Hoje, 5 de outubro de 2026, a Escola Municipal de Ensino Fundamental República de Portugal completa 75 anos. A data alcança uma história que ultrapassa seus muros e se espalha pela Marambaia, pelas famílias que passaram por suas salas, pelas gerações de estudantes e trabalhadores e pelas muitas maneiras como uma escola pública permanece na vida de um bairro.
Fundada em 1951, a República de Portugal está entre as escolas mais antigas da rede municipal de Belém. Sua duração no tempo pode ser contada em documentos, datas, fotografias e registros institucionais, mas há outra história que permanece dispersa entre as pessoas. Está no ex-aluno que reconhece um professor numa fotografia, na antiga trabalhadora que lembra os corredores de outro tempo, nas famílias que atravessaram gerações dentro da escola, nas festas, brincadeiras, desfiles, cadernos, boletins, uniformes, amizades e acontecimentos que continuam circulando pela memória.
É nesse território que o FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté / FICCA Ponto de Cultura vem construindo, desde 2025, uma relação com a República de Portugal.
O Cineclube República de Portugal nasceu naquele ano como parte dessa aproximação. Vieram as sessões, os encontros e a perspectiva de constituir dentro da escola um processo continuado de formação audiovisual. Filmes realizados pelo FICCA em experiências com outras comunidades escolares entraram na programação e colocaram em circulação uma ideia que nos acompanha há muito tempo: aprender cinema também fazendo cinema, reconhecendo que os territórios possuem suas próprias imagens, histórias, personagens e modos de narrar.
Em 2026, esse percurso encontrou os 75 anos da escola.
A formação audiovisual passou a conversar diretamente com uma pergunta que é simples apenas na aparência: como contar 75 anos de uma escola?
Não existe uma única pessoa capaz de responder. A história está repartida.
Está entre quem chegou menino e hoje retorna adulto. Está nos professores e trabalhadores que acompanharam diferentes momentos da instituição. Está nas famílias. Está na vizinhança. Está nas transformações da Marambaia. Está nos documentos guardados em gavetas e nas histórias que nunca chegaram ao papel.
Por isso, o documentário que estamos construindo com a escola começa pela escuta.
Os estudantes entram nesse processo como pesquisadores e realizadores em formação. O percurso prevê que conheçam diferentes etapas do audiovisual — pesquisa, roteiro, produção, imagem, som, realização e montagem — enquanto investigam a própria escola e encontram outras gerações que passaram por ela. A memória torna-se matéria de formação e, progressivamente, matéria de cinema.
As sessões do Cineclube República de Portugal participam desse caminho. Em 16 de setembro, por exemplo, projetamos “Dia do Cortejo”, documentário que realizei entre 2010 e 2012 sobre o Boi Vagalume da Marambaia, com a presença de Mestre Cuité Marambaia, amo do boi e uma das referências culturais do bairro. Uma imagem produzida anos antes na Marambaia retornou ao território para encontrar estudantes que hoje começam a produzir seus próprios registros.
Em 30 de setembro, outro movimento atravessou a escola. O professor e escritor Clei Souza realizou a oficina “O Carimbó, o Boi-Bumbá e a Capoeira no Modernismo Literário Paraense”, aproximando literatura e manifestações da cultura popular amazônica. Outras formações já estão sendo construídas dentro dessa relação, incluindo as oficinas de Andreza Barroso, a Andreza Miudinha, envolvendo brinquedos cantados, cantigas de roda, dança contemporânea e capoeira.
Cinema, literatura, corpo, brincadeira, cultura popular e memória começam a formar uma rede dentro de outra rede que já existe: a própria escola e sua comunidade.
8 de outubro: a memória volta à escola
Três dias depois deste aniversário, a Escola República de Portugal realizará uma Jornada de Memória.
No dia 8 de outubro, a escola abrirá espaço para o encontro entre diferentes gerações de sua história. O FICCA estará junto, apoiando a pesquisa, a escuta, os registros audiovisuais e o processo de construção do documentário dos 75 anos.
Antigos estudantes, professores e trabalhadores, famílias, artistas, moradores e pessoas que mantêm alguma relação com a República de Portugal são chamados a participar.
Queremos encontrar histórias e personagens. Queremos ouvir o que os documentos institucionais dificilmente conseguem guardar. Queremos conhecer fotografias antigas, boletins, certificados, cadernos, convites, cartazes, uniformes, vídeos, registros de festas, jogos, desfiles e apresentações. Queremos saber quem aparece nas fotografias, em que tempo foram feitas, o que acontecia naquele momento e quem ainda precisa ser procurado.
Um documento encontrado pode abrir uma história. Uma fotografia pode revelar pessoas que ainda podemos ouvir. Um nome lembrado durante uma conversa pode nos levar a outra casa, outro arquivo, outra geração.
É assim que pretendemos trabalhar.
Não queremos antecipar o filme antes que a memória fale.
A Jornada do dia 8 será, por isso, um momento importante da pesquisa. As pessoas que chegarem à escola poderão acrescentar informações, apresentar materiais, reencontrar antigos companheiros e participar dos registros. Os estudantes poderão acompanhar esse movimento e compreender que produzir uma imagem começa muito antes de ligar uma câmera: começa pela aproximação, pela pesquisa, pela pergunta e pela capacidade de escutar.
Aos poucos, depoimentos, documentos, fotografias, espaços, sons e lembranças poderão revelar a forma do documentário.
Uma escola que continua escrevendo sua história
Chegar aos 75 anos é encontrar muitas escolas dentro da mesma escola.
A República de Portugal de 1951 não é a de hoje. A Marambaia também mudou. Mudaram as ruas, as famílias, as tecnologias, os modos de ensinar, aprender, brincar, registrar e comunicar. Permanecem relações que atravessam essas mudanças e fazem com que alguém possa retornar décadas depois e ainda dizer: eu estudei aqui, eu trabalhei aqui, meus filhos passaram por aqui, esta história também é minha.
É essa dimensão que me interessa como realizador, pesquisador, poeta e morador de uma cidade cuja memória tantas vezes desaparece antes de ser reconhecida.
Há 75 anos de vida para pesquisar. Há lacunas, contradições, afetos, documentos e vozes ainda desconhecidas. Há estudantes vivendo agora aquilo que amanhã será memória.
Neste 5 de outubro, celebro a Escola República de Portugal pelas pessoas que lhe deram existência durante esses 75 anos e pelas gerações que continuam produzindo sua história.
No dia 8, estaremos junto com a escola e sua comunidade.
Levaremos câmeras, perguntas e disposição para escutar.
A memória virá com as pessoas.
E talvez seja justamente desse encontro que o filme comece verdadeiramente a nascer.
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia
FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté / FICCA Ponto de Cultura

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