Imaginário de Cabo Verde pelo Brasil: entre o Plateau e as redes do Cinema Afro-Luso-Brasileiro
Francisco Weyl1
Universidade Federal do Pará, Brasil
Hilton P. Silva2
Universidade Federal do Pará e Universidade de Brasília, Brasil
Resumo: O Plateau, bairro histórico da capital cabo-verdiana, torna-se palco fundamental para a construção do imaginário nacional através do cinema, especialmente no “Plateau Film Festival”. O evento vai além da exibição de filmes, funcionando como espaço de resistência cultural, memória coletiva e diálogo transnacional com a diáspora lusófona, através de diversas parcerias, entre estas, com o “Festival Internacional de Cinema do Caeté” (FICCA), no Brasil. Este estudo utiliza metodologia de revisão videográfica, analisando filmes e festivais para compreender a cadeia audiovisual que conecta Cabo Verde, Brasil e outras nações lusófonas. O cinema emerge como meio de expressão, fortalecimento identitário e empoderamento social, destacando-se a atuação de realizadores e agentes culturais como Francisco Weyl, Brasil, e Júlio Silvão, Cabo Verde. Assim, o cinema cabo-verdiano constrói memórias dinâmicas, reafirma identidades híbridas e projeta futuros emancipatórios, evidenciando seu papel político e estético na diáspora lusófona.
Palavras-chave: Cinema Cabo-verdiano, memória, revisão videográfica, lusofonia, Cinema Negro.
Abstract: Plateau, a historic neighborhood in the Cape Verdean capital, has become a fundamental stage for the construction of the national imagination through cinema, especially at the “Plateau Film Festival”. The event goes beyond simply screening films, functioning as a space for cultural resistance, collective memory, and transnational dialogue with the Lusophone diaspora through various partnerships, including with the “Caeté International Film Festival” (FICCA) in Brazil. This study uses video review methodology, analyzing films and festivals to understand the audiovisual chain connecting Cape Verde, Brazil, and other Lusophone nations. Cinema emerges as a means of expression, identity strengthening, and social empowerment, highlighting the work of filmmakers and cultural agents such as Francisco Weyl (Brazil) and Júlio Silvão (Cape Verde). Thus, Cape Verdean cinema constructs dynamic memories, reaffirms hybrid identities, and projects emancipatory futures, highlighting its political and aesthetic role in the Lusophone diaspora.
Keywords: Cape Verdean cinema, memory, video review, Lusophony, Black Cinema
1. Introdução – O lugar da palavra e a geografia da memória
O Plateau é o coração administrativo da cidade da Praia, capital de Cabo Verde, sendo um palco elevado onde a vida cotidiana se encena e se reinventa. Entre suas ruas de pedra, fachadas guardam memórias de casarios, enquanto o vento do Atlântico carrega histórias feitas de sal, música e resistência. Há imaginários que conectam as areias do Saara aos Lençóis maranhenses. Como disse a artista Misá, “todo brasileiro tem uma África dentro de si” (paráfrase). É neste território suspenso sobre o mar que o cinema encontra abrigo, transformando paredes brancas em horizontes possíveis onde as pinturas sejam reveladoras de sonhos e as janelas se abrem em telas ao mundo. Este artigo nasce da intersecção entre geografia, palavra e memória, articulando a experiência de festivais de cinema em Cabo Verde e no Brasil, notadamente a partir da atuação do pesquisador, professor e realizador Francisco Weyl (Weyl, 2024). Ele habitou a capital cabo-verdiana e participou da produção audiovisual local entre 2005 e 2007; posteriormente (em 2014), dialogou com o Plateau Film Festival (Plateau Film Festival, 2014) através do Festival Internacional de Cinema do Caeté – FICCA (FICCA, 2025), que ele criou, há dez anos, em Bragança do Pará, Brasil. Na perspectiva da Antropologia Visual, o trabalho se desenvolve como um percurso entre as memórias compartilhadas, as práticas culturais e as redes transatlânticas que costuram o cinema como espaço de construção identitária e política (Prudente, 2019).
O texto faz uma análise técnica de obras e movimentos culturais e busca percorrer o cinema como se percorre uma rua antiga: com atenção aos detalhes, às vozes que ecoam nos becos, às marcas deixadas pelo tempo (Taylor, 2013). A escrita aqui se apresenta como uma ponte entre Brasil e Cabo Verde, seja pela língua compartilhada, seja pelo Atlântico que os une, bem como pela memória em movimento que os atravessa (Prudente; Ferreira, 2022). Ao observar os festivais e as práticas culturais que os sustentam, percebe-se que eles são eventos anuais, ritos coletivos de preservação do imaginário (Prudente, 2018). A projeção fílmica é uma convocatória silenciosa para que comunidades inteiras se reconheçam, celebrem suas histórias e reafirmem sua existência frente aos processos globais que, muitas vezes, tentam invisibilizar narrativas locais. Esses festivais são, assim, gestos de resistência cultural, insistindo que histórias de Cabo Verde e da diáspora lusófona merecem espaço, atenção e celebração (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
Este artigo organiza-se em partes, iniciando pela discussão do imaginário insular e suas relações com a memória compartilhada; segue pelo papel do Festival Plateau como espaço público e cultural de resistência; aborda a dimensão política e social do cinema documental; discute os desafios e perspectivas do cinema cabo-verdiano e seus diálogos com o Brasil, especialmente a partir das parcerias culturais com o FICCA (Weyl; Asp; Silva, 2024); e conclui retomando a potência do cinema como agente de construção de imaginários e memórias entre os países da Lusofonia (Prudente, 2021). A reflexão é embasada em referências acadêmicas e no diálogo com pensadores como o professor Celso Prudente, além da experiência prática e memorialística de realizadores e produtores que atuam nos dois lados do Atlântico (Prudente, 2005). Ao longo do texto, produtores e personagens aparecem para assinalar sua contribuição e perspectivas, mantendo, porém, o foco nas redes culturais e nas dinâmicas coletivas (Prudente, 2014).
2. Contexto político, urbano e cultural da Praia (2014)
O ano de 2014 situava-se num momento de transição na política cabo-verdiana. Desde a independência, em 1975, o país alternou períodos de hegemonia política com aberturas democráticas (Fonseca, 2012) . O PAICV (Partido Africano da Independência de Cabo Verde), herdeiro da luta pela libertação, mantinha forte presença no cenário institucional, mas enfrentava a ascensão do MPD (Movimento para a Democracia), que, desde os anos 1990, vinha pautando agendas liberais e de integração econômica (Santos, 2015).
As mudanças políticas refletiam-se nas políticas culturais e urbanas. A Praia, e especialmente o Plateau, tornara-se palco de investimentos estratégicos: reformas de prédios históricos, melhoria da iluminação pública, incentivo à abertura de cafés, galerias e centros culturais. Essas iniciativas valorizavam o patrimônio e reposicionavam a cidade como destino turístico e polo criativo no Atlântico (Correia, 2016).
Ao retornar em 2014, Weyl observou contrastes marcantes em relação ao período em que ministrava aulas na Universiade Jean Piaget (2005, 2006, 2007), quando articulou o Coletivo Cinema Pobre, através do qual realizou dois filmes3 (Weyl, 2024). O vibrante Plateau de meados dos anos 2000 apresentava sinais de desgaste, com prédios descascados, calçadas irregulares e espaços culturais restritos e concentrados. Entretanto, em 2014, percebia-se uma reorganização do espaço público. A requalificação urbana, embora limitada por falta de recursos, criava um cenário mais acolhedor para moradores e visitantes (Ferreira; Prudente, 2018). Esse processo trazia consigo disputas sobre a função social do espaço urbano, sobre quem se beneficiava dessas melhorias e sobre o risco de transformar o patrimônio cultural em mera vitrine turística (Silva, 2017).
Nesse contexto, o Plateau Film Festival, que tinha entre seus organizadores o realizador Júlio Silvão4, representava um contraponto importante. Em vez de restringir-se a salas de cinema formais, o festival ampliava seu alcance para bairros periféricos e espaços públicos, democratizando o acesso e deslocando a centralidade cultural (Araújo, 2019). A programação incluía debates, oficinas e sessões ao ar livre, fortalecendo a ideia de cinema como ferramenta de formação crítica e fortalecimento identitário (Prudente, 2019). A presença de Weyl no evento não se dava de forma isolada. Sua trajetória anterior no país e sua atuação no FICCA permitiram que o encontro entre os dois festivais se tornasse uma ponte para trocas mais amplas. Esse intercâmbio propunha algo raro: colocar em diálogo experiências cinematográficas oriundas de realidades geográficas e históricas distintas, mas atravessadas por desafios semelhantes – como a dependência de financiamento externo, a disputa por narrativas próprias e a necessidade de criar redes de colaboração horizontal (Weyl; Silva; Araújo, 2023). Assim, a participação deste realizador no Plateau Film Festival de 2014 deve ser entendida como o retorno de um artista a um território que lhe foi significativo, e ao mesmo tempo, parte de um movimento maior de circulação cultural e de resistência simbólica, no qual o cinema atua como elo entre memórias dispersas e geografias afastadas, sendo esta simbólica, mas concreta, diáspora tema de pesquisa e de filmes de Weyl (Weyl, 2024).
3. O Imaginário insular de Cabo Verde e as trilhas do Cinema na Diáspora Lusófona
A geografia de Cabo Verde é de encontro e separação. Dez ilhas dispersas no vasto Atlântico, por vezes separadas por distâncias que parecem eternas, mas unidas por uma história e um imaginário que cruzam o tempo e o espaço (Fonseca, 2012). Esta experiência insular combina o isolamento próprio de territórios fragmentados e, simultaneamente, uma conexão com o mar e as diásporas africanas e afrodescendentes espalhadas pelo mundo (Santos, 2015). É um arquipélago onde o silêncio das ondas esconde histórias de migração, saudade, resistência e sonho. O mar, enquanto elemento simbólico e real, atua como barreira e ponte, ao mesmo tempo que delimita e expande horizontes (Prudente, 2019).
Neste espaçooceano, o imaginário não é uma construção estática, congelada no passado ou no presente efêmero. É um fluir que pulsa, respira e se transforma. É um corpo-líquido, vivo e dinâmico, que se expressa em múltiplas linguagens culturais: nas mornas que choram a distância e a ausência; nas festas que celebram com batuco a vida comunitária e ancestral; na oralidade das conversas de esquinas, carregadas de saberes e memórias; na literatura que reflete as nuances de um povo em permanente diálogo com suas origens, onde a língua que o revela não se adequa às regras oficiais (Ferreira; Prudente, 2022). Uma língua cuja oralidade constrói imaginários. É no cinema que essas narrativas ganham forma particularmente potente — como arte do tempo, da imagem e do movimento, o cinema capta o que o vento, a terra e o mar sussurram silenciosamente, transformando em visível o invisível, dando voz ao que o corpo e a paisagem contam (Weyl, 2024).
A memória coletiva, compartilhada entre as ilhas e comunidades, funciona como elo que sustenta esse imaginário. O Festival Plateau, realizado na capital Praia, emerge como espaço emblemático para o resgate dessas memórias (Araújo, 2019). Ao ocupar fisicamente locais históricos como o Cine-Praia, o festival revive espaços culturais esquecidos e impulsiona a reativação de um imaginário silenciado ou invisibilizado ao longo das décadas. Ele constrói, assim, uma ponte cultural que conecta o passado às novas gerações, reafirmando a africanidade e a lusofonia como territórios comuns de resistência, expressão e reexistência (Prudente, 2018).
Ao projetar filmes de Cabo Verde, países africanos, Portugal e Brasil, o Festival Plateau é um território onde narrativas múltiplas se cruzam, produzindo diálogos que refletem a complexidade do imaginário cabo-verdiano (Silva, 2017). Identidades se formam e se reformulam, não como essências fixas, mas a partir da circulação de corpos, palavras e imagens, que viajam entre continentes e costuram novas possibilidades de pertencimento. Esta circulação é uma memória em movimento, um testemunho das trajetórias que se entrelaçam e das conexões históricas estabelecidas pela diáspora (Prudente; Ferreira, 2022).
A memória que o festival ajuda a construir emerge do repertório imaginário do povo caboverdeano e da África continental, não se constituindo num arquivo fechado ou passivo, mas crítico, ativo e em campo aberto, vibrante, onde o cinema atua como agente de reconhecimento, ressignificação e reinvenção dos laços culturais e identitários (Weyl; Silva; Araújo, 2023). A tela torna-se espaço de confronto, debate e celebração das múltiplas realidades que coexistem em Cabo Verde.
A participação de realizadores, produtores e pesquisadores brasileiros, especialmente através do FICCA, amplia as fronteiras dessa rede cultural. Graças à relação afetiva entre Silvão e Weyl, o FICCA, sediado em Bragança (PA), e o Festival Plateau estabeleceram parcerias institucionais e artísticas que fortalecem uma colaboração transoceânica, consolidando diálogo entre culturas afrodescendentes e africanas na diáspora lusófona (Weyl; Asp; Silva, 2024). Essa inter-relação revela-se como estratégia para a afirmação de narrativas negras plurais e resistências conjuntas às hegemonias culturais globais.
A condição insular de Cabo Verde molda o imaginário e as práticas culturais de seu povo. O oceano Atlântico separa o arquipélago do continente africano e das diásporas africanas, mas também permite que essas conexões se estabeleçam (Fonseca, 2012). Na vida cotidiana e na cultura popular, o mar é presença constante — ora como símbolo de saudade, ora como espaço de esperança. A melancolia da Morna e a energia da Coladeira refletem a vitalidade e resistência do povo insular (Prudente, 2019).
Entre 2005 e 2007, Francisco Weyl residiu em Cabo Verde, vivenciando e registrando o cenário em transformação. Sua experiência foi traduzida em filmes produzidos pelo Coletivo Cinema Pobre, como Meta_fora5 e Salamandra (Weyl, 2024). Nestas obras, a limitação técnica foi encarada como linguagem estética, enquanto locações naturais, luz disponível e improviso criativo definem a poética cinematográfica que se aproxima da vida cotidiana (Silva; Araújo, 2023). O Plateau em 2014 era espaço físico e simbólico em ebulição, testemunhando uma renovação cultural 6expressa no crescimento da cena musical, no fortalecimento de coletivos artísticos e na circulação de produções africanas independentes e afro-diaspóricas (Prudente, 2018).
A experiência de Cabo Verde ressoa com processos similares na Amazônia brasileira, origem de Weyl, destacando desafios de visibilidade, representação e afirmação das narrativas locais (Weyl; Prudente, 2022). Nesse diálogo entre FICCA e Plateau constrói-se uma memória compartilhada que reconhece singularidades e diferenças. O conceito de memória hospitaleira, inspirado em Paul Ricoeur (Ricoeur, 2007, ilumina esta prática: a memória, ao acolher a experiência do outro, não a subsume nem a anula, mas a incorpora em um tecido comum de sentido.
Nesses festivais, o cinema parte do real para construir imaginários, que atuam na constituição da memória coletiva, não se limitando ao arquivo do passado, mas potencializando o presente e construindo repertório para o futuro (Taylor, 2013). O Plateau Film Festival e o FICCA são plataformas que promovem formação de plateias conscientes, circulação de saberes e práticas que valorizam a diversidade africana e afrodescendente, promovendo diálogos que ultrapassam fronteiras geográficas e culturais (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
Ao mergulhar na geografia insular e nas memórias do arquipélago, o cinema revela que o imaginário cabo-verdiano é um processo vivo, coletivo e aberto, no qual passado e presente se entrelaçam, experiências locais dialogam com globais e a arte afirma identidades em circulação e constante transformação (Prudente, 2021).
4. O Plateau Film Festival: cartografia afetiva, resistência cultural e diáspora Lusófona
O Plateau Film Festival se constitui como cartografia afetiva do território urbano e social da capital cabo-verdiana. O bairro Plateau, espaço histórico e centro administrativo da cidade, é por si só um local simbólico onde memória e identidade se entrelaçam de maneira profunda (Prudente, 2019). Inserir o festival nesse cenário confere-lhe uma dimensão que ultrapassa as limitações do tempo e do espaço físico, convocando os participantes a uma experiência coletiva de reconhecimento e criação cultural.
Organizado com o apoio da Câmara Municipal da Praia e do Ministério da Cultura, o festival representa uma estratégia cultural que valoriza a arte cinematográfica como forma de resistência e afirmação. Num contexto em que as políticas públicas voltadas para o audiovisual permanecem frágeis, o Plateau emergia como verdadeiro bastião de resistência cultural, demonstrando seu vigor em iniciativas concretas como a reabertura do Cine-Praia (Araújo; Silva, 2018). Este espaço emblemático revitaliza a relação entre o público e a sétima arte, restaurando um elo com a própria história local e coletiva.
O festival percorria ruas e avenidas do Plateau, mapeando o espaço urbano e criando zonas de encontro entre diversas comunidades, grupos sociais e gerações. Suas sessões itinerantes, levadas aos bairros periféricos da cidade, eram instrumentos efetivos de democratização cultural, viabilizando o acesso de parcelas da população tradicionalmente marginalizadas ao universo do cinema (Ferreira; Prudente, 2022). Dessa forma, a geografia afetiva que o festival construiu expandia-se para toda a cidade, promovendo a ressignificação dos territórios e a reconstrução de vínculos sociais.
A relação entre o festival e o imaginário cabo-verdiano se desdobrava também na dimensão da africanidade e da lusofonia. Os filmes exibidos integravam uma rede transnacional que abarcava Portugal, Brasil e vários países africanos, configurando espaço onde identidades híbridas e múltiplas são negociadas e afirmadas (Weyl; Silva; Araújo, 2023). Essa rede transcende a mera circulação de obras para se constituir como tecido vivo de intercâmbios culturais e políticos, reforçando o papel do cinema como ferramenta para pensar a diáspora e as dinâmicas migratórias contemporâneas.
A experiência de Francisco Weyl, cineasta que viveu em Cabo Verde quase uma década antes da consolidação do festival, oferece olhar singular sobre essas transformações. Sua atuação no Coletivo Cinema Pobre e suas produções documentais representam resistência estética alinhada ao espírito do Plateau, situando-o como interlocutor privilegiado entre práticas culturais locais e vivências da diáspora lusófona (Weyl, 2024). Weyl captou imagens do território, incorporou escuta sensível que se reflete na construção de linguagem cinematográfica artesanal e engajada, e produziu textos acadêmicos em diversos contextos sobre esta temática (Prudente, 2018).
Paralelamente, o Plateau Film Festival tornou-se laboratório político e cultural inovador. O Fórum Plateau, evento ocorrido simultaneamente ao festival, consolidou-se como espaço estratégico para debate e formulação de políticas públicas voltadas ao audiovisual. A articulação de redes entre realizadores, produtores e gestores culturais foi fundamental para enfrentar desafios como financiamento, capacitação técnica e inclusão social (Silva; Araújo, 2019).
A relevância do festival residia não apenas na seleção e exibição de filmes, mas também na capacidade de funcionar como espaço de produção e memória viva. Ali, passado e presente se encontravam para pensar futuros possíveis, conferindo-lhe dimensão política e afetiva que o posiciona como fenômeno histórico cultural singular (Prudente, 2019). O festival ressoa para além das fronteiras insulares, promovendo diálogos e conexões em escala global, amplificando a voz da cultura cabo-verdiana em contexto transnacional (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
O Plateau é espaço público dinâmico onde se reinventam relações sociais e culturais de Cabo Verde. Num cenário marcado por escassez de recursos e políticas públicas frágeis, emergiu como palco de resistência artística e política, além da mera exibição cinematográfica. A reabertura do Cine-Praia simboliza essa resistência, devolvendo à população a possibilidade de encontros coletivos em torno da sétima arte, enfrentando o apagamento cultural e a precariedade estrutural que ameaçam silenciar vozes e histórias fundamentais para a identidade local (Araújo, 2019).
A itinerância das sessões de cinema pelos bairros periféricos ampliou a democratização do acesso à cultura, contemplando segmentos sociais tradicionalmente excluídos dos circuitos oficiais. A estratégia facilita a fruição do cinema e configura ação pedagógica e política, onde a linguagem audiovisual se converte em instrumento de transformação social (Ferreira; Prudente, 2022). O Fórum Plateau reforçava o caráter coletivo do festival ao reunir jovens realizadores e profissionais para discutir estratégias que fortaleçam o audiovisual cabo-verdiano, destacando a importância das redes colaborativas e construção de políticas públicas eficazes.
Em meio às condições adversas, o festival expressa criatividade singular, evidenciada na “gambiarra poética” — fazer cinema que é também ato de resistência, traduzido em soluções inventivas e apaixonadas (Weyl, 2024).
A relação próxima do Festival Plateau com o FICCA é estratégica. A Fundação Servir Cinema, presidida por Júlio Silvão, materializa intercâmbio cultural e institucional vital. Em 2015, o FICCA homenageou o cinema cabo-verdiano ao exibir diversas obras do país, consolidando diálogo transatlântico e construção conjunta de imaginários culturais (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
Essa cooperação fortalece o cinema negro, africano e da diáspora lusófona, promovendo circulação de filmes e experiências, ampliando visibilidade das narrativas locais no cenário internacional. O festival atua como catalisador dessa circulação cultural, partindo do real para construir imaginários que configuram memórias compartilhadas entre comunidades dispersas geograficamente, mas unidas por histórias, afetos e lutas comuns (Prudente, 2019).
Dessa maneira, o Plateau traduz o cinema em potência transformadora, criando espaços de encontro e debate, fortalecendo identidades plurais e ressignificando a cultura cabo-verdiana no contexto globalizado contemporâneo (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
5. Cinema, Diáspora e Resistência Cultural: Desafios e perspectivas do imaginário cabo-verdiano em diálogo com o Brasil
O cinema em Cabo Verde, mesmo diante de avanços representados por iniciativas como o Plateau Film Festival, ainda enfrenta desafios estruturais e institucionais que dificultam sua plena consolidação. A ausência de políticas públicas consistentes e a escassez de financiamento configuram obstáculos permanentes que fragilizam o desenvolvimento do setor audiovisual (Prudente, 2019). Essas limitações foram amplamente debatidas no Fórum Plateau, espaço que evidenciou a necessidade de fortalecer a produção local por meio de estratégias que ampliem o acesso e a representatividade.
A descentralização da produção e da difusão cinematográfica emerge como política cultural essencial para garantir que o cinema alcance não apenas os centros urbanos, mas também periferias e comunidades historicamente marginalizadas. Exemplos práticos dessa política inclusiva podem ser vistos no projeto “Filmes nos Bairros”, idealizado por Júlio Silvão no âmbito do Festival Plateau, que levou sessões itinerantes para comunidades distantes, democratizando o acesso ao cinema e criando novas formas de pertencimento cultural (Silva; Araújo, 2018). Essa estratégia promoveu uma ressignificação dos territórios, valorizando o espaço público como lugar de encontro, formação e afirmação cultural.
O cinema cabo-verdiano tem buscado afirmar sua identidade em diálogo tanto com os países da África Ocidental quanto com a comunidade lusófona, especialmente Portugal e Brasil. Nesse intercâmbio transatlântico, destaca-se a colaboração com o FICCA, sediado no Pará, Brasil. Essa parceria fortaleceu o diálogo entre culturas afrodescendentes, promovendo circulação de obras, saberes e experiências, ampliando o campo do Cinema Negro e africano, e estimulando redes de cooperação e solidariedade entre artistas, pesquisadores e ativistas culturais (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
A atuação de agentes culturais como Júlio Silvão e de coletivos locais exemplifica o papel do audiovisual como ferramenta de empoderamento social e cultural. O trabalho desenvolvido vai além da mera exibição: abarca formação de crianças e jovens, produção documental e criação de plataformas culturais que ampliam a visibilidade de vozes silenciadas (Prudente, 2018). Esses esforços convergem para uma política cultural que entende o cinema como espaço de resistência e transformação social.
O cinema contemporâneo cabo-verdiano reafirma a centralidade da africanidade e da lusofonia como matrizes essenciais. A circulação intensa de filmes de países africanos de língua portuguesa, combinada com presença significativa de produções brasileiras e portuguesas, constrói campo cultural transnacional em que fronteiras nacionais cedem lugar a identidades híbridas, plurais e em constante negociação. Essa dinâmica desconstrói dicotomias rígidas entre local e global, tradição e inovação, reforçando o cinema como espaço privilegiado para construção de narrativas múltiplas e complexas (Ferreira; Prudente, 2022).
Ainda que os desafios de formação técnica e profissionalização persistam, o Festival Plateau, em sua edição de 2014, ofereceu workshops, debates e masterclasses que ampliaram capacidades de jovens realizadores, promovendo aproximação com circuitos internacionais e consolidando cinema cabo-verdiano robusto e diversificado (Silva; Araújo, 2019). O FICCA, com pedagogia comunitária e colaborativa, complementa o processo, enfatizando aprendizagem pela prática e desenvolvimento das chamadas “tecnologias do possível” — estratégias criativas que transformam recursos limitados em potência narrativa e formativa (Weyl, 2024).
A internacionalização do cinema cabo-verdiano, assim como a consolidação do cinema amazônico, passa pelo reconhecimento de singularidades culturais e pela construção de pontes que conectem redes globais de cooperação. O intercâmbio entre experiências afrodescendentes brasileiras e amazônicas com produções cabo-verdianas amplia diálogo, fortalecendo inserção do cinema do arquipélago no cenário audiovisual internacional e valorizando narrativas periféricas (Prudente, 2021).
O cinema de Cabo Verde parte da realidade vivida para criar imaginários que moldam memórias individuais e coletivas. A dialética entre o real e a representação é fundamental para entender papel dos festivais como espaços onde se consolidam identidades, políticas e afetos (Taylor, 2013). Ao captar histórias locais, o cinema projeta narrativas que dialogam com o passado, enfrentam o presente e apontam para futuros possíveis, reafirmando natureza dinâmica das memórias que se renovam a cada encontro entre filme e público.
O Plateau Film Festival e o FICCA configuram territórios simbólicos onde comunidades se reconhecem e afirmam sua existência em múltiplas dimensões — política, cultural, estética e de resistência (Weyl; Silva; Araújo, 2023). Essa visão encontra respaldo nos estudos de Celso Prudente, para quem o Cinema Negro deve se afirmar como produtor de saberes e agente de transformação social, rompendo estruturas hegemônicas que marginalizam narrativas e dando visibilidade a histórias historicamente silenciadas (Prudente, 2019).
As produções do Coletivo Cinema Pobre, especialmente Salamandra e Meta_Fora, exemplificam interseção entre cinema, memória e imaginário. Essas obras consolidam laços culturais entre Brasil e Cabo Verde e contribuem para construção de campo estético e político que reconhece audiovisual como potência transformadora (Weyl, 2024).
Em síntese, o futuro do cinema cabo-verdiano depende da conjugação de esforços locais, nacionais e internacionais que articulem resistência, identidade cultural e inovação estética num processo contínuo de afirmação e transformação. O cinema se estabelece, assim, como espaço criativo onde o real se converte em matéria-prima para imaginar e reinventar memórias, identidades e futuros, reafirmando seu papel fundamental na construção de narrativas que dignificam e empoderam as comunidades a que pertencem (Prudente, 2019).
6. Considerações Finais: Cinema, Memória e Futuro em Cabo Verde
O cinema em Cabo Verde, especialmente por meio de iniciativas como o Plateau Film Festival, desempenha papel crucial na construção e afirmação de um imaginário nacional que dialoga com as complexidades históricas, culturais e sociais do arquipélago (Weyl; Silva; Araújo, 2023). As narrativas audiovisuais locais transcendem a simples reprodução da realidade para criar imaginários que formam memórias coletivas essenciais à compreensão de uma identidade cabo-verdiana plural, dinâmica e em constante transformação (Prudente, 2019). Essa tensão entre o real vivido e o imaginário construído confere ao cinema uma força singular, posicionando-o como espaço vital de resistência cultural e reafirmação das raízes africanas, da diáspora e dos vínculos transatlânticos que moldam a trajetória do país.
Ao se inserir em redes colaborativas envolvendo Brasil, Portugal e outras nações lusófonas, o cinema cabo-verdiano amplia seu alcance e contribui para intercâmbio simbólico e estético entre comunidades que compartilham histórias de colonização, migração, resistência e luta por reconhecimento social (Ferreira; Prudente, 2022). O Festival Plateau, sua trajetória e parcerias internacionais — como com o Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA), no Pará, Brasil, bem como a atuação de agentes culturais como Júlio Silvão — ilustram a potência do cinema como ponte entre países, regiões e povos. Esses espaços articulam narrativas que desafiam estereótipos, resgatam vozes marginalizadas e ampliam visibilidade de relatos periféricos, reforçando o audiovisual como instrumento político e cultural de transformação (Silva; Araújo, 2018).
O processo de criação, difusão e fruição do cinema em Cabo Verde configura-se, portanto, como ato político-cultural vital, capaz de construir memória coletiva que ultrapassa cronologias oficiais e incorpora experiências vivas das comunidades locais — suas lutas, resistências e esperanças (Taylor, 2013). Essa memória viva é fundamental para consolidar identidade que se afirma na diversidade e na multiplicidade de vozes, conferindo ao audiovisual papel central na construção social do país.
Nesse contexto, o trabalho de realizadores, pesquisadores e instituições culturais no arquipélago é determinante para consolidar campo audiovisual que não apenas representa o presente cabo-verdiano, mas também estabelece diálogo profundo com o Brasil e outras culturas negras da diáspora (Weyl, 2024). A construção de pontes de sentido e pertencimento entre essas experiências reforça o potencial emancipatório do cinema, que se afirma como plataforma para produção de conhecimento, resistência e criatividade.
Ao refletir sobre o imaginário cabo-verdiano em diálogo com o Brasil, fica evidente que o cinema vai além do entretenimento: é espaço simbólico para construção identitária, onde diversidade cultural é valorizada, identidades africanas e afrodescendentes são fortalecidas, e laços culturais transnacionais reafirmados (Prudente, 2018). Festivais como o Plateau e o FICCA assumem papel essencial na preservação da memória, estímulo à criatividade e construção de futuros nos quais cultura negra e africana ocupam destaque no cenário global contemporâneo.
Essas manifestações culturais demonstram que, mesmo em contextos de dificuldades financeiras e estruturais, a força coletiva e a paixão dos profissionais do audiovisual transformam realidades, promovendo cultura, identidade e diversidade. Importa destacar que, apesar dos limites orçamentários e da fragilidade das políticas públicas para o audiovisual, o potencial criativo do cinema cabo-verdiano é vasto, manifestando-se em práticas inventivas e redes colaborativas que cruzam o Atlântico (Silva; Araújo, 2019).
A atuação de agentes culturais e coletivos locais evidencia papel do audiovisual como instrumento de resistência, empoderamento social e promoção cultural. A construção conjunta de imaginários e memórias, promovida por festivais e parcerias transnacionais, cria pontes simbólicas entre países, territórios e histórias, reafirmando africanidade e diáspora lusófona como fundamentos essenciais para compreender o presente e projetar futuros emancipatórios (Weyl; Silva; Araújo, 2023).
Esses espaços culturais são mais que palcos de exibição; são laboratórios vivos de inovação estética, política e social, onde a cultura se pratica como resistência e transformação. O Festival Plateau e sua estreita articulação com o FICCA, apoiados por agentes culturais comprometidos com a transformação social via arte, revelam horizonte promissor para cinema africano de língua portuguesa. Essas instâncias fortalecem movimento contínuo de memória, resistência e criação que aproxima Brasil, Cabo Verde e demais comunidades afro-luso-brasileiras, promovendo afirmação cultural e construção coletiva de futuros possíveis (Prudente, 2019).
Assim, o cinema em Cabo Verde transcende a mera expressão artística para se configurar como campo de ação política e simbólica, onde memória, imaginário e identidade se entrelaçam para construir narrativas que fortalecem comunidades, celebram diversidade e projetam futuro pautado por criatividade, solidariedade e justiça cultural. Essa dimensão reafirma importância de investir e reconhecer o audiovisual como elemento central na construção das identidades cabo-verdianas e na articulação de redes culturais transnacionais que impulsionam cinema negro e lusófono no cenário mundial (Taylor, 2013; Weyl, 2024).
Notas
1 - Doutorando em Artes (PPGARTES/UFPA), com Doutorado Sandwiche na Escola Superior de Teatro e Cinema (Instituto Politécnico de Lisboa), professor de audiovisual, comunicação e estética no Brasil, Portugal e Cabo Verde, poeta, jornalista e documentarista, criador do Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA), carpinteirodepoesia@gmail.com , ORCID https://orcid.org/0000-0002-6851-8098
2 - Doutor em Antropologia/Bioantropologia, Docente do Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém. Docente do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília (UnB). Pesquisador Colaborador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), Universidade de Coimbra (UC), Coimbra, Portugal. E-mail: hilton.silva@unb.br . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3287-3522.
3 - Trata-se dos filmes “Meta_Fora” e “Salamandra”.
4 - Hoje, presidente da Fundação Servir Cinema de Cabo Verde, Júlio Silvão, na altura do Plateau Film Festival, era presidente da Associação Nacional de Cinema e Audiovisual de Cabo Verde. Este realizador-documentarista é personagem importante para este artigo, sendo a ponte entre o pesquisador Francisco Weyl e o Plateau Film Festival, que curiosamente, nasceu no mesmo ano de realização do primeiro Festival Internacional de Cinema do Caeté - FICCA, tendo este festival homenageado o cinema caboverdeano em sua edição de 2016.
5 - Meta_Fora. Síntese-antítese-tese, (des)construídas, Meta_Fora se desenvolve através de duas linhas dramáticas, uma concreta, outra abstrata. Estas duas linhas, ora entrelaçadas, ora entrecortadas, uma no contra-campo da outra, (con)fundidas, simultaneamente, traduzem tanto a unidade quanto a pluralidade temática de Meta_Fora, cuja estética, plurisígnica, sublima o absurdo pútrido de uma simbólica antropofagia. Filme-fênix, (re)nascido destas cinzas poéticas de uma Civilização que se descarta a si mesma, de forma indiferenciada e esquizofrênica, Meta_Fora é puro resíduo, feito de restos, de sobras, de ruídos, de rumores e de tudo o que a sociedade global produz, tenta, mas não consegue, deitar para fora de si própria. Meta_Fora, portanto, é um túnel imagético humano, que converge para o seu próprio interior, interrogativo, absurdo, paranóico. Ficha Técnica & Artística: Realizadores: Amilcar Aristides, Ana Cabral, Andreio Correia, Cesar Schofield Cardoso, Helga Roessing, Irani Maia Pereira, Ivan Silva, Jair Silva, Maria de Lobo, Micaela Barbosa, Paulo Cabral, Priscila Kriegler, Ricardo Leite, Francisco Weyl - Actor Andreio Correio - Argumento temático Colectivo de Cinema Pobre da Praia - Texto Francisco Weyl - Assistente de Cena Noah Silva - Guarda-Roupa Irani Maia, Ivan Silva, Priscila Kriegler - Operadores de Câmara Paulo Cabral, Ricardo Leite, Francisco Weyl - Direcção de Fotografia Paulo Cabral - Captação de Som Ivan Lima, Jair Silva - Banda Sonora Jair Silva - Fotografia de Cena Catarina Lima, César Schofield Cardoso, Ivan Lima - Montagem Jair Silva, Ricardo Leite - Concepção de Montagem Colectivo de Cinema Pobre da Praia - Assistentes de Produção Helga Roessing, Paulo Cabral - Produtores associados Ricardo Leite (Cinema Pobre) & Francisco Weyl (Cineclube Amazonas Douro) - Formato de captação HD - Formato de montagem DV - Tempo de duração 21 Minutos - Local e ano de Produção Cabo Verde, 2006 - Patrocínio Instituto Camões / Centro Cultural Português Praia - Apoio Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, Instituto Superior de Língua Portuguesa – ISLP.
6 - Um filme-casulo, rodado de forma metamorfósica, híbrido, entre a água e o fogo, com cinco magníficos quadros artísticos cinematográficos - Ficha Técnica & Artística: Realizadores: Cristiano Pereira, Francisco Weyl, Helga Roessing, Jaime Ribeiro, Luís Costa, Micaela Barbosa, Sério Fernandes - Actriz Helga Roessing - Argumento temático Colectivo de Cinema Pobre da Praia - Poema Paulo Plínio Abreu Narração Micaela Barbosa - Fotografia de Cena Cristiano Pereira, Francisco Weyl, Helga Roessing - Montagem Benvindo Neves, Francisco Weyl, Helga Roessing - Concepção de Montagem Colectivo de Cinema Pobre da Praia - Produtores associados Cristiano Pereira (Douro Filme Festival) & Francisco Weyl (Cineclube Amazonas Douro) - Formato de captação DV - Formato de montagem DV - Tempo de duração 7 Minutos - Local e ano de Produção Cabo Verde, 2006 - Patrocínio Instituto Camões / Centro Cultural Português Praia - Apoio Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, Instituto Superior de Língua Portuguesa - ISLP.
Referências
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FONTE: Este Artigo foi originalmente publicado em:
BARRETO, José Arlindo et al. Cabo Verde no imaginário brasileiro. . Universidade de São Paulo. Faculdade de Educação, 2025. DOI: https://doi.org/10.11606/9786550130305 Disponível em: www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/1751 . Acesso em 25 maio. 2026.

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