Assisti a todos os jogos da Copa do Mundo.
Alguns deles revi nos compactos.
Passei semanas acompanhando escalações, esquemas táticos, estatísticas, entrevistas, gols, defesas, arbitragem, campanhas publicitárias, os patrocinadores ocupando cada centímetro das placas luminosas, as marcas disputando espaço nas camisas, nos telões, nas transmissões, nas redes sociais. A Copa movimenta bilhões de dólares. Empresas investem fortunas para associar seus produtos ao maior espetáculo esportivo do planeta. O futebol se transforma numa gigantesca vitrine do consumo global.
Também acompanhei as notícias sobre jogadores denunciados por assédio, dirigentes envolvidos em escândalos, disputas comerciais, contratos milionários, interesses políticos, acordos que quase nunca chegam às manchetes. A indústria do futebol também produz silêncios. Também escolhe aquilo que ganha luz e aquilo que permanece nas sombras.
Foi assim que assisti à Copa.
Com um olho na televisão.
E outro voltado para Gaza.
Enquanto a bola rolava, eu pensava nas guerras que atravessam séculos. Pensava na facilidade com que determinadas civilizações aprenderam a transformar a destruição em projeto político, a ocupação em estratégia permanente, a força militar em argumento e a repetição dessa narrativa em verdade aceita por tanta gente. Pensava na velocidade com que nos acostumamos às estatísticas. Pensava na facilidade com que um povo inteiro pode desaparecer do noticiário enquanto o mundo celebra um gol.
Foi durante a Copa que voltei aos números do futebol palestino.
Eles me perseguiram durante todas aquelas semanas.
A Associação Palestina de Futebol atualizava seus levantamentos. Os relatórios humanitários também continuavam chegando. Em julho de 2026, eram 421 futebolistas palestinos mortos desde outubro de 2023. Em levantamentos mais amplos da própria Federação Palestina, reunindo atletas de diferentes modalidades, árbitros, técnicos e profissionais do esporte, o número ultrapassava mil vítimas. Cerca de 285 instalações esportivas apareciam registradas como destruídas ou severamente danificadas. Ao mesmo tempo, o número total de palestinos mortos desde o início da guerra ultrapassava 74 mil, segundo autoridades de saúde em Gaza citadas por agências internacionais. (Reuters)
Esses números não nasceram de uma única reportagem.
Eles foram sendo construídos diante do mundo.
Outubro de 2023.
A guerra interrompe os campeonatos palestinos.
Os clubes fecham seus portões.
Os treinamentos deixam de acontecer.
A Federação Palestina de Futebol começa a registrar os mortos, os campos destruídos, os estádios atingidos, os clubes que deixam de existir.
Maio de 2024.
Durante o Congresso da FIFA, em Bangcoc, a Federação Palestina entrega oficialmente seu dossiê. Naquele momento eram 193 jogadores mortos. A documentação descrevia a destruição da infraestrutura esportiva e a paralisação das competições nacionais. A FIFA recebeu o material e anunciou que faria uma avaliação jurídica.
A guerra continuou.
Os nomes continuaram chegando.
Agosto de 2025.
A morte de Suleiman Al-Obeid, conhecido como o Pelé Palestino, levou a contagem para 321 pessoas ligadas ao futebol palestino mortas desde outubro de 2023.
Os meses seguintes ampliaram novamente essa lista.
Mais de quatrocentos futebolistas.
Depois 421.
Ao lado dessa contagem, outra sequência também crescia.
Hospitais.
Escolas.
Universidades.
Bibliotecas.
Museus.
Centros culturais.
Campos de refugiados.
Cada relatório acrescentava um pedaço da mesma história.
Foi impossível assistir à Copa sem carregar tudo isso comigo.
Cada estádio cheio me fazia lembrar dos estádios destruídos.
Cada criança comemorando um gol me fazia lembrar das crianças que nunca chegaram ao próximo treino.
Cada transmissão impecável me fazia pensar nas imagens que quase nunca ocupam o centro das transmissões.
Foi assim que acompanhei aquele Mundial.
A Copa terminava.
As listas continuavam sendo atualizadas.
CARPINTEIRO DE POESIA

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