Assisti ao longa-metragem Garimpo Bar (2024), dirigido e roteirizado por Amaury Pinheiro, após receber do realizador o link para visualização da obra. Antes mesmo de entrar em seus aspectos narrativos e formais, penso ser necessário situar o filme dentro das condições concretas de sua produção.
Trata-se de um filme paraense realizado no sudeste do estado, entre Jacundá e Marabá, região onde fazer cinema continua sendo um enorme desafio. Embora nos últimos anos tenha ocorrido uma retomada das políticas públicas para o audiovisual, seja através da Lei Paulo Gustavo, da Política Nacional Aldir Blanc e de outros mecanismos de incentivo, sabemos que a distribuição dos recursos ainda permanece profundamente desigual. A maior parte das estruturas de produção, circulação e financiamento continua concentrada no eixo Rio-São Paulo, nas mãos de empresas e grupos que dominam os circuitos dos editais e dos investimentos.
Produzir um longa-metragem no interior da Amazônia exige enfrentar uma série de obstáculos que vão muito além da realização artística. O cineasta contemporâneo precisa ser simultaneamente diretor, roteirista, produtor, captador de recursos, gestor cultural e articulador institucional. Por isso, a simples existência de Garimpo Bar já merece destaque. O filme nasce de uma realidade em que realizar cinema significa resistir.
Talvez seja justamente por isso que a obra possa ser pensada a partir daquilo que venho chamando de Estéticas de Guerrilha, Tecnologias do Possível e Poéticas da Gambiarra. Não apenas pelos resultados visíveis na tela, mas pelas próprias condições que permitiram sua realização. Um filme produzido longe dos grandes centros, mobilizando recursos limitados, trabalhando com elenco majoritariamente formado por não atores e recriando uma memória histórica regional a partir das condições disponíveis.
A narrativa tem como pano de fundo a antiga Jacundá, cidade posteriormente inundada pela construção da Hidrelétrica de Tucuruí. No entanto, o filme não se organiza prioritariamente como uma denúncia social ou como uma reconstrução histórica. Seu foco principal está num drama sentimental construído em torno do triângulo amoroso entre o jovem garimpeiro Zeca, Isaura e o Coronel Antônio, dono do garimpo e do cabaré que dá nome à obra.
A questão social está presente durante todo o filme, mas ocupa um lugar de contexto. O centro dramático da narrativa encontra-se nos afetos, nos conflitos amorosos, nas disputas de poder e nas formas de sobrevivência construídas naquele universo marcado pelo garimpo. Nesse sentido, o filme toca em questões como o machismo, a exploração das mulheres e as relações coronelistas presentes naquela realidade amazônica.
A narrativa desenvolve-se de maneira linear, acompanhando a sucessão dos acontecimentos sem recorrer a analepses ou prolepses. Os diversos fade in e fade out utilizados ao longo da montagem funcionam como mecanismos de passagem temporal e espacial. Em alguns momentos, contudo, seu uso torna-se bastante recorrente, o que acaba diminuindo parte do efeito de surpresa dramática.
Curiosamente, isso não chega a comprometer o interesse do espectador. Lembro aqui das tragédias gregas, nas quais o público frequentemente já conhecia o destino dos personagens antes mesmo do espetáculo começar. A força da experiência não estava na surpresa, mas na forma como se vivenciava cada etapa do percurso dramático. De certa maneira, Garimpo Bar busca construir sua força menos através das reviravoltas narrativas e mais através do envolvimento afetivo com seus personagens.
Um dos aspectos mais interessantes da obra encontra-se justamente na atuação. O fato de grande parte do elenco ser formada por não atores produz uma presença bastante singular em cena. O filme evita transformar a identidade regional em caricatura folclórica. Ao contrário, aquilo que aparece é uma experiência interiorana amazônica vivida, marcada pelos sotaques, pelos gestos, pelos modos de falar e pelas formas de ocupação dos espaços.
A figura do Coronel Antônio emerge como uma das presenças mais fortes da narrativa, sintetizando estruturas históricas de mando que marcaram não apenas os garimpos, mas boa parte das relações de poder na Amazônia. O núcleo central sustenta boa parte da força dramática do filme e alguns dos conflitos mais intensos são justamente aqueles que envolvem as disputas entre esses personagens.
Visualmente, o filme cresce quando abandona os ambientes internos e se abre para os rios, estradas, florestas e paisagens da região. Nesses momentos, fotografia, direção e montagem parecem encontrar uma sintonia mais forte com o território representado. Embora algumas imagens apresentem aquilo que tecnicamente se costuma chamar de foco doce, percebe-se um trabalho cuidadoso de construção visual.
A montagem possui um ritmo ágil que faz com que os 98 minutos transcorram sem dificuldades. Ainda assim, em determinados momentos, tive a sensação de que o filme se aproximava mais de uma lógica narrativa do vídeo e da telenovela do que propriamente de um tempo cinematográfico mais dilatado. Não se trata exatamente de um problema, mas de uma característica perceptível em algumas passagens. Certas cenas parecem pedir mais duração, mais permanência, mais tempo para que a imagem possa construir atmosfera.
Talvez por isso uma das sequências que mais me chamou atenção seja justamente aquela em que surge a presença do músico em cena. Ali o filme desacelera. A imagem encontra repouso. O espectador é convidado a permanecer mais tempo dentro daquele universo. É um dos momentos em que a narrativa parece respirar de maneira mais livre.
Há ainda algumas construções de personagens secundários que se aproximam do caricatural. Isso ocorre especialmente em figuras associadas ao humor e à comicidade popular. Entretanto, esse aspecto não chega a comprometer o conjunto da obra, funcionando mais como uma oscilação de registro dentro de uma narrativa que transita entre drama, romance e humor.
Na parte final, a direção opta por inserir de maneira mais explícita informações relacionadas ao contexto histórico e social da inundação de Jacundá. A escolha é interessante porque recoloca em evidência a memória coletiva que sustenta toda a narrativa. Ao mesmo tempo, produz uma pequena ruptura no fluxo ficcional anteriormente estabelecido. Durante grande parte do filme acompanhamos um drama humano; ao final somos novamente convocados a lembrar o acontecimento histórico que tornou aquela história possível.
Estas observações não retiram a importante contribuição de Garimpo Bar para o cinema paraense contemporâneo. Mais do que um filme sobre uma cidade desaparecida, trata-se de uma obra que participa do esforço de preservar memórias, narrativas e experiências frequentemente ausentes da história oficial.
Sob a perspectiva das Estéticas de Guerrilha, das Tecnologias do Possível e das Poéticas da Gambiarra, o filme demonstra que o cinema amazônico continua encontrando formas de existir, produzir imagens e construir narrativas mesmo diante das limitações estruturais impostas pela concentração histórica dos recursos culturais no país.
Por isso, Garimpo Bar merece ser visto não apenas por aquilo que realiza na tela, mas também pelo que representa enquanto experiência de produção cultural na Amazônia contemporânea. É um filme que afirma a potência criativa do interior paraense e contribui para ampliar o repertório de histórias, memórias e territórios presentes no audiovisual brasileiro.
FRANCISCO WEYL
Carpinteiro de Poesia

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