O Filme A cobra de duas cabeças resulta de um trabalho da performance realizada por mim e por Ana Tinoco, em março de 2025, na Livraria Gato Vadio, no Porto. O filme acontece porque a cena acontece. Mas agora renasce na Marambaia, entre discos rígidos fatigados, arquivos corroídos, aparelhos antigos, timelines indóceis, formatos que recusam obediência.
E recompõe uma experiência nascida da convivência criadora: projetos partilhados, instalações, interferências, pinturas, performances, filmes, diálogos, desacordos produtivos, escutas, ateliers expandidos, espiritualidades encarnadas na matéria do trabalho artístico Eu e Ana trazemos uma história de colaboração construída ao longo de anos.
Parte dessa trajetória atravessa projetos como EXERCITO.Ogum, interferências poesóficas, instalações, performances e processos criativos em que arte, ancestralidade, tecnologia, pensamento crítico e experimentação que ocupam ruas, praças, museus, galerias, livrarias, parques, quintas, territórios de arte que se deslocam conforme os corpos, os encontros e os acontecimentos.
A performance A COBRA DE DUAS CABEÇAS, filmada pelo realizador, fotógrafo e artista plástico Celestino Monteiro aconteceu ao vivo, diante do público, no encontro improvável e precioso que o universo nos permitiu reunir no Gato Vadio.
A Cobra Grande habita esse trabalho. A lenda carrega sombras, operações de poder, zonas de penumbra. Em certas versões, a vitória exige abandonar a condição encantada, sob a lógica do conquistador. Há pedagogia do apagamento inscrita em muitos mitos colonizados.
Mesmo assim, a Cobra rasteja, na lama, no escuro, no fundo das águas, na memória dos povos,nas narrativas que reexistem à revelia dos processos de opressão
Interessa-me justamente essa matéria instável do mito, sua morte e ou seu renascimento.
Em cena, éramos, eu e Ana, uma cobra de duas cabeças. E, talvez, por isso Nanã esteja tão presente nesse trabalho. É para Nana que eu canto nesta performance. Ela é a alma da cena. O canto ecoa como corpo no decorrer da ação.
No período de concepção da perfomance, o encontro com o músico e percussionista Zé Macedo foi decisivo. Zé enviou fragmentos de suas pesquisas sonoras. Esses materiais foram incorporados ao desenho de som da performance e pulsam no filme como um corpo expandido em poesia ancestral, como uma presença vibratória que altera a respiração do trabalho.
Há algo de profundamente coletivo mesmo quando a montagem acontece em solidão. E esta montagem foi feita por mim, sozinho, aqui na Marambaia.
Quem trabalha com cinema de guerrilha trava batalhas intermináveis. Transcodificar. Converter. Baixar. Subir. Recuperar. Perder. Reorganizar. Reiniciar. Escutar ruídos digitais onde antes havia silêncio. Assistir arquivos recusarem abertura. Testar codecs. Negociar com máquinas cansadas. Persistir.
A precariedade técnica integra a ética da linguagem e a própria ontologia das imagens em muitos trabalhos realizados fora das engrenagens industriais do audiovisual
Este filme nasce de uma performance realizada em Portugal durante meu doutoramento sanduíche. Retorna hoje pela Amazônia. Reaparece montado na Marambaia. Move-se entre continentes, espiritualidades, pesquisas, afetos, linguagens e materialidades técnicas.
Traz consigo o trabalho compartilhado com Ana Tinoco, a cinegrafia de Celestino Monteiro, as pesquisas sonoras de Zé Macedo, minha montagem, meu canto, minha realização.
Algumas cobras descamam, mudam de pele, persistem, e rastejam pelo mundo.
Há, entretanto, cobras que são anjos...
A COBRA DE DUAS CABEÇAS
Realização, performance, canto autoral, montagem e direção: Francisco Weyl
Performance e criação: Ana Tinoco
Cinegrafia: Celestino Monteiro
Pesquisa sonora / desenho sonoro: Zé Macedo
A COBRA DE DUAS CABEÇAS
Sinopse
Resultado de uma performance realizada por Francisco Weyl e Ana Tinoco, em março de 2025, na Livraria Gato Vadio, no Porto, A Cobra de Duas Cabeças nasce do acontecimento da cena e reaparece transformado pela linguagem do cinema de guerrilha.
Montado posteriormente na Marambaia, entre arquivos instáveis, aparelhos antigos, formatos insurgentes e materialidades técnicas precárias, o filme recompõe uma experiência construída ao longo de anos de colaboração artística entre Francisco Weyl e Ana Tinoco, atravessando performances, instalações, interferências, pesquisas, espiritualidades, tecnologias e processos criativos compartilhados.
Habitada pela presença simbólica da Cobra Grande, a obra mergulha na matéria instável do mito, nas zonas de sombra dos imaginários colonizados, nos processos de apagamento e nas narrativas que persistem através da memória dos povos.
Em cena, Francisco Weyl e Ana Tinoco tornam-se uma cobra de duas cabeças. Nanã atravessa a ação como força espiritual, corpo sonoro e alma ritual da performance. O trabalho incorpora ainda fragmentos das pesquisas sonoras de Zé Macedo, enquanto a cinegrafia de Celestino Monteiro registra o encontro vivo entre corpos, canto, matéria, gesto e acontecimento.
Movendo-se entre Portugal e Amazônia, performance e cinema, ancestralidade e experimentação, A Cobra de Duas Cabeças afirma uma prática audiovisual construída na fricção entre arte, precariedade técnica, mito, memória e insurgência poética.
Ficha Técnica
Título: A Cobra de Duas Cabeças
Realização, direção, performance, canto autoral, montagem e direção de montagem: Francisco Weyl
Performance e criação: Ana Tinoco
Cinegrafia: Celestino Monteiro
Pesquisa sonora / desenho sonoro: Zé Macedo
Países de criação: Portugal / Brasil
Ano: 2025
Gênero: Performance film / Cinema experimental / Cinema de guerrilha
ASSISTA NO YOUTUBE:
https://youtu.be/0g-uW34MGnA

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