Entrevistar Humberto Cunha, para mim, Francisco Weyl, carpinteiro de poesia, foi reencontrar uma história política, humana e coletiva da qual também fiz parte.
Humberto Cunha pertence a uma geração que pensou e viveu a política como campo de transformação concreta. Engenheiro agrônomo, defensor dos direitos humanos e homem público, construiu uma atuação marcada pela compreensão da Amazônia, da terra, da reforma agrária, da defesa ambiental, do combate aos agrotóxicos e das liberdades democráticas.
Naquelas décadas, essas lutas se articulavam profundamente.
A luta pela terra encontrava a luta pela moradia. A defesa dos trabalhadores do campo dialogava com as lutas urbanas. Educação, saúde, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, anistia e direitos humanos compunham um amplo campo de mobilização e construção democrática.
Jornais alternativos, organizações populares, movimentos sociais, sindicatos, grupos de defesa dos direitos humanos e diferentes formas de organização política participavam desse processo.
E Humberto Cunha ocupava um lugar importante nesse universo.
Para mim, porém, sua presença possui também uma dimensão profundamente pessoal e política.
Eu trabalhei em seu gabinete.
Participei da construção de seu mandato, buscando construir uma experiência popular, democrática e operária, vinculada às demandas da população e às lutas que atravessavam aquele tempo.
Eu também vivia intensamente a experiência política do PRC, do qual fui porta-voz.
Essas experiências fazem parte da minha formação e da história que agora procuro revisitar, compreender e registrar.
Por isso, quando me sento diante de Humberto Cunha para entrevistá-lo, encontro também uma parte da minha própria trajetória.
Retorno a um tempo vivido, participado e construído coletivamente.
Retorno às pessoas, às ideias, às organizações e às experiências que ajudaram a formar uma geração.
É desse lugar que a entrevista com Humberto Cunha se aproxima também da história de Atanagildo de Deus Matos, o Gatão.
A trajetória de Gatão atravessa as comunidades de base, a Igreja, o sindicalismo rural, a luta pela terra, a resistência à ditadura, a organização dos trabalhadores, Marabá, a defesa da floresta, o Conselho Nacional dos Seringueiros e a construção das reservas extrativistas.
Essa história se desenvolve em meio a uma vasta rede de pessoas, organizações, ideias e relações políticas.
É nessa rede que a conversa com Humberto Cunha ganha uma importância especial.
Sua memória e sua experiência podem ajudar a iluminar um período em que as lutas urbanas e rurais se encontravam e se fortaleciam mutuamente; em que defensores dos direitos humanos, agrônomos, sindicalistas, militantes partidários, jornalistas, advogados, religiosos e lideranças populares construíam formas diversas de organização e participação política.
A entrevista foi captada pelas lentes do diretor de fotografia e documentarista Marcelo Rodrigues.
Estavam presentes também o advogado Paulo Weyl e o jornalista Carlos Boução.
A conversa ocorreu no escritório Weyl, Freitas, Kawage David Advogados Associados.
O encontro reuniu, assim, diferentes olhares e experiências em torno de uma conversa que integra este processo de pesquisa, memória e documentação.
Para mim, Francisco Weyl, carpinteiro de poesia, entrevistar Humberto Cunha significa reencontrar uma parte importante da história que também me constituiu.
Trajetórias que se cruzaram, memórias em movimento.
28 de Agosto de 2026
Francisco Weyl - Carpinteiro de Poesia
NOTA:
A entrevista com Humberto Cunha compõe o plano de trabalho de pesquisa desenvolvida por Francisco Weyl, no âmbito do Projeto (UKRI-Brazil) Monitoramento participativo dos territórios tradicionais: plataforma digital de co-produção de dados sobre asociobiodiversidade em áreas amazônicas, desenvolvido através da Universidade Federal do Pará / UFPA - PA (Chamada CNPq/CONFAP nº 34/2023 - Expedições Científicas - Iniciativa Amazônia +10)

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