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Irituia põe memórias, gerações e saberes em movimento com o Conexão Arandu

Primeira etapa do projeto reuniu pessoas idosas, guardiãs de memória, mestres, artistas, artesãs, pesquisadores e crianças em dois dias de encontros, oficinas, cantos, histórias e vivências no município

Irituia abriu, nos dias 26 e 27 de setembro, o percurso do Conexão Arandu – Memórias do Tempo Espiralar. No Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos Raimundo Alves de Oliveira – SCFV da Pessoa Idosa, pessoas idosas, guardiãs de memória, mestres, artistas, artesãs, músicos, pesquisadores, educadores e crianças compartilharam histórias, cantos, fazeres e lembranças, numa programação que colocou a memória e a oralidade nas vozes de quem vive e produz cultura nos territórios.

A Acolhida Ancestral, a Roda de Memória, as oficinas culturais e a Mostra Expositiva Pública movimentaram o sábado. A programação se estendeu por outros espaços de Irituia e, no domingo, chegou à Vila Pedra, numa circulação iniciada dias antes com a chegada de parte da equipe ao município.

Coordenadora geral e curadora do projeto, Rosilene Cordeiro encontrou na própria chegada das pessoas uma imagem do que aconteceria durante o dia. “A gente foi chegando, não teve protocolo. Quem vai chegando, vai aumentando, vai botando água, vai fazendo a comida. Não precisou a gente apresentar um pro outro. A gente já foi se apresentando.”

O encontro reuniu uma rede que começou a ser articulada antes da chegada do Arandu. A produção local envolveu Klyvia Pinto e o SCFV da Pessoa Idosa, além da participação da Academia de Letras do Brasil – Seccional Irituia, de mestres, artistas, educadores e convidados do município. Izanete Cordeiro, Maria Célia Martins, Odalice Aviz e Ila Falcão integram a circulação como guardiãs de memória, trazendo experiências de Irituia, Primavera e Bragança para um percurso que seguirá também por Belém.

Pessoas idosas abrem a roda

No Serviço de Convivência, as pessoas idosas estavam em casa. Ali já cantam, dançam, produzem artesanato, participam de atividades e constroem relações cotidianas. O Boi da Melhor Idade e o Carimbó da Melhor Idade trouxeram para a programação práticas cultivadas pelo próprio grupo.

“Pensar velho é pensar futuro”, afirmou Rosilene. “Falar de memória é urgente.”

Ao reconhecer o trabalho desenvolvido no espaço, ela destacou os vínculos criados com os frequentadores. “Para muitos, vocês se tornaram a família deles.” E apontou para o próprio Centro: “Isso aqui é um memorial.”

Crianças também entraram na roda. Entre idosos, adultos, mestres e artistas, elas acompanharam parte das atividades e foram saudadas por Rosilene: “É um evento para todas as idades, para todas as pessoas”.

A convivência entre gerações atravessou o dia. Pessoas que aprenderam ofícios décadas atrás compartilhavam espaço com crianças; mestres contavam histórias; artesãs mostravam trabalhos; lembranças familiares voltavam pela palavra.

Roberta Mártires: o que as mãos guardam

A artesã e produtora cultural Roberta Mártires contou que começou a aprender crochê aos 12 anos, em Santa Isabel do Pará. Aos domingos, ia de bicicleta à casa de uma senhora que lhe ensinava. Aprendeu primeiro um círculo. Depois continuou sozinha, experimentando formas e construindo o trabalho que desenvolve hoje.

“O crochê trabalha a nossa memória, ele trabalha as nossas mãos”, disse.

A conversa encontrou as mulheres que já desenvolvem trabalhos manuais no Serviço de Convivência e colocou o artesanato no centro da experiência.

“Artesanato não é menor que arte”, afirmou Roberta.

Linhas, tecidos, crochês e objetos trouxeram junto as histórias de quem faz, de quem ensinou e das maneiras pelas quais um conhecimento passa de uma pessoa para outra.

Memórias também chegam ao muro

O grafite levou outra parte da programação a uma escola estadual de Irituia. A vivência aproximou hip-hop, memória, identidade e criação coletiva.

Brincadeiras, animais, instrumentos e outras imagens lembradas pelos participantes serviram como pontos de partida para o trabalho visual. A proposta apresentou o grafite como linguagem aberta às diferentes gerações, “de criança até a melhor idade”.

A oficina ampliou para o muro histórias e referências que circulavam nas conversas e atividades do encontro.

Mestre Miguelito conta o que ouviu do avô

Mestre Miguelito, nome pelo qual é conhecido Miguel Angelo Cunha de Oliveira, levou carimbó, cantos e histórias de Irituia para a roda.

Uma delas veio de seu avô, que viveu 109 anos.

Miguelito contou que perguntou a ele, cerca de 30 anos atrás, por que determinado lugar era chamado Igarapé Pau Preto. Segundo a história que ouviu, moradores faziam roças nas proximidades do igarapé e uma queimada atingiu um grande tronco, que permaneceu queimando até ficar carbonizado. O “pau preto” acabou dando nome ao lugar.

Miguelito falou ainda do movimento para limpar o igarapé e recuperar o espaço para banho e convivência.

A história que o avô contou ao neto voltou à roda décadas depois, diante de outras gerações.

Mestre Areolino esteve entre as presenças que aproximaram o encontro de mestres e referências culturais do território. Também chegaram experiências de outros lugares. Delmílio Soares, mestre de cultura de Igarapé-Miri, visitava Irituia pela primeira vez e compartilhou conhecimentos sobre música, tambores, festas tradicionais e carimbó.

Izanete e o Mastro de São Benedito

Professora, pedagoga, artesã, contadora de histórias, ativista cultural e uma das guardiãs de memória do Arandu, Mestra Izanete Cordeiro trouxe consigo uma tradição familiar ligada ao Mastro de São Benedito.

O mastro presente no encontro fez reaparecer histórias de sua família e nomes ligados às celebrações de São Benedito em Irituia. Dona Mariona, mãe de Izanete, e Coroca foram lembrados entre aqueles que sustentaram essa tradição.

Izanete também articulou caminhos fora do espaço principal da programação. No domingo, a circulação alcançou a Vila Pedra, aproximando a equipe de outras histórias e lugares do município.

Maria Célia Martins, Odalice Aviz e Ila Falcão completam o grupo de guardiãs convidadas para a circulação. Ila, figurinista, costureira, artesã e artista, chegou antecipadamente a Irituia com Milene Guedes, responsável pela curadoria artística das Mostras Arandu. Odalice trouxe a experiência da Vila Que Era, em Bragança do Pará, onde atua como artesã e pescadora. As diferentes trajetórias seguem juntas nas próximas etapas do projeto.

Lucival chama Irituia pelo nome

A Academia de Letras do Brasil – Seccional Irituia participou da programação com acadêmicos e acadêmicas do município. Seu presidente, o escritor e pesquisador Lucival Silva, entregou a Rosilene Cordeiro a plaqueta e o diploma de uma homenagem concedida anteriormente pela instituição.

Depois, Lucival começou a lembrar.

Falou do antigo barracão do samba, onde o carimbó atravessava três dias e três noites. Lembrou o barulho dos pés e das sandálias no assoalho, o carimbó de pau e corda, Américo Gago e Pinduca.

O Mastro de São Benedito trouxe Izanete. Izanete trouxe Dona Mariona. Veio Coroca. Vieram as pastorinhas, a Folia de São Benedito, Pedro Costa, Mestre Miguelito, Machico e Mestre Tio Minga.

Um nome puxava outro.

“Quando eles se forem [...] como é que vai ficar essa tradição?”, perguntou Lucival ao falar dos mestres que ainda guardam determinados conhecimentos.

As crianças estavam ali.

Lucival apontou para a necessidade de ensinar enquanto os mestres ainda podem contar, cantar e fazer.

Morador de Irituia há cerca de 50 anos, ele pesquisa a história do município e prepara um livro que reúne personagens, acontecimentos, lendas e memórias. Uma de suas partes se chama Inventário Saudoso de Irituia.

Outros nomes entraram na conversa: Tia Sabá, Cipriana, Jorge Quintino, Rompe-Mato. Vieram antigos terreiros, entidades, cantos e práticas que já não ocupam a cidade da mesma maneira.

Lucival procurou uma palavra para falar dessa cultura. Disse que havia sido amortecida e imediatamente corrigiu:

“Ela não morreu. Ela está adormecida.”

“Nós que estamos aqui hoje somos os responsáveis para não deixá-la morrer.”

Quem faz cultura estava ali

Ao longo do encontro, os nomes foram compondo uma Irituia que não cabia apenas na programação.

Estavam as pessoas idosas e os trabalhadores do Serviço de Convivência. Estavam Mestre Miguelito, Mestre Areolino, Izanete Cordeiro e Lucival Silva. Estavam as artesãs, os músicos, acadêmicos e acadêmicas, professores, crianças e moradores.

Estavam também Roberta Mártires, Maria Célia Martins, Ila Falcão, Odalice Aviz e Delmílio Soares. Klyvia Pinto participou da articulação local. A equipe do Arandu reuniu ainda Patrícia Passos na produção executiva, Ila Falcão na produção artística, Milene Guedes na curadoria artística, Denis Bezerra, do Grupo de Pesquisa Perau: Memórias, Histórias e Artes Cênicas (UFPA/CNPq), na curadoria de pesquisa, além das equipes de produção, comunicação, registro e das parcerias territoriais.

E estavam os que retornaram pela palavra.

Dona Mariona, Coroca, Tio Minga, Tia Sabá, Cipriana, Jorge Quintino e outras pessoas voltaram à roda porque alguém ainda sabe seus nomes, lembra o que fizeram ou guarda uma história para contar.

Em pronunciamento sobre sua passagem por Irituia, Rosilene destacou justamente a importância de reconhecer “a cultura por quem a vive, quem a faz acontecer”.

Foi o que os dois dias mostraram.

O carimbó apareceu com quem toca, canta, dança e lembra. O artesanato apareceu pelas mãos de quem faz. A história do Igarapé Pau Preto veio pela palavra de Miguelito e pela lembrança de seu avô. São Benedito chegou com Izanete e com as gerações que vieram antes dela. As histórias da cidade apareceram na fala de Lucival. As pessoas idosas trouxeram seu cotidiano para dentro da programação. As crianças receberam parte dessas histórias estando ali, ouvindo e participando.

Irituia abriu o Conexão Arandu desse lugar: a memória contada por quem a guarda, a cultura apresentada por quem a produz e o território falado por quem vive nele.

Depois de Irituia, o percurso segue por Primavera, Bragança e Belém, levando consigo os encontros iniciados nessa primeira etapa e abrindo espaço para que outros territórios contem suas próprias histórias.

CARPINTEIRO


Ficha técnica:

Coordenação Geral/ Curadoria de Projeto: Rosilene Cordeiro
Guardiãs de Memórias Convidadas: Izanete Cordeiro, Maria Célia Martins, Odalice Aviz, Ila Falcão
Produção Executiva: Patricia Passos
Produção Artística: Ila Falcão
Curadoria Artística: Milene Guedes
Curadoria de Pesquisa: Denis Bezerra (Grupo de Pesquisa Perau)
Curadoria Gráfica Memorial do Projeto: Francisco Weyl
Assistência de produção local: Klyvia Pinto (Irituia), João Martins (Primavera), Edilene Rosa (Bragança), Alax Gomes (Belém)
Oficineiras/o: Minie Miniane Ratiane, Roberta Martires, Gart, Sol Di Maria.
Coordenação de Comunicação: Tay Silva
Assessoria de Imprensa: Amanda Martins
Identidade Visual: Murilo Savage
Fotografia/ Filmmaker: Edilene Rosa
Parcerias Territoriais anfitriãs:
Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos Raimundo Alves de Oliveira - SCFV da Pessoa Idosa (Irituia/PA)
Espaço Cultural Casa da Vó Zinha ( Primavera/PA)
Ponto de Cultura Coletivo de Mulheres da Vila que Era ( Bragança/PA)
Ponto de Culturas Poronga da Cabocla Dona Herondina e do Caboclo Seu Rompe Mato (Belém/PA)
Apoio Institucional: Grupo de Pesquisa Perau: Memórias, Histórias e Artes Cênicas (UFPA/ CNPq), ALB Seccional Irituia-PA.

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