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Dezoito filmes e uma cartografia do cinema contemporâneo: a primeira edição do FIM.ME

 



Todo festival nasce de uma pergunta.


O FIM.ME – Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens nasceu de uma questão que orientou sua criação: qual espaço ocupa a média-metragem no cinema contemporâneo?


A partir da observação dos circuitos de difusão cinematográfica, percebe-se uma presença consolidada de festivais dedicados ao curta-metragem e ao longa-metragem. A média-metragem permanece como uma forma de realização com características próprias, reunindo obras que trabalham um tempo específico de construção narrativa, elaboração estética e desenvolvimento de linguagem.


O FIM.ME surge nesse campo de reflexão, dedicando-se exclusivamente à média-metragem e criando um espaço de circulação, encontro e observação sobre essa duração cinematográfica.


O festival nasce a partir das articulações internacionais construídas pelo FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté, mantendo conexões com uma rede que aproxima Amazônia, Portugal e Cabo Verde, ao mesmo tempo em que estabelece identidade, regulamento, calendário e processos curatoriais próprios.


A primeira edição recebeu cerca de trinta inscrições e selecionou dezoito médias-metragens para a etapa internacional de julgamento. Esse conjunto permitiu observar diferentes experiências de realização, trajetórias autorais e formas de construção cinematográfica presentes no audiovisual contemporâneo.


Os filmes selecionados vieram de diferentes regiões brasileiras, incluindo Amazônia, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, além de obras provenientes de Portugal e coproduções internacionais envolvendo Brasil, Colômbia e Portugal. Essa diversidade territorial constitui uma cartografia de cinemas produzidos em diferentes contextos culturais, nos quais paisagens, memórias, experiências sociais e modos de vida participam da elaboração das imagens.


A seleção revelou também uma presença significativa de mulheres realizadoras, artistas trans, cineastas indígenas, realizadores negros, coletivos audiovisuais e produtores vinculados aos territórios onde desenvolvem seus trabalhos. Essa característica atravessa o conjunto das obras e evidencia diferentes formas de autoria e produção cinematográfica contemporânea.


Os filmes abordam questões ambientais, culturas populares, povos indígenas, comunidades negras, espiritualidades, arquivos, memórias coletivas, deslocamentos, identidades, relações de trabalho, experiências urbanas e processos comunitários. Esses temas aparecem associados a diferentes escolhas estéticas, documentais e ficcionais, demonstrando a variedade de caminhos encontrados pelos realizadores para construir suas narrativas.


Um dos aspectos observados durante a primeira edição foi a relação entre cinema e território. Muitas obras selecionadas apresentam vínculos diretos com comunidades, coletivos culturais, universidades, movimentos sociais, grupos experimentais e iniciativas independentes. Esses processos de realização revelam formas colaborativas de produção e diferentes maneiras de transformar experiências concretas em linguagem cinematográfica.


Essa dimensão dialoga com as reflexões desenvolvidas pelo KYNEMA sobre o Cinema de Guerrilha. O conceito, formulado como campo de investigação, observa práticas cinematográficas nas quais os processos de criação se articulam com recursos disponíveis, redes de colaboração, memórias, oralidades, arquivos e experiências territoriais.


Nesse sentido, o Cinema de Guerrilha aparece como uma perspectiva de análise sobre modos de produção e criação que reorganizam as relações entre realização cinematográfica, território e linguagem. As obras selecionadas pelo FIM.ME permitem observar algumas dessas características: filmes construídos a partir de contextos específicos, com diferentes estratégias de produção e distintas formas de relação entre imagem, memória e experiência social.


A própria média-metragem apresenta uma condição particular nesse processo. Sua duração possibilita desenvolver percursos narrativos mais amplos que os da curta-metragem e manter uma concentração formal distinta da longa-metragem. Esse espaço temporal favorece a elaboração de atmosferas, acompanhamento de personagens, construção documental e experimentação de linguagem.


Outro elemento fundamental da primeira edição surgiu durante o trabalho do júri internacional.


A leitura das fichas de avaliação demonstrou diferentes modos de aproximação crítica diante das obras. Os jurados observaram aspectos relacionados à dramaturgia, fotografia, montagem, construção documental, roteiro, relação entre imagem e som e escolhas formais.


Esse processo revelou que uma mesma obra pode mobilizar diferentes interpretações conforme a trajetória, a formação e a experiência estética de quem realiza a avaliação. As convergências e diferenças entre os pareceres constituíram também um material de reflexão sobre os próprios critérios utilizados para pensar o cinema contemporâneo.


As fichas de avaliação cumpriram uma função metodológica ao estabelecer parâmetros comuns de análise. Ao mesmo tempo, o processo evidenciou que a experiência cinematográfica ultrapassa qualquer organização classificatória. Elementos como oralidade, música, silêncio, arquivos, corpos, paisagens e modos de presença das comunidades frequentemente atravessam diferentes categorias simultaneamente.


A primeira edição do FIM.ME permitiu, portanto, observar dois movimentos complementares: a diversidade das obras produzidas no campo da média-metragem e a multiplicidade de formas pelas quais essas obras podem ser analisadas e compreendidas.


O festival constitui-se como espaço de circulação cinematográfica e também como campo permanente de observação sobre processos criativos, territórios e linguagens. A cada edição, novas obras poderão ampliar essa cartografia e aprofundar a reflexão sobre os caminhos da média-metragem no cinema contemporâneo.


Os resultados da primeira edição serão divulgados na primeira quinzena de agosto, juntamente com as informações sobre as exibições dos filmes selecionados pelo júri internacional. A programação presencial ocorrerá no Auditório do IFPA – Campus Bragança, consolidando o circuito de circulação construído pelo FICCA e pelo FIM.ME.


A primeira edição deixa como registro um conjunto de dezoito filmes que apresentam diferentes maneiras de construir imagens, elaborar memórias e pensar o mundo através do cinema. Esse conjunto inaugura um percurso de investigação sobre a média-metragem e sobre as possibilidades que essa forma cinematográfica oferece para a criação contemporânea.


Professor-Doutor FRANCISCO WEYL

Poeta, Realizador, Pesquisador

Criador e curador do FICCA / FIM.ME



Nota de serviço — Programação e circulação do FIM.ME

Após a etapa de julgamento internacional, a primeira edição do FIM.ME seguirá seu percurso de circulação pública conforme o calendário previsto pelo festival.

A divulgação oficial dos filmes premiados ocorrerá entre os dias 10 e 17 de agosto de 2026, por meio das plataformas digitais do FIM.ME e do FICCA.

As obras premiadas terão uma etapa de exibição on-line durante os meses de setembro e outubro de 2026, através do canal do FICCA, ampliando o acesso ao conjunto selecionado e fortalecendo a circulação das médias-metragens participantes.

A programação presencial conjunta do FICCA e do FIM.ME será realizada no dia 6 de novembro de 2026, no Auditório do IFPA – Campus Bragança (PA), com sessão pública e exibição das obras premiadas da primeira edição.

A circulação do FIM.ME integra o calendário ampliado das ações desenvolvidas pelo FICCA ao longo de 2026, estabelecendo conexões entre exibição, formação, reflexão e encontro cinematográfico. 

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