A primeira Mostra Geral de Filmes Vencedores do FIM.ME já tem caminho traçado: os seis filmes premiados na edição inaugural do Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens serão exibidos na Livraria Gato Vadio, no Porto, Portugal (Novembro), e no Auditório do IFPA – Campus Bragança (Dezembro), no Pará. A programação também chega às redes: entre outubro, novembro e dezembro, os filmes terão circulação online pelo canal do FICCA, ampliando o encontro das obras com públicos para além das salas presenciais.
A Mostra leva à tela os seis vencedores escolhidos pelo júri internacional do FIM.ME: 5 Anos, de Bruno Gomes, Melhor Média-Metragem de Ficção; Mestre Damasceno – A Trajetória de um Afromarajoara, de Guto Nunes, Prêmio Especial do Júri; Guerreiros Plantados, de José Carbonel e Rui Mendonça, Melhor Roteiro; Minha Religião é o Cinema, de Zefel Coff e William Alves, Melhor Montagem; Uma Orquestra no Contrabaixo, de Sergio Sbragia, Melhor Média-Metragem Documental; e (Des)embarque – A luta de Cebola e outras histórias da Rodoviária de Santos, de Nicole Zadorestki Caroti e Wagner de Alcântara Aragão, Melhor Fotografia.
Para essa nova circulação, os filmes foram organizados em dois movimentos curatoriais. A proposta nasceu da aproximação entre as próprias obras, depois do percurso de seleção, julgamento e leitura do conjunto. O resultado são duas sessões com durações próximas e, principalmente, duas possibilidades de entrar nesses cinemas.
O Movimento Um — Corpos, Memórias e Territórios reúne 5 Anos, Mestre Damasceno – A Trajetória de um Afromarajoara e Guerreiros Plantados. O percurso começa no encontro íntimo de duas pessoas, alcança o corpo, a música e a oralidade de um mestre afromarajoara e chega à experiência Pankará, onde terra, água, língua, ritual, memória e retomada constituem modos de existência. São três filmes bastante diferentes que, colocados juntos, fazem a sessão caminhar do corpo ao corpo-memória e deste ao corpo-território.
O Movimento Dois — Arquivos, Travessias e Permanências reúne Minha Religião é o Cinema, Uma Orquestra no Contrabaixo e (Des)embarque – A luta de Cebola e outras histórias da Rodoviária de Santos. Aqui, a memória atravessa imagens, montagem, documentos, música, objetos e cidade. José Mojica Marins e a própria história do cinema reaparecem por meio do arquivo; um registro encontrado depois de permanecer mais de cinquenta anos dentro de um contrabaixo abre uma travessia entre música, imigração e memória; e a Rodoviária de Santos transforma chegadas, partidas e experiências políticas e afetivas em matéria cinematográfica.
Há uma questão que atravessa as duas sessões e está na origem do próprio FIM.ME: o tempo.
A média-metragem ocupa uma faixa de duração que perdeu espaço nos circuitos contemporâneos de exibição, espremida entre as convenções do curta e do longa. Foi justamente nesse intervalo que o FIM.ME encontrou seu campo de atuação. O Festival nasceu para criar um lugar de circulação, pensamento e experimentação para obras que precisam dessa duração para desenvolver personagens, situações, territórios, arquivos e formas cinematográficas. Uma pergunta acompanha essa construção desde o início: quanto tempo uma imagem precisa para verdadeiramente escutar aquilo que pretende mostrar?
É também por isso que a Mostra dos vencedores importa. Premiar um filme reconhece uma realização; fazê-lo circular prolonga sua existência pública. O cinema precisa da tela e precisa do outro. Precisa chegar, permanecer algum tempo diante de alguém e, depois, continuar produzindo conversa, memória, incômodo, prazer, pensamento.
No Porto, essa circulação encontra um lugar que participa da própria história de construção do FIM.ME. A Livraria Gato Vadio integra as articulações internacionais estabelecidas a partir do FICCA — Festival Internacional de Cinema do Caeté, numa rede que aproximou Amazônia, Portugal e Cabo Verde e da qual também participam a Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa e a Fundação Servir Cinema. O FIM.ME nasceu nesse campo de relações como projeto-filho do FICCA, desenvolvendo identidade, calendário e processos próprios e compartilhando redes e possibilidades de circulação.
Em dezembro, o caminho volta à Amazônia paraense. Nos dias 9 e 10, os dois movimentos ocupam o Auditório do IFPA – Campus Bragança. A presença em Bragança aproxima a Mostra de um território onde cinema, formação, cineclubismo, pesquisa e produção audiovisual vêm sendo articulados pelo FICCA, colocando os filmes diante de estudantes, professores, realizadores, pesquisadores e público da região.
A circulação online completa esse desenho. Entre outubro, novembro e dezembro, os vencedores também chegam ao canal do FICCA, conforme o calendário de disponibilização das obras. A sala preserva a experiência da projeção coletiva; a rede amplia o alcance e permite que uma média-metragem atravesse distâncias e encontre espectadores que estão fora dos lugares onde as sessões acontecem.
A Mostra Geral de Filmes Vencedores nasce, assim, de dentro do FIM.ME e leva adiante uma questão que o Festival colocou desde sua criação. Entre o breve e o extenso existe um cinema que pede espaço, circulação e, sobretudo, tempo: tempo para escutar, tempo para experimentar, tempo para elaborar.
A seguir, apresentamos o texto curatorial da Mostra e os dois movimentos que colocam os seis filmes vencedores novamente em circulação.
MOSTRA GERAL DE FILMES VENCEDORES DO FIM.ME
1ª edição — 2026
TEXTO CURATORIAL
Esta Mostra Geral de Filmes Vencedores nasce de dentro do próprio FIM.ME. Nasce do encontro com as dezoito médias-metragens que atravessaram sua primeira edição, do trabalho de julgamento, das diferenças entre os olhares do júri e, sobretudo, daquilo que os seis filmes premiados devolveram ao festival depois de vistos, revistos e colocados em relação. A curadoria parte, portanto, das obras. Escuta o que elas trazem e organiza dois movimentos possíveis dentro de uma mesma experiência cinematográfica.
O FIM.ME nasceu para afirmar a média-metragem como cinema pleno, como uma duração que produz pensamento e oferece à imagem tempo para escutar, experimentar e elaborar. Nos seis filmes vencedores, essa duração ganha formas muito distintas: um encontro entre duas pessoas; um corpo que carrega a memória afromarajoara; um povo que retoma terra, língua e ancestralidade; um cineasta que atravessa censura e tempo; um registro que dorme durante décadas dentro de um contrabaixo; uma rodoviária onde histórias pessoais e políticas continuam desembarcando.
Há entre essas obras uma força de permanência. Permanecer aqui é continuar produzindo presença. A memória vive no corpo, na oralidade, na música, na terra, na água, no arquivo, na montagem, na fotografia, nos espaços cotidianos. Cada linguagem produz pensamento. Cada filme encontra uma maneira própria de fazer a experiência atravessar o tempo. É dessa relação que surgem os dois movimentos da mostra.
MOVIMENTO UM — CORPOS, MEMÓRIAS E TERRITÓRIOS
Duração dos filmes: 1h55min40s
O primeiro movimento começa perto do corpo e vai abrindo a imagem até chegar ao território. Parte de duas pessoas que se encontram por algumas horas, atravessa um mestre cuja voz e presença carregam uma memória coletiva e chega a um povo que reconstrói sua existência na relação com a terra. Afeto, oralidade, ancestralidade, festa, água, língua e memória aparecem como matérias vivas do cinema. O movimento se amplia: corpo, corpo-memória, corpo-território.
5 ANOS
27min | Melhor Média-Metragem de Ficção | Direção: Bruno Gomes
Duas pessoas solitárias se encontram e, durante algumas horas, constroem uma proximidade possível. O filme abre a mostra pela escala íntima, fazendo do tempo compartilhado sua matéria. A permanência começa aqui como experiência: alguma coisa fica porque dois corpos estiveram juntos, conversaram, riram, desejaram companhia e depois seguiram. O cinema guarda essa duração.
MESTRE DAMASCENO – A TRAJETÓRIA DE UM AFROMARAJOARA
36min40s | Prêmio Especial do Júri | Direção: Guto Nunes
Do encontro íntimo passamos ao corpo que carrega e transmite uma memória coletiva. Mestre Damasceno atravessa a imagem com música, oralidade, carimbó, búfalo-bumbá, festa e presença negra na Amazônia. Sua trajetória abre passagem para o Marajó e para uma experiência histórica que continua viva porque circula entre corpos e gerações. A tradição permanece porque continua sendo criada.
GUERREIROS PLANTADOS
52min | Melhor Roteiro | Direção: José Carbonel e Rui Mendonça
O movimento chega ao corpo-território. Entre o Rio Opará, a barragem, a inundação, o Toré, a língua, a escola, o cultivo e a retomada, a existência Pankará se constrói numa relação inseparável com terra e água. A memória deixa de ser lembrança isolada e torna-se gesto de reconstrução. Retomar o território é também retomar palavras, alimentos, rituais, ancestralidade e possibilidade de futuro.
MOVIMENTO DOIS — ARQUIVOS, TRAVESSIAS E PERMANÊNCIAS
Duração dos filmes: 1h49min37s
O segundo movimento encontra a memória nos vestígios. O cinema, um registro escondido dentro de um instrumento e uma rodoviária tornam-se lugares onde o tempo permanece inscrito. Arquivo, aqui, é matéria viva: algo que retorna, atravessa temporalidades e volta a produzir presença quando a imagem o reencontra. Montagem, objeto, fotografia e espaço urbano fazem circular aquilo que poderia permanecer silencioso.
MINHA RELIGIÃO É O CINEMA
30min | Melhor Montagem | Direção: Zefel Coff e William Alves
O movimento começa com o cinema olhando para sua própria memória. José Mojica Marins, Brasília, ditadura, censura, morte e Zé do Caixão reaparecem por meio de materiais e tempos distintos. A montagem reorganiza esses vestígios e os devolve ao presente. Aquilo que atravessou tentativas de silenciamento volta a ocupar a imagem.
UMA ORQUESTRA NO CONTRABAIXO
38min31s | Melhor Média-Metragem Documental | Direção: Sergio Sbragia
Um registro esquecido durante mais de cinquenta anos dentro de um contrabaixo transforma o instrumento em arquivo. O vestígio abre uma travessia entre música, imigração, guerra, deslocamento e formação cultural brasileira. O que permaneceu guardado volta a falar. O cinema faz desse reencontro uma ponte entre tempos e gerações.
(DES)EMBARQUE – A LUTA DE CEBOLA E OUTRAS HISTÓRIAS DA RODOVIÁRIA DE SANTOS
41min06s | Melhor Fotografia | Direção: Nicole Zadorestki Caroti e Wagner de Alcântara Aragão
A mostra termina quando o próprio espaço cotidiano se revela arquivo. A Rodoviária de Santos recebe e devolve histórias de democracia, televisão, afetos, chegadas e partidas. A fotografia faz desse lugar de trânsito um território de memória. A história permanece fora dos monumentos, inscrita na arquitetura usada todos os dias e nos corpos que continuam atravessando-a.
NOTA FINAL DA CURADORIA
Os dois movimentos pertencem à mesma Mostra Geral de Filmes Vencedores do FIM.ME e nascem da mesma pergunta que acompanha esta primeira edição: quanto tempo uma imagem precisa para verdadeiramente escutar aquilo que pretende mostrar?
No primeiro movimento, a memória está encarnada: encontra corpo, voz, ancestralidade e território. No segundo, ela reaparece nos vestígios: arquivo, montagem, objeto, fotografia e espaço. Entre um movimento e outro, os seis filmes afirmam diferentes tecnologias de permanência. O cinema recolhe aquilo que atravessa o tempo e devolve ao presente como imagem-pensamento.
É também aí que a média-metragem encontra sua força dentro do FIM.ME. Sua duração permite acompanhar, permanecer, escutar. Dá tempo para uma pessoa, um território, uma diferença, uma memória ou um gesto cinematográfico desenvolverem sua própria respiração. As duas mostras nascem desse tempo e retornam a ele: tempo para escutar, tempo para experimentar, tempo para elaborar.
Francisco
Weyl — Carpinteiro de Poesia
Criador e Curador do FIM.ME /
FICCA

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