Participei da reunião do Conexão ARANDU (27.07), a convite de Rosilene Cordeiro, antiga parceira de caminhos, arte, memória e territórios. Rosilene coordena o projeto a partir da Casa Poranga, em Icoaraci, e foi ali que comecei a entender uma proposta que pretende ligar comunidades parentes-irmãs pela memória cultural dos rios que as circundam, estabelecendo uma circulação entre Belém, Primavera, Bragança e Irituia, acompanhando os percursos do Rio Irituia, Rio Capim, Rio Maguari e Rio Caeté.
O próprio texto do projeto fala em encontrão. Gosto dessa palavra porque ela diz muito do que ouvi na reunião. Um encontrão de pessoas, comunidades, memórias, oralidades, objetos, experiências e modos de viver que voltam a se aproximar para reestabelecer fluxos, reurdir relações e fortalecer vínculos construídos muito antes deste projeto existir.
Na reunião ouvi que a circulação passará pela Casa Poranga, em Icoaraci, pela Casa da Vozinha, em Primavera, pela Associação Mulheres da Vila Que Era, em Bragança, chegando também a Irituia. Pode ser que outros territórios apareçam durante o percurso. Prefiro deixar que o próprio projeto os apresente à medida que caminhar.
Também me chamou atenção o fato de ser um projeto construído basicamente por mulheres. Na reunião, além de mim, havia apenas outro homem. Registro esse dado porque ele faz parte da experiência que vivi e porque a presença feminina atravessa a organização, a condução e a própria atmosfera do encontro.
Eu e Rosilene nos conhecemos há muitos anos. Ela também participa do FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté, e alguns desses territórios também fazem parte das redes de circulação construídas pelo festival. Percebo aproximações entre essas experiências, sobretudo na aposta de que a arte circula melhor quando encontra as pessoas em seus próprios lugares.
No Conexão ARANDU, porém, a memória ocupa o centro da caminhada. O projeto fala da valorização das pessoas velhas, das ancestralidades indígenas e afroamazônicas, das oralidades, dos objetos guardados pelas comunidades, das tecnologias do diálogo, da troca, da artesania e do corpo a corpo como formas de enfrentar o apagamento cultural que há séculos atravessa a Amazônia.
Fui convidado por Rosilene para acompanhar esse percurso e reunir, ao final, os materiais produzidos durante a circulação: fotografias, vídeos, poemas, performances, objetos, documentos, depoimentos e outros registros que nascerem ao longo do caminho. A ideia é organizar esse conjunto como um dispositivo artístico, técnico e político capaz de manter essas experiências em circulação, como uma nascente que alimenta pequenos córregos, que encontram outros córregos, até voltarem a formar rios.
CARPINTEIRO
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