Uma manifestação cultural que atravessa gerações voltou a ocupar o espaço da comunidade durante a festa junina da Escola Lauro Barbosa, na Vila do Patal. O Cordão de Pássaro Bragantino, representado este ano pela Arara Vermelha, levou música, teatro, dança e memória coletiva para uma apresentação que marcou o reencontro da comunidade escolar com uma tradição que há muitos anos não se fazia presente naquele espaço.
Segundo o coordenador do grupo, Paulo de Souza Silva, a história do cordão está profundamente ligada à trajetória de sua própria família. Filho de um antigo cantador de pássaros da região do Cafezal, ele cresceu acompanhando as apresentações realizadas pelo pai desde a infância.
"Esse grupo nosso vem de pai para filho. Vem desde os anos 40", relata.
Paulo lembra que seu pai era um dos principais cantadores da brincadeira e compunha as toadas interpretadas durante as apresentações. Ainda menino, participou de algumas encenações ao lado dele, experiência que permaneceu viva em sua memória mesmo após o falecimento do pai, em 1985.
Com a perda daquele que era uma das referências da tradição, as atividades acabaram interrompidas durante vários anos. A ausência de cantadores e organizadores dificultou a continuidade da manifestação cultural.
A retomada aconteceu apenas em 2001.
"Do nada veio aquilo na minha cabeça: vamos montar uma brincadeira de passarinho", recorda Paulo.
Desde então, o Cordão de Pássaro Bragantino voltou a reunir moradores das comunidades do Cafezal, Campos de Baixo e localidades vizinhas, preservando uma forma de expressão popular que mistura música, encenação e improviso.
Diferentemente de outras brincadeiras juninas, o cordão possui uma narrativa própria. A apresentação completa dura cerca de uma hora e encena o ciclo simbólico do pássaro, envolvendo momentos de vida, morte e cura.
"Pra gente fazer a brincadeira completa é uma hora, onde a gente faz a morte e a cura do pássaro", explica o coordenador.
Uma das características mais marcantes do grupo é a renovação anual de sua identidade visual e temática. A cada ano um novo pássaro é escolhido para inspirar figurinos, bandeiras e adereços.
"O nosso foi registrado como Cordão de Pássaro Bragantino, só que a nossa tradição é que cada ano a gente coloca um pássaro diferente", afirma.
Ao longo de sua trajetória recente, o grupo já homenageou diversas aves da fauna amazônica, entre elas Juçanã, Guará, Papagaio-canã, Churucuá, Tem-tem, Beija-flor, Tucano, Rouxinol e Pipira-do-campo. Em 2026, a escolhida foi a Arara Vermelha.
As imagens registradas pelo professor José Carlos Barroso documentam a apresentação realizada durante a festa junina da Escola Lauro Barbosa, considerada histórica pelos organizadores. Segundo Barroso, havia mais de quinze anos que a comunidade escolar não recebia uma apresentação de cordão de pássaro.
O registro audiovisual também evidencia outro elemento fundamental da tradição: os cantadores. Durante a apresentação, intérpretes conhecidos como Dedéco e Abaeté conduziram as toadas, muitas delas criadas e improvisadas no próprio momento da brincadeira.
"São pessoas que tiram a toada na hora e cantam na hora. É um talento que tem aqui nas nossas comunidades", destaca Paulo.
Mais do que um espetáculo, o Cordão de Pássaro Bragantino permanece como uma prática de transmissão de saberes entre gerações, reunindo famílias, músicos, brincantes e moradores em torno de uma herança cultural construída coletivamente ao longo de décadas.
Na voz de Paulo de Souza Silva, essa continuidade ganha um significado especial. Sua trajetória une a memória do pai cantador à responsabilidade de manter viva uma tradição que atravessou o tempo e continua encontrando novos caminhos para permanecer presente nas comunidades do nordeste paraense.
MINIDOCUMENTÁRIO
A apresentação da Arara Vermelha na Festa Junina da Escola Lauro Barbosa entrou para a memória da comunidade como um acontecimento singular. Pela primeira vez, um Cordão de Pássaro realizou uma apresentação naquele espaço escolar, estabelecendo um encontro entre tradição popular, educação comunitária e celebração junina.
A iniciativa partiu do professor, historiador e documentarista José Carlos Barroso, que articulou a participação dos brincantes e promoveu o diálogo entre a escola e os guardiões dessa manifestação cultural. O resultado foi uma apresentação que reuniu estudantes, famílias e moradores em torno de uma das mais expressivas tradições culturais do nordeste paraense.
As imagens registradas durante essa celebração ultrapassaram o caráter de simples documentação do evento. O material está sendo transformado em um minidocumentário comunitário realizado em parceria por José Carlos Barroso e Francisco Weyl, o Carpinteiro de Poesia. Os dois desenvolvem ações conjuntas há cerca de cinco anos por meio do Festival Internacional de Cinema DocAetê (FICCA), compartilhando o interesse pela memória, pelas culturas populares e pelos modos de vida das comunidades amazônicas.
Ao longo dos últimos anos, José Carlos Barroso vem constituindo um importante repertório imagético sobre os territórios e as populações da região. Seu trabalho documental reúne registros de comunidades como Patal, Rio Grande, Aturiaí, Nova Olinda e diversas outras localidades, construindo um acervo visual voltado para as experiências cotidianas, as práticas culturais, o trabalho, a educação e os saberes comunitários.
O minidocumentário sobre a Arara Vermelha surge desse compromisso com a preservação da memória coletiva. As imagens captadas durante a apresentação, somadas aos depoimentos dos coordenadores e brincantes, revelam uma história atravessada por heranças familiares, pela transmissão de conhecimentos entre gerações e pela permanência de uma tradição que continua mobilizando comunidades inteiras.
A voz de Paulo de Souza Silva conduz parte dessa narrativa. Filho de um antigo cantador de cordão de pássaro, ele representa uma linhagem de mestres populares que mantiveram viva essa manifestação ao longo das décadas. Sua trajetória se entrelaça à própria trajetória do Cordão de Pássaro Bragantino, que desde 2001 segue reunindo músicos, cantadores, familiares e moradores em torno de uma celebração que faz da memória uma forma de presença e continuidade.
Assim, a apresentação da Arara Vermelha na Escola Lauro Barbosa permanece como festa, encontro, documento e patrimônio vivo. O que aconteceu naquela noite segue agora seu percurso através do cinema comunitário, ampliando o alcance de uma experiência cultural construída coletivamente e compartilhada entre gerações.
CARPINTEIRO DE POESIA
O CANTO DO PÁSSARO BRAGANTINO
ASSISTA NO YOUTUBE
https://youtu.be/ffZatoYHo8c
SINOPSE
Registrado durante a apresentação histórica do Cordão de Pássaro Bragantino na Festa Junina da Escola Lauro Barbosa, na Vila do Patal, município de Augusto Corrêa, o documentário acompanha uma das mais importantes expressões da cultura popular do nordeste paraense. A partir dos depoimentos de Paulo de Souza Silva, coordenador do grupo, e do pesquisador José Carlos Barroso, o filme percorre memórias familiares, trajetórias comunitárias e a continuidade de uma tradição transmitida entre gerações desde a década de 1940.
Entre cantorias, danças, personagens e alegorias inspiradas nas aves amazônicas, o Cordão de Pássaro revela um patrimônio cultural vivo que reúne arte, oralidade, música e pertencimento, mantendo acesa uma das mais belas manifestações da cultura bragantina.
FICHA TÉCNICA
Título:
O Canto do
Pássaro Bragantino
Gênero:
Documentário
Duração:
Em montagem
Realização:
José
Carlos Barroso e Francisco Weyl
Pesquisa:
José Carlos
Barroso e Francisco Weyl
Concepção:
José Carlos
Barroso e Francisco Weyl
Captação de Imagens:
José
Carlos Barroso
Imagens Adicionais:
Acervo
José Carlos Barroso
Roteiro de Montagem, Montagem,
Direção de Arte e Grafismo:
Francisco Weyl
Entrevistas e Captação de
Áudio:
José Carlos Barroso
Depoimentos:
Paulo de
Souza Silva
José Carlos Barroso
Trilha Sonora:
Cantorias
e toadas do Cordão de Pássaro Bragantino
Áudios de Arquivo: Abaeté
Apresentação do Cordão de Pássaro Bragantino no Festival Junino de Bragança – 2026
Coordenação do Cordão de
Pássaro Bragantino:
Paulo de Souza Silva
Cantadores:
Dedéco
Abaeté
Produção:
José Carlos
Barroso e Francisco Weyl
Ano: 2026
País:
Brasil
Local de Produção:
Augusto
Corrêa – Pará
Agradecimentos
Comunidade
da Vila do Patal; Escola Lauro Barbosa; Cordão de Pássaro
Bragantino; Comunidades do Cafezal e Campos de Baixo.

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