Os artigos recentemente publicados pelo PSTU e pelo PCO sobre os megaprojetos na Amazônia suscitaram uma reflexão que ultrapassa a disputa entre duas organizações políticas. Interesso-me por esse debate porque ele toca questões sobre as quais venho pesquisando, escrevendo e realizando filmes há muitos anos. Não parto da polêmica; parto dos territórios.
O artigo do PSTU apresenta uma crítica consistente aos grandes empreendimentos que atravessam a Amazônia paraense. Ferrogrão, hidrovias, Belo Sun, exploração de petróleo na Margem Equatorial, mercado de carbono e outros projetos aparecem relacionados aos impactos sociais, ambientais e territoriais que produzem. O texto recupera um aspecto decisivo desse debate: a defesa da consulta prévia, livre e informada, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, e o reconhecimento de que povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas e demais comunidades tradicionais devem participar efetivamente das decisões que transformam seus territórios.
Esse ponto merece ser valorizado.
A consulta prévia representa uma conquista histórica construída pelas lutas desses povos. Ela reconhece que os territórios não constituem simples espaços de implantação de empreendimentos. São lugares onde se produzem memória, cultura, economia, conhecimentos, tecnologias sociais e formas próprias de organizar a vida coletiva. Escutar essas comunidades significa reconhecer sua condição de sujeitos políticos e produtores de conhecimento.
Ao longo dos últimos anos tenho insistido exatamente nessa direção. Escrevi sobre os impactos provocados pela Cargill no Projeto Agroextrativista Santo Afonso, em Abaetetuba. Denunciei a utilização de estratégias jurídicas, midiáticas e institucionais voltadas à deslegitimação de comunidades tradicionais. Produzimos o documentário #FORACARGILL como resposta às narrativas corporativas que procuram apresentar a expropriação territorial como desenvolvimento. Escrevi sobre a crise climática, sobre a COP-30, sobre o mercado de carbono, sobre o avanço de corredores logísticos destinados ao agronegócio global e sobre a sucessão de acidentes ambientais envolvendo empresas como Hydro, Albrás, Alunorte, Imerys, Agropalma e a própria Cargill. Em todos esses textos, a defesa dos territórios nunca apareceu como recusa ao futuro. Ela sempre esteve associada ao direito dos povos de participarem da construção desse futuro.
É justamente por isso que o artigo do PCO me provoca.
Ao responder ao PSTU, o texto desloca quase toda a discussão para a disputa entre imperialismo e soberania nacional. A partir dessa chave interpretativa, as críticas aos megaprojetos passam a ser compreendidas como expressão de um suposto ambientalismo subordinado aos interesses estrangeiros. Surge então uma oposição simplificadora entre desenvolvimento e atraso, como se a defesa dos territórios implicasse a recusa da infraestrutura, da ciência, da tecnologia ou da melhoria das condições de vida da população amazônica.
Essa formulação deixa escapar uma dimensão fundamental da realidade amazônica.
As resistências à Cargill, à Belo Monte, à Belo Sun, à Ferrogrão, às hidrovias, à expansão portuária, aos projetos associados ao mercado de carbono e a tantos outros empreendimentos não nasceram de abstrações ideológicas. Elas emergiram de conflitos concretos, de ações civis públicas, de pesquisas acadêmicas, de relatórios técnicos, de produções audiovisuais, de denúncias formuladas por movimentos sociais e, sobretudo, da experiência cotidiana de comunidades que reivindicam algo elementar: respeito aos seus territórios e cumprimento da Constituição Federal e da Convenção 169 da OIT.
Ao mesmo tempo, minha leitura também encontra um limite no artigo do PSTU.
Embora o texto valorize a participação das comunidades, sua arquitetura permanece organizada principalmente pela denúncia dos impactos provocados pelos grandes empreendimentos. Os territórios aparecem sobretudo como lugares ameaçados.
Minha experiência na Amazônia aponta para outra camada igualmente importante.
Os povos amazônidas produzem pensamento. Produzem formas de economia, tecnologias da floresta e das águas, sistemas de manejo, experiências culturais, pedagogias comunitárias e modos de existência que oferecem contribuições efetivas para enfrentar a crise climática contemporânea. A Amazônia não comparece apenas como vítima de um modelo predatório; ela constitui um campo vivo de elaboração de alternativas civilizatórias.
Talvez seja justamente aqui que o debate alcance outra densidade.
Enquanto um texto concentra sua energia na crítica aos empreendimentos e o outro concentra sua argumentação na defesa do desenvolvimento nacional, ambos continuam orbitando em torno do mesmo centro: o empreendimento. A ferrovia, o porto, a mina, a hidrovia, o petróleo permanecem como eixo principal da discussão.
Minha pergunta segue outro caminho.
Quem escuta a Amazônia?
Quem reconhece que seus habitantes produzem conhecimento sobre desenvolvimento, clima, território, economia, cultura e futuro?
Quem aceita que a democracia também se constrói pelo direito de consulta, pelo respeito aos protocolos comunitários e pelo reconhecimento dos sujeitos históricos que vivem esses territórios?
Confesso que tenho sentido um cansaço crescente diante da forma como parte do debate público passou a se organizar. As polêmicas parecem interessadas em vencer adversários antes de compreender problemas. As identidades ideológicas frequentemente substituem a investigação rigorosa. Multiplicam-se respostas prontas para questões que exigiriam escuta, pesquisa e convivência.
A Amazônia merece mais do que essa disputa permanente entre verdades acabadas.
Ela exige pensamento.
Pensamento construído com quem vive seus rios, suas florestas, suas periferias, seus quilombos, suas aldeias, seus assentamentos, suas cidades e seus campos. Pensamento capaz de enfrentar as corporações responsáveis por acidentes ambientais, pela expansão predatória da mineração, do agronegócio, dos grandes corredores logísticos e das falsas soluções verdes. Pensamento comprometido com a justiça climática, com a cultura, com o cinema, com a ciência e com a dignidade humana.
É desse lugar que procuro escrever.
Antes da polêmica. Depois da polêmica. E, espero, para além dela.
CARPINTEIRO DE POESIA
Textos que motivaram esta reflexão
A presente reflexão parte da leitura crítica dos seguintes artigos:
- AGUIAR, Roberto. "Cleber Rabelo defende a Amazônia e propõe barrar megaprojetos que ameaçam o Pará". Opinião Socialista (PSTU), 14 jul. 2026. Disponível em https://opiniaosocialista.com.br/cleber-rabelo-defende-a-amazonia-e-propoe-barrar-megaprojetos-que-ameacam-o-para/
- "Candidato do PSTU quer guardar Amazônia para o imperialismo". Causa Operária (PCO), 2026. Disponível em https://causaoperaria.org.br/2026/candidato-do-pstu-quer-guardar-amazonia-para-o-imperialismo/
Ao mesmo tempo, este ensaio dialoga com um conjunto de reflexões anteriormente desenvolvidas pelo autor neste blog [Carpinteiro de Poesia], entre as quais:
- WEYL, Francisco. "O cinema, a crise climática e os impactos na Amazônia e no Brasil". Carpinteiro de Poesia, 10 out. 2024.
- WEYL, Francisco. "A farsa da retirada da Cargill e o teatro da COP-30". Carpinteiro de Poesia, 22 maio 2025.
Além desses textos, a reflexão também se apoia na experiência desenvolvida pelo autor através do documentário #FORACARGILL, do Fórum Permanente de Políticas Públicas Periféricas Marambaia COP-30, do FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté, de pesquisas sobre cinema, justiça climática, Amazônia, grandes empreendimentos, Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e direitos territoriais de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e demais comunidades tradicionais.

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