Pular para o conteúdo principal

Vindo de onde vim, passando pelo que passei, sendo quem sou e enfrentando o que enfrento, sou muito mais do que vitorioso, sou rico

 

Eu sei que sou um vitorioso. E digo isso com orgulho, porque sou filho do meu pai, Zenito, e da minha mãe, Zinha. 

Tenho na minha cabeça o meu pai Ogum, o meu pai Oxóssi, a minha mãe Iansã, o meu pai Exu. 

Tenho em mim os pretos e as pretas velhas, o São Jorge Guerreiro.

Eu sei que a vida é a coisa mais linda que existe e que o projeto humano é um projeto em construção. Dentro dessa condição, sei que sou um cidadão vitorioso e bastante privilegiado por ter estudado e hoje ser doutor. Mas confesso: nem sempre sei lidar com as derrotas.

Embora eu não esteja derrotado neste momento.

Porque, vindo de onde vim, passando pelo que passei, sendo quem sou e enfrentando o que enfrento, sou muito mais do que vitorioso. Sou rico. Profundamente rico. Abundantemente rico. Espiritualmente rico.

Tenho os meus animais, a minha esposa, os meus filhos, meus irmãos e irmãs, meus amigos, os poemas, os filmes e toda essa arte que emana em mim.

É isso que me movimenta no meu nomadismo, na minha experiência, na minha solidão.

Em dias como os de hoje, no adoecimento provocado pelo acompanhamento dos processos dos diversos editais públicos e concursos administrativos, desde os concursos para professores, por exemplo, até toda essa política digital que nós ajudamos a construir, percebemos o quanto esse sistema pode ser falido, falso e adoecedor.

Concorremos ao edital. Obtivemos a nota máxima. Mas ficamos na suplência do resultado final.

Lidar com isso faz parte. O mundo é feito de altos e baixos e a vida não se resume a este momento que estamos vivendo. Mas isso também nos traz um desgosto, uma espécie de decepção.

Porque nós, que estamos inseridos nos processos históricos de observação e colaboração com a construção das políticas públicas, também estamos dentro de tudo isso. Estamos percebendo as contradições que tentamos compreender, aprofundar e aperfeiçoar, não apenas numa perspectiva individual, mas coletiva e inclusiva.

E, nesse processo, nós somos o tudo.

Somos o agente político que contribui.

Somos aquele que concorre como artista.

Somos aquele que escreve o próprio trabalho, organiza a documentação, reúne as provas de sua trajetória e realiza todo esse processo de agenciamento.

E esse processo também é um processo de adoecimento.

É saudável que os editais existam. É saudável que as pessoas sejam contempladas. O que lamentamos são as concorrências, as disputas e os processos seletivos nem sempre democráticos, nem sempre transparentes.

Lamentamos os calendários atropelados, os cronogramas que são lançados, vencem, passam, e depois dão lugar a um novo cronograma, a um novo período, sem que exista uma explicação, uma solução, um retorno ou um esclarecimento dizendo: isto está acontecendo por causa disso.

A gente acaba vivendo todo esse processo e, ao final, vem a negativa.

Não exatamente a negativa.

Sou suplente.

Vou permanecer aguardando a convocatória.

Hoje mesmo, 16 de Julho, quando finalmente foi divulgado o resultado final do mérito, eu entrei com um recurso.

A vida segue sendo a coisa mais linda que existe e que sejamois todos dignos dela.


Carpinteiro de Poesia

16.7.2026



NOTA:

Este texto foi escrito no contexto da divulgação do Resultado Final de Mérito do Edital de Chamamento Público nº 002/2026 – Prêmio Mestres e Mestras da Cultura Popular, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Belém, no qual obtive a pontuação máxima prevista no edital (40 pontos) e fui classificado na condição de suplente. O texto não constitui um recurso administrativo nem uma manifestação contra os candidatos contemplados. Trata-se de uma reflexão pessoal sobre os processos de seleção pública, a experiência da suplência, o lugar do artista nas políticas culturais e os atravessamentos humanos produzidos por esses processos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FIM.ME — Festival Internacional de Filmes de Médias‑Metragens

Este festival nasce de uma ausência concreta no circuito contemporâneo: a média‑metragem — forma cinematográfica historicamente fértil, decisiva para o ensaio, para o cinema‑pensamento e para a maturação de linguagem — foi sendo progressivamente empurrada para fora dos festivais, do debate crítico e das políticas de difusão. Nem curta demais para o desenvolvimento de um gesto, nem longa o suficiente para se submeter às pressões industriais, a média‑metragem tornou‑se um território órfão — justamente quando o cinema precisa de tempo para escutar, tempo para experimentar e tempo para elaborar. O FIM.ME afirma a média‑metragem como cinema pleno: campo de elaboração estética, política e poética. Não é um festival temático, nem um festival de nicho. É um festival de forma, linguagem e gesto cinematográfico, orientado por um compromisso ético com um cinema humanista, socialmente engajado e esteticamente rigoroso. O FIM.ME nasce das articulações realizadas através do FICCA – Festival ...

Bragança: a volta do Cavalo de Troia - Por Carpinteiro de Poesia

Entre a poesia das ruas de Bragança e o pulsar da juventude carnavalesca, o bloco Cavalo de Troia anuncia seu retorno. Ausente desde o início da pandemia, o grupo se reorganiza para voltar à avenida com força total, prometendo até 2.000 abadás e a mesma espontaneidade que marcou seus primeiros carnavais. O Cavalo de Troia é um dos blocos mais irreverentes do carnaval. Inspirados na história grega, eles construíram um enorme cavalo de madeira que, em vez de esconder soldados, vinha recheado de cajuaçi, que é uma bebida tradicional de Bragança. A bebida era distribuída pela traseira da estrutura enquanto os foliões, vestidos de espartanos, empurravam o cavalo pelas ruas. A criatividade do bloco chamou atenção da cidade, ganhou repercussão na mídia e se tornou um destaque do carnaval bragantino, unindo sátira, cultura popular e muita brincadeira. Raízes na Juventude, Entre Amizades e Fantasias - A história do Cavalo de Troia começou como uma brincadeira entre amigos do bairro da Aldeia. E...

Alma das Ruas, narrativa cinematográfica sobre o professor José Ribamar Gomes de Oliveira

Embora eu quisesse que pudéssemos contar essa história em sua totalidade, com toda a profundidade que o Mestre José Ribamar Gomes de Oliveira merecia, a vida nos apresentou seus limites. Idealizamos uma série documental que daria voz e corpo à cultura, à memória e à identidade de Bragança — uma série que celebraria cada canto, cada rosto, cada história que ele tanto amava. Mas, apesar da paixão, do empenho e da crença firme em nossos sonhos e utopias, a falta de recursos e investimentos tornou possível apenas a realização do episódio piloto. Hoje, porém, essas imagens não são apenas cenas de um projeto inacabado; são vestígios vivos da presença de um homem que dedicou sua vida inteira à valorização das raízes bragan­tinenses. Um homem que foi professor, escritor, historiador, guardião da memória, e sobretudo, um incansável lutador pela cultura da Amazônia. Esse piloto é a memória viva do Mestre Ribamar, e para nós, seus colegas, amigos e alunos da Academia de Letras de Bragança, é u...