemos, procuramos saber, porque muitas informações de guerra são escondidas, deturpadas, o quanto o povo palestino sofre, é humilhado e vive sem instrumentos mínimos de reação diante do que acontece hoje no mundo, portanto, existe uma hipocrisia deliberada.

Ao dizermos que não torcemos pela Argentina por causa do racismo, também precisamos olhar para a Inglaterra. Sua história está profundamente ligada ao colonialismo, às guerras de ocupação e à expansão de um modelo de poder que marcou diferentes partes do mundo.

E precisamos olhar para nós mesmos.

O Brasil continua sendo um país profundamente racista, machista, conservador e desigual. Seria confortável localizar todos os problemas apenas do outro lado da fronteira.

Há ainda outra questão que me inquieta.

Hoje os atletas também são grandes plataformas publicitárias. Muitos emprestam sua imagem para campanhas comerciais que movimentam bilhões de dólares. Basta observar o crescimento da publicidade das casas de apostas durante esta Copa. O futebol transformou-se também em um enorme mercado, e isso produz escolhas sobre aquilo que ganha visibilidade e aquilo que permanece em silêncio.

Vivemos um mundo de cabeça para baixo. Um mundo em que muitas vezes os valores parecem invertidos e em que determinadas violências acabam sendo naturalizadas enquanto outras despertam indignação imediata. É justamente contra essa seletividade que penso ser necessário refletir.

Por isso, não vou dizer que sou contra a Argentina. Também não vou declarar apoio à Inglaterra.

Hoje me coloco, antes de tudo, como um cidadão da América Latina.

Se continuo acompanhando esta Copa, minha simpatia está voltada para a Espanha. Essa escolha também possui uma dimensão política. Entre as grandes lideranças europeias, o governo espanhol foi um dos poucos a manifestar publicamente solidariedade ao povo palestino diante da tragédia humanitária em Gaza. Para mim, essa posição também importa.

É necessário muito mais do que um minuto de silêncio diante das tragédias do nosso tempo. É necessário enfrentar as hipocrisias que atravessam o esporte, a política, a economia e o próprio modo como escolhemos aquilo que merece nossa indignação.

Não basta afirmar que a Argentina convive com o racismo. Precisamos reconhecer que a Inglaterra possui uma história colonial profundamente violenta, que a Espanha também enfrenta problemas relacionados ao racismo e que o Brasil continua carregando, diariamente, marcas profundas do racismo estrutural, do machismo e de tantas outras desigualdades.

A Copa segue.

O mundo segue.

E nós também seguimos, tentando olhar para o futebol sem perder de vista a humanidade que existe para além dos estádios.

Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia





FONTES:

https://www.facebook.com/jornalnota/posts/a-associa%C3%A7%C3%A3o-palestina-de-futebol-pfa-confirmou-o-assassinato-do-goleiro-saleem-/1522586823228350/

https://www.aljazeera.com/sports/2026/7/3/gaza-sports-community-pledges-to-continue-legacy-of-killed-goalkeeper

https://oglobo.globo.com/esportes/noticia/2026/07/02/goleiro-palestino-e-morto-pelo-exercito-israelense.ghtml

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