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O XADREZ DO MUNDO DE BUSCAPÉ BLUES

Xadrez do Mundo talvez seja uma obra pequena apenas para quem mede a cultura pelo tamanho dos orçamentos. Vista a partir das estéticas de guerrilha que atravessam a trajetória de Buscapé Blues e Francisco Weyl, ela revela um campo muito mais amplo de disputas simbólicas, invenções cotidianas e afirmação cultural amazônica.

A origem da canção é simples e poderosa. Um professor procura Buscapé Blues em busca de uma ferramenta pedagógica para trabalhar o xadrez em sala de aula. A resposta não vem sob a forma de uma apostila ou de uma aula convencional. Surge como música. Surge como poesia. Surge como criação popular.

Buscapé faz aquilo que sempre marcou sua trajetória: transforma conhecimento em linguagem acessível sem empobrecer sua complexidade. As peças do tabuleiro aparecem como personagens de uma pedagogia poética capaz de ensinar estratégia, movimento, conflito, inteligência e convivência.

Poucos dias depois da composição, a canção ainda respirava seu primeiro fôlego quando começou a ser filmada.

Não havia set. Não havia equipe. Não havia financiamento. Havia uma casa.

A casa de Francisco Weyl e Roberta Mártires, na Marambaia, converteu-se em território cinematográfico. Cozinha, sala de jantar, objetos domésticos e a própria materialidade da vida cotidiana foram incorporados à cena. O que poderia ser entendido como limitação transforma-se em linguagem.

Aqui emerge um dos operadores centrais da obra de Francisco Weyl: as Tecnologias do Possível.

Tecnologias do Possível não designam equipamentos sofisticados. Designam a capacidade de produzir mundo a partir das condições concretas disponíveis. São práticas de invenção que recusam a paralisia da falta e convertem a realidade existente em potência criadora.

O celular torna-se câmera.

O celular torna-se gravador.

A casa torna-se estúdio.

A amizade torna-se produção cultural.

A escassez torna-se método.

Ao mesmo tempo, o videoclipe inscreve-se no campo das Poéticas da Gambiarra, conceito que atravessa a pesquisa, o cinema e a atuação cultural de Weyl. Gambiarra, aqui, não é improviso desqualificado. É inteligência prática. É engenharia popular. É elaboração estética produzida fora dos centros de poder econômico e tecnológico.

A gambiarra deixa de ser ausência para tornar-se linguagem.

Também atravessa a obra uma terceira camada: as Estéticas de Guerrilha.

Não se trata apenas de produzir com poucos recursos. Trata-se de disputar imaginários. Trata-se de afirmar que a criação amazônica possui legitimidade para existir segundo suas próprias formas de organização, seus próprios ritmos e suas próprias estratégias de sobrevivência cultural.

Nesse sentido, Xadrez do Mundo aproxima duas trajetórias.

De um lado, Buscapé Blues, artista, compositor, educador e agitador cultural cuja presença percorre décadas de experiências musicais, sempre transitando entre visibilidade e invisibilidade, reconhecimento e esquecimento, permanência e reinvenção.

De outro, Francisco Weyl, Carpinteiro de Poesia, formulador de uma prática cultural que compreende cinema, educação, território, memória e invenção como dimensões inseparáveis de um mesmo gesto político.

O encontro entre ambos produz mais do que um videoclipe.

Produz uma pequena demonstração de autonomia cultural.

Uma obra realizada sem autorização dos mercados.

Sem dependência das grandes estruturas.

Sem submissão às linguagens dominantes.

Apenas com aquilo que estava disponível: uma canção recém-criada, uma casa habitada, alguns celulares, décadas de experiência acumulada e a convicção de que a cultura continua sendo uma das formas mais sofisticadas de resistência.

Xadrez do Mundo é um filme curto.

Mas dentro dele habitam muitas partidas.

A pedagogia popular de Buscapé Blues.

As tecnologias do possível de Francisco Weyl.

As poéticas da gambiarra produzidas nas margens.

E a persistência histórica de artistas amazônicos que seguem criando mundos mesmo quando o tabuleiro parece desenhado para impedir seus movimentos.





Ficha Técnica

Título: Xadrez do Mundo

Letra: Buscapé Blues

Melodia, Arranjo e Direção Musical: Marcelo Shiozaki (com apoio de Inteligência Artificial)

Interpretação: Buscapé Blues

Direção, Montagem e Finalização: Carpinteiro de Poesia (Francisco Weyl)

Captação de Imagens e Áudio: Produção Guerrilheira com Dispositivos Móveis

Locação: Marambaia, Belém do Pará

Ano: 2026

Realização:

FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté

FICCA Ponto de Cultura


XADREZ DO MUNDO

BUSCAPÉ BLUES

Na esquina do tempo vejo

jogo começar

Peças se movendo sem ninguém

Questionar

Rei lá no topo, difícil de alcançar

Peão na estrada só querendo respirar

Torres são muros que tentam

separar

Bispos pregando o que é certo

acreditar

Cavalo dá volta, estratégico

olhar

E o povo na base só tenta

se salvar

E cada movimento não

é só por jogar

Tem mão invisível tentando

controlar

(Refrão)

É xadrez no mundo, pode reparar

Geopolítica ensinando quem vai

mandar

No sistema a gente nasce pra

lutar

Mas só vence o jogo quem aprende

a pensar

Tem fronteira feita só pra dividir

Tem riqueza presa que não quer

nem repartir

Reis faz guerra sem pro front

cair

E o peão sangra sem entender

por quê

(Refrão)

Rainha poderosa se move sem

parar

Mas quem paga o preço nem pode

opinar

No tabuleiro tudo pode mudar

Se o povo acorda e começa a

jogar

Nem todo cheque é o fim

Pode acreditar

Se a mente é livre ninguém

vai te dominar

É xadrez no mundo...

BUSCAPÉ BLUES  



ASSISTA > https://www.youtube.com/watch?v=s9fwsOP83zw

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