Tenho chamado Gatão de espinha dorsal deste percurso porque, seguindo sua trajetória, uma história inteira começa a se abrir. Uma história feita por muitas pessoas, comunidades, organizações, territórios, encontros, deslocamentos, conflitos, invenções políticas e formas de conhecimento produzidas na própria experiência da floresta.
Foi por isso que fui a Santarém. E é por isso que irei ao Acre, a Marabá, a Brasília ou a qualquer outro lugar onde exista alguém disposto a narrar essa trajetória. Em cada território haverá uma pessoa capaz de contar uma parte dessa história, porque sua natureza é coletiva. Gatão atravessa esse processo, participa dele, articula pessoas e experiências, e sua própria trajetória permite alcançar muitas dessas redes.
Em Santarém, ouvindo Livaldo Sarmento, Florêncio Vaz, Maria José e Edilson Figueira, comecei a perceber com mais força uma dimensão de longo prazo das Reservas Extrativistas. Aqueles territórios garantiram existência, sobrevivência e permanência para populações inteiras e, no movimento da própria história, continuam sustentando territorialidades, afirmações indígenas, quilombolas, ribeirinhas e extrativistas.
É aí que uma questão se torna cada vez mais funda para mim: a floresta na terra e o ser na floresta.
Porque existe uma relação do ser com a natureza que antecede e atravessa a formulação jurídica da terra. É experiência de existência. É o rio, a floresta, o alimento, o trabalho, o conhecimento, a memória, a ancestralidade, o corpo, a vida e a continuidade desse ser no mundo. Pensar a floresta a partir daí produz outra dimensão política, econômica, jurídica, antropológica e existencial.
E aqueles caras , o Chico Mendes, o Gatão e tanta gente que essa pesquisa ainda precisa encontrar e escutar, eles estavam lá atrás, estavam construindo caminhos dentro dessa dimensão. Caminhos que depois ganharam formas territoriais, institucionais, políticas públicas, direitos.
Hoje, diante de Gatão, percebo também que essa pesquisa se faz perseguindo rastros: uma pessoa leva a outra, uma memória abre outra memória, um território conduz a outro território, um documento chama outro documento.
É essa trama que estou tentando alcançar.
E Gatão está aí, no meio dela, como espinha dorsal de uma história que pertence a muita gente.
Carpinteiro de Poesia
19.08.2026

TRANSCREVO ABAIXO TEXTOS QUE POSTEI EM MINHAS REDES SOCIAIS SOBRE AS ENTREVISTAS QUE DESENVOLVI EM SANTARÉM COM LIVALDO, EDILSON, MARIA JOSÉ E FLORÊNCIO
LIVALDO SARMENTO
Ribeirinho, agricultor, extrativista, músico, compositor, Mestre de Cultura, professor, sociólogo, e uma das lideranças que participaram de processos fundamentais de organização dos trabalhadores rurais e extrativistas no oeste do Pará, Livaldo é também uma memória viva dessas lutas. Amanhã, ele começa a desenvolver mais um projeto de formação e educação cultural em sua comunidade, no Arapiuns, dando continuidade a esse trabalho no próprio território.
Estou em Santarém participando do Workshop ARISE e aproveitando os tempos livres da programação — foi o ARISE que me trouxe até aqui — para avançar também no trabalho de campo da pesquisa que desenvolvo no pós doutoramento sobre a trajetória de Atanagildo de Deus Matos, o Gatão, e os processos históricos do movimento extrativista amazônico dos quais participou.
Foi o próprio Gatão quem me indicou Livaldo e disse: “ele é a primeira pessoa que deve ser conversada”.
E foi isso que fiz. Uma primeira prosa para ouvir quem viveu esses processos por dentro e começar a reconstruir acontecimentos, relações, pessoas, territórios, memórias e pistas documentais que possam compor o Arquivo Gatão.
Entre um compromisso e outro, a pesquisa vai encontrando seus caminhos — e, aqui, encontrando também aqueles que fizeram e continuam fazendo essa história.
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MARIA JOSÉ
Hoje, 15 de agosto, em Santarém, uma conversa especial com Maria José Caetano Maitapu, liderança indígena do povo Maitapu, da comunidade de Pinhel, e presidente da Tapajoara, organização das associações de moradores da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns.
Há uma coincidência histórica neste encontro: em 15 de agosto de 1998 aconteceu, em Mentai, a audiência pública que integrou o processo de criação da Resex Tapajós-Arapiuns, oficialmente criada em 6 de novembro daquele ano. Hoje completam-se 28 anos daquele momento de mobilização das comunidades pela constituição e defesa desse território.
Vinte e oito anos depois, encontro Maria José na continuidade dessa história. À frente da Tapajoara, atua na organização das comunidades e aldeias e na defesa de um território marcado pela diversidade de povos, identidades e formas de vida.
Uma dimensão de sua atuação é a defesa da Consulta Prévia, Livre e Informada, direito assegurado pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é parte. Esse direito estabelece que povos indígenas e comunidades tradicionais sejam consultados diante de medidas capazes de afetá-los diretamente.
Na Resex Tapajós-Arapiuns, essa questão ganha dimensão pela diversidade do território. Povos indígenas e comunidades agroextrativistas compartilham espaços de luta e defesa da floresta, com histórias, identidades, organizações e modos próprios de construir decisões. A Consulta Prévia, Livre e Informada expressa participação, autonomia e reconhecimento dessa diversidade.
É também aí que se revela uma das forças das Reservas Extrativistas: a conservação da floresta articulada à permanência e aos direitos das populações que vivem dela e nela. A floresta constitui território de vida, trabalho, conhecimento, memória e cultura. Sua conservação está ligada à presença e aos modos de vida dos povos e comunidades que habitam esses territórios.
Nossa conversa integra o trabalho de campo da pesquisa que venho desenvolvendo sobre a trajetória de Atanagildo de Deus Matos, o Gatão, e a memória social do movimento extrativista amazônico.
Carpinteiro Carpinteiro Weyl
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FLORÊNCIO VAZ
Em Santarém, dando continuidade à pesquisa que venho desenvolvendo sobre os processos históricos de organização e luta das populações tradicionais e extrativistas da Amazônia, realizei uma conversa com o Prof. Dr. Florêncio Almeida Vaz Filho, antropólogo, indígena Maytapu, frei franciscano e professor da UFOPA.
A presença de Florêncio nesta pesquisa tem uma razão histórica precisa. Sua trajetória está vinculada às mobilizações dos povos indígenas e das populações tradicionais do Baixo Tapajós e, particularmente, ao processo de criação da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns. Em relato publicado pela UFOPA, Florêncio registra sua participação, em 1997, na proposição e construção da Resex e na realização do estudo socioeconômico que contribuiu para fundamentar sua reivindicação.
A conversa integra, portanto, o percurso da pesquisa e a necessidade de escutar sujeitos que participaram diretamente desses processos: suas memórias, os modos de organização, as articulações construídas, os conflitos e ameaças enfrentados e as estratégias de defesa dos territórios e dos modos de vida das populações que neles permanecem.
Interessa-me compreender essa história a partir de seus protagonistas e das relações construídas no interior das próprias lutas, reconhecendo que a memória desses processos constitui também uma dimensão fundamental para a produção do conhecimento sobre a Amazônia.
Santarém abre, assim, mais uma etapa da pesquisa: escutar, registrar e colocar em relação as vozes de quem participou da construção dessa história.
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia
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EDILSON FIIGUEIRA
Encontro com Edilson Figueira, em Santarém, abrindo uma conversa necessária para a pesquisa que venho desenvolvendo sobre a trajetória de Atanagildo de Deus Matos — o Gatão — e os processos históricos do movimento extrativista amazônico dos quais participou.
Uma história atravessada pela organização e pela luta dos trabalhadores extrativistas, pela defesa da terra e dos territórios amazônicos, mas também pelos conflitos, pressões e ameaças enfrentados por aqueles que assumiram essa luta e fizeram dela uma ação coletiva.
Estou em Santarém participando do ARISE e aproveitei essa passagem para iniciar com Edilson uma conversa que deverá continuar. Interessa-me ouvir e registrar essas memórias também porque nelas permanecem histórias de resistência que precisam ser conhecidas: as conquistas, as articulações, os enfrentamentos e as ameaças que acompanharam a defesa da floresta, dos territórios e dos modos de vida de suas populações.
Uma primeira prosa, portanto. Mas já atravessada pela responsabilidade de compreender e tornar visível uma história que continua dizendo muito sobre as disputas que permanecem na Amazônia.
Francisco Weyl
Carpinteiro de Poesia
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