Pular para o conteúdo principal

Nada que você leve do rio irá trazê-lo de volta



Você pode indagar o rio 

E com ele murmurar.

Você pode falar com o rio

E com ele calar.

Você pode até beber o rio

E com ele mergulhar.


Mas, o que quer que se diga do rio,

Dele não se pode dizer duas coisas:

Que ele não seja efêmero,

E que também não seja eterno.


Que continue assim, sendo.

Atravessado.


De tudo o que você deixe de dizer do rio

Não esqueça de dizer que ele transborda.


Mas, nada do que você diga sobre o rio

Irá transpô-lo,

Ou torná-lo navegável.


Nada do que você pense do rio

Irá inundá-lo, ou assoreá-lo.


Nada que você leve do rio

Irá trazê-lo de volta.


Não seque o rio,

Deixe-o seguir seu destino.


Não barre o rio que ele é menino

E avoa que nem passarinho.


© Carpinteiro 

(“O rio doce morre no mar”)


Assista o videopoema de Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia), narrado, filmado e editado pelo próprio autor, no Rio Caeté, em Bragança do Pará, com trilha sonora de guitarrada d André Macleuri

 



.........................


O rio sangra a montanha: corta o tempo do não vir a ser o devir


© Carpinteiro 


.........................


Meu coração um rio 

Não encontra o mar desesperado 

Sente


© Carpinteiro 


.........................


Rio de

Gredo


Rio do

Grito


Rio de 

Se

Gredos


Segre

Gados


Rio de 

Desejos


Desre

Grados


Rio de

Gradado


Rio des

Graçado


Rio sa-

Grado


© Carpinteiro 


.........................


À esmo 

O rio é o mesmo 

Ensimesma-se 


Repete-se serpente 

Insinua-se n’água 


Eis que é ser 

Esquecer-se


© Carpinteiro 


...................................................................................
Estes textos aqui reunidos constituem a décima primeira sessão do Microprojeto TERÇA TRÍADE, pela via da qual publico três textos poéticos autorais neste espaço, sendo os vídeos disponibilizados no Canal do Carpinteiro

...................................................................................

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

FIM.ME — Festival Internacional de Filmes de Médias‑Metragens

Este festival nasce de uma ausência concreta no circuito contemporâneo: a média‑metragem — forma cinematográfica historicamente fértil, decisiva para o ensaio, para o cinema‑pensamento e para a maturação de linguagem — foi sendo progressivamente empurrada para fora dos festivais, do debate crítico e das políticas de difusão. Nem curta demais para o desenvolvimento de um gesto, nem longa o suficiente para se submeter às pressões industriais, a média‑metragem tornou‑se um território órfão — justamente quando o cinema precisa de tempo para escutar, tempo para experimentar e tempo para elaborar. O FIM.ME afirma a média‑metragem como cinema pleno: campo de elaboração estética, política e poética. Não é um festival temático, nem um festival de nicho. É um festival de forma, linguagem e gesto cinematográfico, orientado por um compromisso ético com um cinema humanista, socialmente engajado e esteticamente rigoroso. O FIM.ME nasce das articulações realizadas através do FICCA – Festival ...

Bragança: a volta do Cavalo de Troia - Por Carpinteiro de Poesia

Entre a poesia das ruas de Bragança e o pulsar da juventude carnavalesca, o bloco Cavalo de Troia anuncia seu retorno. Ausente desde o início da pandemia, o grupo se reorganiza para voltar à avenida com força total, prometendo até 2.000 abadás e a mesma espontaneidade que marcou seus primeiros carnavais. O Cavalo de Troia é um dos blocos mais irreverentes do carnaval. Inspirados na história grega, eles construíram um enorme cavalo de madeira que, em vez de esconder soldados, vinha recheado de cajuaçi, que é uma bebida tradicional de Bragança. A bebida era distribuída pela traseira da estrutura enquanto os foliões, vestidos de espartanos, empurravam o cavalo pelas ruas. A criatividade do bloco chamou atenção da cidade, ganhou repercussão na mídia e se tornou um destaque do carnaval bragantino, unindo sátira, cultura popular e muita brincadeira. Raízes na Juventude, Entre Amizades e Fantasias - A história do Cavalo de Troia começou como uma brincadeira entre amigos do bairro da Aldeia. E...

Cláudio Barradas: Do lugar onde se vê o último Ato

A partida do Cláudio Barradas encerra um ciclo do teatro paraense.   Assim como foi, há cerca de vinte anos, a partida do Luiz Otávio Barata. Entre um e outro adeus, perdemos também muitos outros. Atrizes e atores que, como eu, foram crias desses dois mestres — Cláudio e Luiz Otávio — que, ao lado de Geraldo Salles e Ramon Stergman, compuseram, ali entre meados da década de 1970 e o início da de 1980, um respiro vital para o teatro feito em Belém do Pará. Era um tempo de afirmação. Um tempo em que se confundiam os passos da cena  teatral  com a própria origem da Escola de Teatro da Universidade Federal do Pará. Cláudio foi, sem dúvida, uma escola dentro da escola.   Passar por ele era passar pelo rigor, pela entrega, pela sensibilidade.   E, claro, pelo amor à arte. Os que o tiveram como mestre — nas salas da Escola Técnica, no Teatro do Sesi , mesmo nos ensaios, onde eu ficava à espreita, para aprender, em espaços acadêmicos, institucionais ou alternativos...