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Há noites em que de tanto sono eu nem durmo

não digas nada, gosto imenso quando falas eu sinto a voz de teu silêncio, se te calas e a sucessão de sentimentos que disparas neste rio que me navega em tuas palavras  e que me afoga lentamente em tuas águas como conter a travessia em segredo se há tempestades em meus desejos? © Carpinteiro Assista e/ou ouça a declamação do poema pelo autor ................................................................... “Quase um Soneto numa manhã de chuva” Pouco tenho, se muito desejo Mas costumo seguir, se quero ficar Do contrário, eu não vou, se penso ir E tudo permanece neste perene devir. Se penso demais, falo de menos Mas, se me calo, penso demasiado Meu silêncio diz mais que palavras E meus olhos, os estados da alma Eu quero odiar, entretanto, amo Quanto mais desejo, menos almejo Sinto muito, mas nem tanto Portanto não faço nada, mas encanto Escrevo versos que os apago E recito poemas que esqueço Nas areias de teu mar eu me afago Nas lavas de teu vulcão desfaleço © Carpinteiro Porto, 04...

CRÔNICAS BRAGANTINAS: Bacuri me deu a mim e a minha paixão muitas alegrias

Todo paraense tem uma história para contar do clássico de futebol mais disputado do mundo, mas esta não é uma crônica sobre confrontos entre rivais no esporte, nem sobre as duas maiores paixões dos paraenses, depois do açaí. Esta é uma narrativa sobre o economista Roberto Batista de Paula Filho, que adotou e foi adotado por Bragança do Pará, há cerca de 45 anos, mas cujo apelido refere uma das delícias do Pará, e um dos frutos que outrora era bastante produzido na Região Bragantina. O apelido “Bacuri” foi ideia do treinador João Avelino, para quem o nome de um jogador tinha de ser de fácil assimilação, para o torcedor gravar, como Didi, Pelé, Dida. Marido da pedagoga Conceição de Maria Schwartz Martins de Paula, e pai do Roberto e da Roberta, ele, que já tinha um apelido (“bacurau”), nem sabia o que era nem nunca tinha visto ou comido bacuri na vida. Recordo, quando ia ao campo da Curuzu com meu falecido irmão Péte (José Raimundo), para ver aquele poderoso Paissandu, comandad...

Nada que você leve do rio irá trazê-lo de volta

Você pode indagar o rio  E com ele murmurar. Você pode falar com o rio E com ele calar. Você pode até beber o rio E com ele mergulhar. Mas, o que quer que se diga do rio, Dele não se pode dizer duas coisas: Que ele não seja efêmero, E que também não seja eterno. Que continue assim, sendo. Atravessado. De tudo o que você deixe de dizer do rio Não esqueça de dizer que ele transborda. Mas, nada do que você diga sobre o rio Irá transpô-lo, Ou torná-lo navegável. Nada do que você pense do rio Irá inundá-lo, ou assoreá-lo. Nada que você leve do rio Irá trazê-lo de volta. Não seque o rio, Deixe-o seguir seu destino. Não barre o rio que ele é menino E avoa que nem passarinho. © Carpinteiro  (“O rio doce morre no mar”) Assista o videopoema de Francisco Weyl (Carpinteiro de Poesia), narrado, filmado e editado pelo próprio autor, no Rio Caeté, em Bragança do Pará, com trilha sonora de guitarrada d André Macleuri   ......................... O rio sangra a montanha: corta o tempo do n...

CRÔNICAS BRAGANTINAS: E o barco Novo Rumo foi por águas abaixo

  Palavra de origem Tupy, Caeté é o rio que banha a minha aldeia, tendo, junto com a sua orla e as suas embarcações, constituído uma espécie de tríade, que estrutura a vida, e os imaginários das populações, nas zonas rurais, urbanas e ribeirinhas, em campos, colônias, e praias, por onde também circulam as comitivas dos esmoleiros de São Benedito.  Junto com o nascer da Lua, por detrás das matas do Camutá, seu espelho revela um espetáculo mágico aos moradores e visitantes da cidade de Bragança do Pará, de cuja orla, partem e chegam dezenas de embarcações, principalmente, com pescado, que é um produto que move a economia e alimenta grande parte da população local. Antes de desaguar no oceano Atlântico, o rio, com 115 quilômetros de extensão, atravessa e influencia o trabalho e a vida de diversas comunidades do nordeste paraense, nascendo na cidade de Bonito, banha Arraial do Caeté (Ourém), e Tentugal (Santa Luzia), e percorre algumas comunidades bragantinas. Apesar de re...

Versos bandidos para a Décima TERÇA TRÍADE

Nós, os poetas, olhamos para as palavras como se nelas não se pudesse conter a essência das coisas, depois, limitamos a vida ao significado do verbo que não pronunciamos, no segredo desvelado, rebelamos a alma que não se orienta na pedra filosofal do entendimento, nós os poetas olhamos para o poema como se ele não existisse e por isso tornamo-lo absoluto, o que há de sublime no sentido é o que não percebemos, nós, os poetas não falamos com Deus porque já  nascemos no eterno, o que de nossa ãnima permanece é o símbolo do corpo, um caráter, um som, uma aliteração e mais qualquer coisa que não comunicamos com a poesia, nós, os poetas, sentimos o desconhecido como se já o compreendêssemos, pois temos a alma sem um conceito, somos vagas nebulosas, rastos estrelares, poeiras cósmicas, em nosso poetar. © Carpinteiro Porto, 1998 Assista e/ou ouça a declamação do poema pelo autor ...................................................................................................................

CRÔNICAS BRAGANTINAS: Para amar o mar de Ajuruteua

Muitas das minhas memórias talvez nem me pertençam, embora eu as tenha construído como uma colcha de retalhos a partir das coisas que eu vivi com as coisas me disseram. E assim os fatos que narro são tanto meus quanto por mim apropriados, quando misturados a realidades e imaginários, idealizados ou experimentados, como se estivessem borrados em alguns pontos de um passado que é presente e (in)consciente. Numa família grande de nove filhos, é natural que os mais novos se inspirem nos mais velhos, sendo, estes, determinantes às construções narrativas das epopeias e dramas pessoais de cada uma das células constitutivas do núcleo familiar. A hierarquia dos lugares de pai e de mãe se tornam simbólicos na horizontalidade da irmandade, que respeita as tradições que a sustentam ao mesmo tempo que as desafiam a se chocar com os cotidianos pelos quais passam nas experiências que vivenciam. Isso para explicar que, sendo o último dos filhos, extemporâneo, e apartado durante alguns anos dos irmãos ...

Poema para pessoas simples

as vezes, ave outras vezes, asa as vezes, avesso outras vezes, averso as vezes, reses outras vezes, reveses as vezes risos outras vezes, rezas as vezes, zen outras vezes, sem as vezes, asco outras vezes, asno as vezes, burro outras vezes, berro as vezes, bebo outras vezes, beijo as vezes, frase outras vezes, crase as vezes, carne outras vezes, fase as vezes, fazes, outras vezes, fezes as vezes, verso outras vezes, verbo as vezes, verme outras vezes, cerne as vezes, sexo outras vezes, nexo as vezes, caolho outras vezes, olho as vezes, ócio outras vezes, ossos as vezes, Eros ouras vezes, erro as vezes, Zeus outras vezes, eu © Carpinteiro Bragança do Pará, 21/03/2017 Assista e/ou ouça a declamação do poema pelo autor .................................................. “Poema para pessoas simples" Entre as pessoas que eu encontrei  e aquelas que eu queria encontrar,  pessoas desencontradas. Pessoas com as quais eu falei  e pessoas com as quais eu nem queria  falar,  ...

CRÔNICAS BRAGANTINAS: Maldito Carpinteiro

    Bragança é uma cidade pequena, todo mundo se conhece. Praticamente, vizinho, até se mete na vida alheia. Sabe o que faz, com quem anda. Se mulher trai marido, se marido trai mulher, e com quem trai. Se homem gosta de homem, ou se mulher gosta, ou não, de homem e/ou de mulher. Sabe onde trabalha, se trabalha, se tem, ou não tem, dinheiro, e se paga, ou não, as dívidas. Se não sabe, a cidade inventa de tudo, sobre todos. Cada dia, uma novidade, sobre ciclano, sobre beltrano, sobre deocleciano. Tem muita fofoca. E olha, que nem sou fofoqueiro. Quando eu lá habitava, não me interessava pela vida das pessoas. Concentrava-me no meu trabalho de jornalista. E nas tarefas da casa, almoço, jantar, café. Mas, mesmo assim, e talvez por isso mesmo, chegavam-me fofocas, e ainda agora, mesmo em Portugal, penso que sei mais sobre Bragança do que muito bragantino. De minha parte, quanto mais falarem, melhor. Trabalho com rádio cipó, preciso reverberar. Nas redes e nas ruas. Metade d...

A poesia é o melhor remédio para a pandemia

  Ode ao Professor Nonato Esta noite pensei na avenida que começa na igreja da matriz e vai dar na aldeia. Aquela que já lá de cima a gente vê a feira e o Caeté. Mas tem-se que caminhar até lá abaixo para estar entre os homens de minha terra. É preciso descer da soberba humana para estar entre eles. E ao lado deles olhar os barcos a subir e a descer o rio. © Carpinteiro Bragança do Pará, 20 de Outubro de 2004  Assista e/ou ouça a declamação do poema pelo autor.    (...) Poema petrificado   Teu peito de aço estilhaçado, espelho revelado em meu rosto mascarado reflete esta arma disparada como espada atravessada em lâmina apunhalada   Tua boca mordida, cintilante de amante enlouquecida em saraus e madrigais   São esses cabelos negros que encobrem a tez nos dias de inverno em que a tua ãnima me aquece   E eu que nunca te beijei mas te desejo como um fogo aceso num jardim outonal?   Branca e serena tal poço de um poema neste vulcão que engole as p...