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A crise civilizatória e o papel do cientista diante do século XXI

Quando parte da comunidade científica e das elites intelectuais burguesas e pequeno-burguesas reconhecerá a dívida histórica acumulada pela invisibilização e pela usurpação dos conhecimentos produzidos por povos indígenas, comunidades negras, populações tradicionais e trabalhadores?

Durante séculos, esses conhecimentos foram classificados como intuitivos, empíricos, primitivos ou desprovidos de método. Hoje, muitos dos seus princípios, conceitos e práticas reaparecem legitimados por referências acadêmicas estrangeiras, frequentemente desvinculados de seus territórios, de seus autores e de suas matrizes históricas.

A quem pertence o reconhecimento? Quem recebe o crédito pela descoberta? Quem define o que é conhecimento legítimo?

A produção científica exige também justiça epistemológica: reconhecer as origens do conhecimento, citar seus sujeitos, respeitar seus métodos e restituir sua autoria histórica.

Durante séculos, parte dos cientistas e das elites intelectuais burguesas e pequeno-burguesas decidiu quem podia produzir conhecimento e quem serviria apenas como fonte de pesquisa. Povos indígenas, comunidades negras, populações tradicionais, pescadores, agricultores, parteiras, benzedeiras, mestres de ofício, artistas e trabalhadores produziram conhecimentos sofisticados sobre a terra, a floresta, os rios, os corpos, as plantas, a cura, o tempo e a vida. A academia chamou tudo isso de intuição, crença, tradição, empirismo ou primitivismo.

Depois pesquisou, catalogou, traduziu, conceituou, publicou, internacionalizou e distribuiu esses mesmos conhecimentos como produção científica legitimada pelas universidades e pelos centros de pesquisa. Mudaram os nomes. Mudaram as referências. Mudaram as bibliografias. Os autores desapareceram. Os territórios desapareceram. Os povos desapareceram.

Essa conta continua aberta.

Vivemos uma crise de civilização. A humanidade nunca produziu tanta ciência, nunca acumulou tanto conhecimento, nunca desenvolveu tanta tecnologia. Mesmo assim, assiste à destruição da vida, ao colapso climático, à mercantilização de tudo, ao negacionismo e à transformação da mentira em método de poder.

A comunidade científica também precisa olhar para si. A autoridade da ciência nasce da pesquisa séria, do experimento, da demonstração, da crítica e da validação. Também nasce da coragem de reconhecer os próprios erros. Uma ciência incapaz de rever sua história perde autoridade para transformar o futuro.

É por isso que o cientista do século XXI tem o dever de ser uma liderança intelectual da humanidade. Produzir conhecimento. Defender a vida. Desmontar a mentira. Reconhecer as origens do conhecimento. Restituir autoria. Construir alianças entre os diferentes modos de saber. Organizar uma inteligência coletiva capaz de enfrentar a maior crise civilizatória da história humana.

Carpinteiro de Poesia




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