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Os corre da pesquisa

Tenho pensado nisso enquanto continuo fazendo pesquisa, às vezes dentro da academia, às vezes fora dela, mas quase sempre no mesmo lugar: o lugar de quem precisa ir atrás das coisas para encontrar os documentos, as pessoas, as histórias, os vestígios e as relações que permitem compreender aquilo que está sendo pesquisado.


Não foi a academia que me ensinou a ter rigor com a pesquisa. O rigor sempre esteve presente no meu modo de trabalhar. Independentemente de estar ou não dentro de uma instituição acadêmica, nunca dei espaço para a invenção de fatos. Posso interpretar os fatos, e interpreto. É parte do meu trabalho, seja como jornalista, seja como radialista, seja nos projetos e blogs em que escrevo, seja nos artigos científicos que venho produzindo. Nos últimos cinco anos, tenho produzido, em média, cinco artigos por ano, além da produção criativa.


Essa passagem entre diferentes formas de produção não significa, para mim, uma passagem entre pesquisa séria e pesquisa não séria. Significa que existem diferentes lugares e formas de produzir conhecimento. Às vezes, o objeto nasce de uma reportagem, de uma entrevista, de uma conversa, de uma memória, de um documento que alguém guarda em casa. Depois, aquilo pode se transformar em artigo, filme, livro, dossiê ou outra coisa. Outras vezes, acontece o contrário.


Tenho feito pesquisa também nessa condição material bastante precária: pouco dinheiro para deslocamento, pouca estrutura, pouco tempo, muitas vezes tendo que andar atrás das pessoas e dos documentos por conta própria. E isso não é uma reclamação lateral. A própria condição material interfere na possibilidade de pesquisar.


Há ainda as estruturas hierárquicas. Neste momento, por exemplo, tenho um plano de trabalho elaborado, mas existe uma instância institucional que precisa convocar uma reunião para que ele seja formalmente apresentado e aprovado. Em tese, é a partir daí que determinados recursos, como passagens, podem ser solicitados. Enquanto essa decisão não acontece, a pesquisa não para. Continuo fazendo entrevistas presenciais e remotas, recebendo documentos e textos de fontes, conversando com colaboradores e construindo o dispositivo documental que poderá dar origem a dossiês, memória, livro, filme e outros produtos.


É nesse movimento, entre a pesquisa que se faz e as condições materiais que permitem ou dificultam que ela aconteça, que venho pensando cada vez mais nos arquivos dos movimentos sociais.


Há, pelo meu entendimento, na Fase, na CPT e em outras instituições, assim como entre pessoas que participaram dessas entidades e dos movimentos sociais, fotografias, filmes, vídeos, documentos, objetos, panfletos, boletins, jornais, cartas e outros materiais produzidos ao longo dessas experiências. Há também os arquivos pessoais daqueles que participaram diretamente dessa história.


Quando penso no Joel, penso imediatamente nisso. Ele era um arquivo vivo. Guardava documentos, conhecia pessoas, acontecimentos e relações, tinha uma memória construída por sua própria trajetória. Parte daqueles documentos se perdeu. E, quando uma pessoa assim desaparece, não desaparece somente aquilo que estava fisicamente guardado em suas gavetas, pastas ou caixas. Pode desaparecer também uma rede de referências que ajudava a localizar, interpretar e relacionar aqueles documentos.


Por isso continuo perguntando: onde estão esses materiais?


O que foi feito dos arquivos produzidos por essas instituições e por essas pessoas? O que foi preservado? O que foi descartado? O que permanece guardado? O que foi entregue a alguma instituição? O que ficou com famílias, militantes, pesquisadores, jornalistas ou antigos colaboradores?


Talvez exista aí uma subestrutura histórica do movimento social que ainda não foi suficientemente localizada e sistematizada.


Essa preocupação não surgiu agora.


Lembro de uma experiência que tive em Bragança com Mestre Romão Vieira de Sousa, que registrei em uma das minhas Crônicas Bragantinas, em julho de 2020. Romão nasceu em Patalinho, em 1930, e, embora tivesse sido afastado da escola pelas necessidades da vida, desenvolveu por conta própria um enorme interesse pela leitura e pela pesquisa. Trabalhou como delegado sindical rural, comissário de polícia e fiscal de imposto, e foram justamente esses deslocamentos pelo território que também lhe permitiram construir uma parte extraordinária de sua pesquisa sobre Bragança.


Desde 1944, segundo ele próprio me contou, começou a visitar as comunidades do município. Dizia ter visitado 236 localidades até 1980. Ia às colônias, praias e campos e conversava com as pessoas. Fazia anotações durante essas viagens e, quando chegava em casa, retomava aquilo que havia observado, acrescentando informações de memória. Fazia desenhos, caricaturas e mapas das localidades, representando habitações, lugares importantes e características das comunidades.


Ele havia construído, ao longo de décadas, uma forma própria de cartografar e registrar Bragança.


E isso é importante porque seus cadernos não continham apenas mapas no sentido convencional. Ali estavam anotações sobre comunidades, localidades, pessoas, acontecimentos e modos de vida. Havia referências a lugares como Taperuçu Campo, Tamatateua, Caratateua, Campo de Baixo, Bom Jardim, Urubuquara, Cajueirinho, Tracuateuazinho. Havia registros de praias e outros lugares que fazem parte da geografia social de Bragança.


Romão também acompanhava a vida política do município. Ia às sessões da Câmara, ouvia notícias de rádio, acompanhava os prefeitos e fazia anotações. Guardava esse material em seus cadernos e dizia que ainda queria realizar um trabalho com aquilo.


Quando estive com ele, vi esses cadernos em seu escritório. Ele os mostrava com uma naturalidade impressionante. Eram páginas amareladas, desenhos, anotações, mapas, memórias. Havia ali uma pesquisa acumulada durante décadas por alguém que conhecia o território não apenas por documentos oficiais, mas porque tinha caminhado por ele, conversado com seus habitantes e observado suas transformações.


E havia uma coisa que me preocupava naquele momento: aquela produção não estava acondicionada em condições adequadas e poderia se perder.


Romão deixava as pessoas manusearem seus cadernos. E, diante da possibilidade de perda, dizia simplesmente: “se perder, perdeu”.


Eu registrei isso porque me parecia absurdo que uma produção daquele tamanho pudesse depender apenas da sobrevivência física daqueles cadernos e da disposição de alguém para guardá-los.


Depois ele morreu sem concluir a obra que pretendia fazer.


Escrevi então que talvez um dia a família pudesse digitalizar seus textos e desenhos e que alguma instituição, talvez a Secretaria de Cultura ou outra organização, pudesse se interessar por resgatar aqueles tesouros.


Mas essa esperança também contém uma pergunta que hoje me parece ainda mais importante: **o que aconteceu efetivamente com esse material?**


Foi digitalizado? Foi preservado? Onde está? Quem o guarda? Quanto dele sobrevive?


Não tenho, neste momento, todas essas respostas. E não quero inventá-las. Essa é justamente uma das questões que precisam ser pesquisadas.


Romão é importante para mim porque mostra uma coisa que encontro novamente quando penso nos arquivos dos movimentos sociais: conhecimento pode ser produzido durante décadas fora das estruturas formais destinadas a produzi-lo e pode permanecer materialmente concentrado na casa, nos cadernos, nas fotografias, nos documentos e na memória de uma pessoa.


Quando essa pessoa morre, começa outra etapa da história daquele conhecimento.


É também nesse sentido que penso nos prédios, nos lugares e nos objetos. Quando um prédio cai ou quando uma lógica muito simples de patrimônio determina que determinado lugar deixe de existir, não é somente uma construção que desaparece. Dependendo do caso, desaparecem documentos, marcas, referências espaciais, modos de uso, lembranças e conhecimentos relacionados àquele lugar.


É por isso que hoje fazer pesquisa, para mim, também significa correr atrás dessas coisas.


É entrevistar.


É caminhar.


É receber um documento de alguém.


É fotografar.


É guardar uma cópia.


É perguntar quem possui determinado caderno.


É tentar descobrir onde foi parar uma coleção.


É reunir fragmentos.


Não porque a pesquisa se reduza à preservação desses materiais, mas porque, muitas vezes, é preciso primeiro localizar aquilo que poderá ser investigado, relacionado e interpretado. E, quando se percebe que esses materiais estão sujeitos a desaparecer ou permanecer dispersos, surge também a necessidade de pensar nas condições de sua documentação, organização e guarda.


É nesse sentido que vejo o trabalho que estou desenvolvendo agora no Pós-Doutorado Júnior como uma continuidade de um percurso que já vinha fazendo. O título do meu Plano de Trabalho é **“Memória social, documentação e sistematização de conhecimentos territoriais do movimento extrativista amazônico: contribuições para a produção compartilhada de conhecimento sobre territórios tradicionais”**, vinculado ao Projeto Institucional UKRI–Brazil “Monitoramento Participativo dos Territórios Tradicionais”, do NAEA/UFPA.


A proposta é desenvolver uma metodologia de pesquisa de baixo custo para a construção de acervos vivos da memória social amazônica e produzir um corpus documental que permita a criação do **Arquivo Atanagildo de Deus Matos**.


Nesse arquivo deverão estar reunidos documentos, fotografias, entrevistas, vídeos, áudios, cronologias, jornais, cartas, análises, transcrições, metadados e outros materiais relacionados à trajetória de Atanagildo, ao movimento extrativista amazônico e aos territórios tradicionais.


E, a partir desse dispositivo, poderão nascer banco de memória, acervo, memorial, exposição, dossiê, livro, documentário e outros produtos.


Não vejo isso como algo separado daquilo que venho fazendo. Ao contrário, vejo uma continuidade.


Antes eu encontrava um mestre com seus cadernos, um militante com seus documentos, uma pessoa com suas fotografias, uma instituição com seus papéis. Hoje estou tentando construir uma metodologia para que esses materiais possam ser reunidos, relacionados e documentados de maneira mais sistemática, permitindo que a pesquisa avance sobre aquilo que esses conjuntos documentais podem revelar.


Talvez essa seja uma das coisas que aprendi nesse percurso: o pesquisador também precisa produzir as condições materiais para que sua própria pesquisa possa existir.


E isso se torna ainda mais importante quando a pesquisa nasce em territórios e experiências que historicamente não dispõem das mesmas condições de produção, guarda e circulação do conhecimento.


É também por isso que não consigo separar completamente a pesquisa da política. Acredito que o conhecimento produzido nos territórios, nos coletivos, nas experiências ancestrais e nas práticas sociais tem uma importância que não deveria depender apenas de sua capacidade de se adaptar aos temas que estão em evidência nos centros intelectuais.


Tenho alguma dificuldade com essa adesão automática a determinados temas globais e ideias contemporâneas que circulam com grande força nos meios acadêmicos e midiáticos, enquanto muitas realidades concretas continuam sem resposta, sem documentação e sem condições materiais para produzir e fazer circular seu próprio conhecimento.


Talvez por isso eu esteja interessado justamente nesses lugares de contracorrente.


E talvez seja também por isso que considero maravilhoso continuar fazendo o que faço.


Pesquisar como jornalista, como radialista, como poeta, como produtor de conhecimento, como autor, como participante de coletivos e  também como pesquisador vinculado a uma universidade não são, para mim, experiências que precisem ser separadas em compartimentos.


Há uma mesma disposição em todas elas: ir atrás.


Ir atrás das pessoas.


Ir atrás dos documentos.


Ir atrás das histórias.


Ir atrás daquilo que ainda pode ser encontrado.


E é nesse ponto que volto ao Joel, a Romão e aos arquivos da Fase, da CPT e de tantas outras experiências.


Talvez eles sejam partes diferentes de uma mesma pergunta que venho fazendo há algum tempo: quantos conhecimentos já desapareceram simplesmente porque não encontramos a tempo quem os guardava?


E quantos ainda estão aí, esperando que alguém vá atrás?



CARPINTEIRO


11.09.2026




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