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Carta sobre os 75 anos da Escola República de Portugal abre diálogo para cooperação cultural


Na manhã desta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, recebi uma resposta que abre novas perspectivas para uma experiência cultural e educativa que estamos construindo na Marambaia, em Belém do Pará.Mantive reunião com a Casa Civil da Presidência da República Portuguesa, no seguimento da carta que encaminhei ao Presidente António José Seguro, apresentando a Escola Municipal República de Portugal, seus 75 anos de história e o trabalho desenvolvido em parceria com o Festival Internacional de Cinema do Caeté — FICCA Ponto de Cultura. Trata-se de uma oportunidade para apresentar diretamente a uma assessoria da Presidência portuguesa o percurso de uma escola pública amazônica e de um festival que, há mais de uma década, constrói relações entre cinema, educação, memória, cultura popular e territórios.

A correspondência que originou esse contato foi encaminhada pelos canais convencionais de comunicação com a Presidência Portuguesa. Também a publiquei em meu blog, Carpinteiro de Poesia, e a compartilhei nas redes sociais, tornando pública a proposta e convidando outras pessoas a conhecerem seu significado. A [Carta Aberta ao Presidente da República de Portugal](https://carpinteirodepoesia.blogspot.com/2026/09/carta-aberta-ao-presidente-da-republica.html) apresenta uma escola que carrega, desde 1951, o nome de um país situado do outro lado do Atlântico, numa cidade amazônica chamada Belém, nome que também encontramos em Portugal.

Essa relação simbólica adquire hoje um sentido particular. A Escola República de Portugal completou 75 anos em 5 de outubro de 2026. Localizada na Marambaia, bairro popular da capital paraense, a instituição atravessa gerações de estudantes, professores, trabalhadores e famílias. Segundo seu diretor, professor Thiago Oliveira, atende aproximadamente 700 estudantes, reúne cerca de 80 servidores e funciona nos turnos da manhã, tarde e noite, oferecendo Ensino Fundamental e Educação de Jovens, Adultos e Idosos.

A história dessa escola participa da própria formação social da Marambaia. Há famílias cujos avós, pais, filhos e netos atravessaram suas salas de aula. Nelas permanecem lembranças, amizades, brincadeiras, experiências educativas, manifestações culturais e histórias que também ajudam a compreender as transformações do bairro.

Foi nesse ambiente que inauguramos, em 3 de novembro de 2025, o Cineclube República de Portugal, dando continuidade a uma relação de trabalho entre a escola e o FICCA. Desde então, vimos articulando sessões cineclubistas, atividades formativas, encontros com artistas e experiências de pesquisa da memória. O horizonte dessa caminhada é a realização coletiva de um documentário sobre os 75 anos da instituição.

Em setembro, por exemplo, exibimos no cineclube o documentário *Dia do Cortejo*, que realizei entre 2010 e 2012 sobre o Boi Vagalume da Marambaia. A sessão contou com a presença de Mestre Cuité Marambaia, amo e criador do Boi Vagalume. O encontro levou para dentro da escola imagens, memórias e histórias produzidas nas ruas do próprio bairro, colocando estudantes e educadores em contato com um personagem fundamental da cultura popular local.

As atividades culturais também se ampliaram com o trabalho do professor e escritor Clei Souza, na oficina O Carimbó, o Boi-Bumbá e a Capoeira no Modernismo Literário Paraense, e com a programação de Andreza Barroso, a Andreza Miudinha, envolvendo cantigas de roda, dança contemporânea, capoeira e cultura afro-amazônida. São experiências que aproximam literatura, oralidade, corpo, música, cinema e formação escolar, envolvendo diferentes professores, turmas e expressões culturais.

No dia 8 de outubro, realizamos uma jornada dedicada à memória da escola e às gravações do documentário. A câmera encontrou estudantes, professores, trabalhadores e pessoas ligadas à história da instituição. Registramos entrevistas, entre elas o depoimento do diretor Thiago Oliveira, que destacou o significado comunitário da escola e manifestou o desejo de vê-la chegar ao centenário ainda mais viva, alegre e em movimento.

O documentário segue em produção. Queremos reunir as imagens do presente, os arquivos escolares, as fotografias das famílias, as lembranças dos antigos estudantes e as histórias que circulam pela Marambaia. Nosso método nasce da escuta e da participação. A comunidade contribui para identificar suas personagens, investigar acontecimentos, reconhecer documentos e construir as narrativas que darão corpo ao filme.

A correspondência ao Presidente António José Seguro nasceu desse trabalho. Propusemos que a Presidência conhecesse a experiência e, se possível, oferecesse uma mensagem à comunidade escolar. Também apresentamos o desejo de que o futuro documentário circule em Portugal, criando encontros com estudantes, educadores, cineastas e instituições culturais. A possibilidade de um depoimento audiovisual do Presidente para integrar o próprio filme faz parte das propostas que desejamos aprofundar, respeitando naturalmente a disponibilidade e os procedimentos da Presidência.

Essas perspectivas encontram uma trajetória internacional que o FICCA já vem construindo. Criado em 2014, o festival desenvolve ações durante todo o ano, circulando por escolas públicas, comunidades quilombolas, associações, espaços culturais e territórios da Amazônia Atlântica. Sua atuação reúne cineclubismo, produção audiovisual, pesquisa, formação, exibição e criação coletiva.

As experiências realizadas com escolas de Augusto Corrêa, especialmente no Patal e em Nova Olinda, em articulação com o Cineclube Urumajó, integram essa caminhada. Filmes produzidos a partir dessas relações já circularam em sessões do próprio FICCA e chegaram a outras escolas, permitindo que estudantes conheçam imagens e narrativas criadas por jovens e comunidades de diferentes territórios amazônicos.

Minha formação e minhas andanças também atravessam o Atlântico. Estudei Cinema e Vídeo na Escola Superior Artística do Porto e desenvolvi parte da minha pesquisa doutoral na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa. Mantenho relações de criação, pesquisa e intercâmbio cultural com Portugal e Cabo Verde, incluindo experiências com a Livraria Independente Gato Vadio, no Porto, e interlocuções com realizadores e instituições cabo-verdianas.

Essa rede integra a concepção afrolusoamazônida do FICCA. Ela foi construída por pessoas, encontros, filmes, pesquisas, deslocamentos e processos de criação compartilhada. E é essa experiência que colocamos à disposição da comunidade da Escola República de Portugal, procurando ampliar suas possibilidades de participação cultural e de diálogo com outros povos.

A eventual cooperação poderá envolver escolas, cineclubes, universidades e instituições culturais, com intercâmbio de estudantes e educadores, sessões de cinema, oficinas, produção compartilhada de filmes e circulação de conhecimentos. Também estamos estudando instrumentos internacionais de aproximação educativa, como a Rede de Escolas Amigas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — CPLP, e possibilidades de cooperação nas áreas de juventude, cultura e audiovisual.

Esses caminhos encontram-se em diferentes estágios de elaboração. A reunião proposta com a assessoria portuguesa permitirá apresentar o trabalho existente, conhecer o interesse institucional e identificar possibilidades de continuidade. Até aqui, o encaminhamento concreto é o interesse manifestado pelo assessor Renato Daniel em conhecer a experiência por videochamada.

Considero esse movimento particularmente significativo no contexto mundial que atravessamos, marcado por conflitos, desigualdades, desafios ambientais e disputas em torno do direito à educação e à cultura. A aproximação entre povos pode encontrar na escola pública, nas artes e nas práticas comunitárias caminhos de solidariedade, pensamento crítico e criação.

Nossa perspectiva parte do reconhecimento de que a Amazônia produz conhecimentos, metodologias, imagens e experiências culturais capazes de contribuir para relações internacionais construídas com reciprocidade. A Marambaia, o Urumajó e os demais territórios onde o FICCA atua participam dessas relações com suas próprias vozes, memórias e capacidades de criação.

Por isso, a conversa com a Presidência portuguesa adquire significado para o conjunto de pessoas que vêm construindo essa trajetória. A escola oferece sua história e seu trabalho educativo. O FICCA oferece uma rede de experiências culturais e cinematográficas. Portugal poderá encontrar nessa relação possibilidades de diálogo e cooperação, assim como nós desejamos conhecer e compartilhar as experiências de seus estudantes, artistas, educadores e comunidades.

Agora, vamos preparar a apresentação ao assessor Renato Daniel, em articulação com a direção da escola e os parceiros do festival. Temos uma obra em andamento, uma história coletiva em investigação e perspectivas que poderão desenvolver-se conforme os encontros, os interesses e as condições institucionais.

Gosto de pensar que a câmera nos ajuda a reconhecer caminhos. Às vezes, ela começa diante de uma lembrança guardada num caderno escolar, de uma fotografia antiga ou da voz de alguém que atravessou muitas décadas de vida comunitária. Essas imagens podem chegar a outras pessoas, outros lugares e outras gerações.

A Escola República de Portugal está chegando aos seus 75 anos com esse movimento de memória e criação. O FICCA participa dessa história com o cinema que construímos nos territórios, entre encontros, conhecimentos e tecnologias do possível.

E quem sabe, desse percurso, possamos cultivar novas relações entre a Amazônia, Portugal e África, com crianças, jovens, educadores e artistas compartilhando experiências através da arte e da educação.


Francisco Weyl

Carpinteiro de Poesia

Criador, curador e coordenador do Festival Internacional de Cinema do Caeté — FICCA / FICCA Ponto de Cultura

Belém do Pará, 22 de outubro de 2026.



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