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CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE PORTUGAL

 

Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa
Professor António José Seguro,

Escrevo-lhe desde Belém do Pará, na Amazônia brasileira, para apresentar a Vossa Excelência uma história que talvez possa parecer pequena diante dos grandes desafios do nosso tempo, mas que guarda, em sua dimensão humana e cultural, uma possibilidade muito especial de aproximação entre Portugal e o Brasil.

Em Belém do Pará existe uma escola pública chamada Escola Municipal República de Portugal.

Fundada em 1951, a instituição completa, em 2026, 75 anos de existência. É uma das escolas históricas da rede municipal de Belém e tornou-se, ao longo de sete décadas e meia, parte indissociável da memória do bairro da Marambaia e da própria história social da cidade.

Por suas salas passaram gerações de estudantes, professores, servidores e famílias. Há famílias em que avós, pais e filhos estudaram na mesma escola. A República de Portugal tornou-se, assim, mais do que uma instituição de ensino: tornou-se patrimônio afetivo, cultural e comunitário.

É justamente essa memória que estamos procurando preservar.

Sou Francisco Weyl, escritor e coordenador do Festival Internacional de Cinema do Caeté – FICCA, iniciativa de formação e produção audiovisual desenvolvida no Pará.

Em parceria com a Escola República de Portugal, estamos realizando um processo de formação audiovisual que envolve estudantes, professores, trabalhadores da escola, antigos alunos e a comunidade na pesquisa e documentação dos seus 75 anos de história.

Em novembro de 2025, inauguramos o Cineclube República de Portugal e formalizamos um Protocolo de Intenções para desenvolver, ao longo de 2026, oficinas de roteiro, fotografia, captação de som, filmagem e montagem, além de sessões cineclubistas e núcleos de produção audiovisual.

O resultado desse processo será um documentário sobre os 75 anos da escola, construído a partir das memórias daqueles que fizeram e continuam fazendo parte de sua história.

Não queremos apenas fazer um filme sobre uma escola.

Queremos permitir que uma comunidade conte a própria história.

Por isso, no próximo dia 8 de outubro de 2026, realizaremos uma grande jornada de memória na Escola República de Portugal.

Será um dia dedicado às gravações do documentário e à escuta da comunidade. Estudantes e realizadores estarão reunidos com antigos professores, ex-alunos, pais, moradores, trabalhadores da escola, lideranças culturais, escritores, poetas e artistas para registrar entrevistas, histórias, causos e lembranças.

Também estaremos recebendo fotografias, vídeos, boletins escolares, documentos, cadernos, certificados, objetos e outros materiais que possam contribuir para reconstruir a trajetória da instituição.

Estamos convidando especialmente as lideranças culturais da Marambaia, parceiras e colaboradoras de nossas ações, para que estejam presentes e também ofereçam seus depoimentos ao documentário.

Poetas, escritores, artistas, grupos culturais e criadores da comunidade serão chamados a participar dessa construção coletiva, porque entendemos que a história da escola não pertence somente aos seus arquivos oficiais. Ela também está guardada na memória das pessoas, nas fotografias das famílias, nos objetos preservados durante décadas e nas narrativas que circulam pelas ruas do bairro.

Esse encontro terá ainda um significado simbólico.

Queremos que o dia 8 de outubro seja um grande abraço da comunidade à Escola República de Portugal.

Um abraço de afeto e reconhecimento.

Um gesto coletivo para afirmar que acreditamos na escola pública, defendemos sua importância e reconhecemos nela um espaço fundamental de educação, cultura, convivência, memória e futuro.

E é nesse ponto que Portugal entra nesta narrativa.

A denominação “República de Portugal”, inscrita na fachada de uma escola pública amazônica, permanece como uma presença simbólica da língua portuguesa e dos vínculos históricos que atravessaram o Atlântico e chegaram à Amazônia.

Há ainda uma circunstância particularmente significativa: esta escola está localizada em Belém do Pará, cidade que compartilha seu nome com Belém de Portugal.

Duas cidades chamadas Belém.

Dois territórios separados pelo Atlântico.

Uma mesma língua.

E uma escola pública amazônica chamada República de Portugal, que chega aos 75 anos contando sua própria história através do cinema.

Acreditamos que esse encontro simbólico pode transformar-se em uma ponte cultural contemporânea entre Portugal e a Amazônia brasileira.

Essa ponte já começou a existir.

O FICCA mantém relações de cooperação cultural com instituições portuguesas, entre elas a Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa e a Livraria Independente Gato Vadio, do Porto. O projeto também dialoga com instituições e iniciativas culturais amazônicas, brasileiras e de outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Por isso, permitimo-nos dirigir a Vossa Excelência um convite.

Gostaríamos de apresentar oficialmente à Presidência da República Portuguesa o projeto “75 Anos da Escola República de Portugal” e propor que esta celebração possa constituir uma pequena, mas significativa, ação de aproximação cultural entre Portugal e a Amazônia.

Seria particularmente honroso se Vossa Excelência pudesse conhecer o projeto, receber uma cópia do futuro documentário e, se possível, enviar uma mensagem aos estudantes e à comunidade da Escola República de Portugal por ocasião de seus 75 anos.

Uma mensagem da Presidência da República Portuguesa poderia representar para esses jovens uma experiência inesquecível: a percepção concreta de que a língua que falam, a história que investigam e a cultura que produzem podem estabelecer diálogos para além das fronteiras.

Gostaríamos também de sonhar com um segundo momento: que o documentário possa ser apresentado em Portugal, criando um encontro entre estudantes, educadores, cineastas, artistas e comunidades dos dois lados do Atlântico.

Quem sabe possa nascer dessa experiência um intercâmbio audiovisual entre jovens da Amazônia e jovens portugueses, tendo como eixos a memória, o território, a educação, a língua portuguesa e o cinema.

Acreditamos que a diplomacia cultural também pode nascer de lugares inesperados.

Pode nascer de uma escola pública de bairro.

Pode nascer da memória de uma professora.

De uma fotografia guardada durante cinquenta anos.

Da voz de um antigo aluno.

De um poeta da comunidade.

De uma criança segurando uma câmera pela primeira vez.

É essa experiência que estamos tentando construir na Escola República de Portugal.

Senhor Presidente, esta carta não pretende solicitar apenas apoio institucional. Pretende, antes de tudo, abrir uma conversa.

Gostaríamos de convidar Portugal a conhecer uma pequena parte da Amazônia que se reconhece também na língua portuguesa e que deseja transformar sua memória em instrumento de educação, cultura, cidadania e futuro.

Se Vossa Excelência considerar pertinente, teremos a honra de encaminhar à Presidência da República o projeto, o Protocolo de Intenções firmado entre a escola e o FICCA, registros das atividades realizadas e o material audiovisual já produzido.

E, sobretudo, gostaríamos de poder compartilhar com Vossa Excelência a história dos 75 anos da Escola República de Portugal.

No dia 8 de outubro, faremos um abraço simbólico nessa escola.

Será o abraço dos estudantes, dos professores, das famílias, dos antigos alunos, dos trabalhadores, dos poetas, dos escritores, dos artistas e das lideranças culturais da Marambaia.

Um abraço à memória.

Um abraço à educação pública.

Um abraço ao futuro.

E talvez, também, um abraço entre duas Beléns.

De Belém do Pará para Belém de Portugal.

De uma escola amazônica para a República Portuguesa.

De uma memória local para uma possível ponte entre dois povos que continuam a conversar através da língua, da cultura e da história.

Com elevada consideração e respeito,

Francisco Weyl
Escritor e coordenador do FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté
Belém do Pará – Brasil








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