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FIM.ME revela os vencedores da 1ª edição e consagra filme sobre “Mestre Damasceno” com Prêmio Especial do Júri

1º FIM.ME anuncia resultado final e afirma a média-metragem como território de criação, memória e diversidade

A primeira edição do FIM.ME — Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens chega ao resultado final de sua mostra competitiva reconhecendo seis obras que percorrem diferentes territórios, experiências sociais e caminhos da linguagem cinematográfica.

Criado para ocupar uma lacuna concreta no circuito audiovisual — a reduzida presença da média-metragem nos festivais, nas políticas de difusão e no debate crítico —, o FIM.ME dedica-se exclusivamente a filmes com duração entre 26 e 50 minutos. Desde sua concepção, o festival compreende essa duração não como simples intervalo entre curta e longa-metragem, mas como campo próprio de elaboração narrativa, experimentação estética e construção de pensamento cinematográfico.

A primeira edição recebeu cerca de 30 inscrições e selecionou 18 obras para a etapa internacional de julgamento. Foram 13 documentários e cinco ficções, provenientes de diferentes regiões brasileiras, de Portugal e de experiências de coprodução internacional, constituindo uma cartografia que aproxima Amazônia, Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste, Europa e outras conexões cinematográficas.

O conjunto selecionado evidenciou também diferentes formas de autoria e produção e uma ampla diversidade de questões contemporâneas: povos indígenas, culturas negras e populares, memória, território, meio ambiente, migração, relações de gênero, afetividade, espiritualidades, arquivos, deslocamentos, trabalho, experiências urbanas, processos comunitários e resistência política.

Essa pluralidade dialoga com a própria constituição do FIM.ME, articulado a uma rede de cooperação cultural que conecta Amazônia, Portugal e Cabo Verde e que compreende o cinema simultaneamente como criação estética, experiência social, produção de memória e circulação de conhecimentos.

Após o processo de avaliação, seis filmes foram reconhecidos nas categorias oficiais da primeira edição.

Resultado oficial do 1º FIM.ME

Categoria

Filme premiado

Prêmio Especial do Júri

Mestre Damasceno – A Trajetória de um Afromarajoara

Melhor Média-Metragem Documental

Uma Orquestra no Contrabaixo

Melhor Média-Metragem de Ficção

5 Anos

Melhor Roteiro

Guerreiros Plantados

Melhor Fotografia

(Des)embarque – A luta de Cebola e outras histórias da Rodoviária de Santos

Melhor Montagem

Minha Religião é o Cinema

Mestre Damasceno recebe o Prêmio Especial do Júri

Mestre Damasceno – A Trajetória de um Afromarajoara, dirigido por Guto Nunes, foi finalizado em 2025 e tem 36 minutos e 40 segundos. O documentário acompanha Mestre Damasceno, cantor, compositor e guardião de tradições marajoaras, relacionando sua trajetória ao carimbó, ao búfalo-bumbá, à memória coletiva e à transmissão cultural entre gerações.

Guto Nunes assina também o roteiro; Marcelo Rodrigues responde pela direção de fotografia; Guto Nunes e Felipe Negidio pela montagem; e Ana Paula Gaia pela produção.

A própria formulação presente no título — “A Trajetória de um Afromarajoara” — oferece uma chave fundamental para a obra. A história individual encontra a presença negra na Amazônia e as formas de criação cultural construídas no Marajó. Música, oralidade, festa, corpo e transmissão aparecem como formas vivas de conhecimento e pertencimento.

Ao acompanhar um mestre da cultura popular, o documentário ultrapassa o registro biográfico: a trajetória individual abre passagem para uma memória coletiva e para uma experiência cultural que continua sendo transmitida e reinventada.

Uma Orquestra no Contrabaixo é o Melhor Média-Metragem Documental

Dirigido por Sergio Sbragia, Uma Orquestra no Contrabaixo foi produzido no Rio de Janeiro e finalizado em 2025. Com 38 minutos e 31 segundos, o documentário parte da descoberta de um registro esquecido durante mais de cinquenta anos no interior de um contrabaixo para reencontrar sobreviventes de uma geração de mestres da música sinfônica brasileira, entre eles imigrantes que chegaram ao país em consequência da Segunda Guerra Mundial.

Sergio Sbragia assina também o roteiro e a montagem. A direção de fotografia é de Jacques Cheuíche, abc, e a produção, de Laís Azeredo Rodrigues.

A descoberta de algo materialmente preservado dentro de um instrumento permite ao filme atravessar memória musical, imigração, deslocamento histórico e formação cultural brasileira. O contrabaixo deixa de ser apenas instrumento e converte-se em arquivo: aquilo que permaneceu silenciosamente guardado durante décadas retorna ao presente através do cinema.

5 Anos vence como Melhor Média-Metragem de Ficção

5 Anos, dirigido por Bruno Gomes, foi produzido no Rio de Janeiro, finalizado em 2025 e tem 27 minutos. A ficção acompanha um homem e uma mulher solitários que se encontram casualmente em um parque. A aproximação desenvolve-se por meio de conversas, risadas, vinho e reflexões, até a manhã em que ambos precisam retornar às próprias vidas.

Bruno Gomes assina direção e roteiro; Thaiane Santos e Yuri Lima respondem pela direção de fotografia; Yuri Lima e Bruno Gomes pela montagem; e Isabelle Amancio, Flavia Brito e Bruno Gomes pela produção.

A obra concentra sua dramaturgia na intimidade e na duração do encontro. Em vez de grandes acontecimentos exteriores, trabalha solidão, vulnerabilidade, desejo de companhia e transitoriedade, encontrando no tempo compartilhado pelos personagens a matéria principal da ficção.

Guerreiros Plantados conquista o prêmio de Melhor Roteiro

Dirigido e roteirizado por José Carbonel e Rui Mendonça, Guerreiros Plantados foi produzido em Itacuruba, Pernambuco, e finalizado em 2025. O documentário acompanha o povo Pankará e as consequências da inundação de suas terras pela Barragem de Itaparica, chegando ao processo de retomada territorial e à reconstrução das relações entre comunidade, ancestralidade, identidade e território.

Breno César assina a direção de fotografia, Zé Diniz responde pela montagem e Laura Aragão pela produção.

O roteiro disponibilizado pelo filme evidencia a organização desse percurso. A narrativa parte das águas do Rio Opará, confronta-as com a barragem e acompanha a cacica Lucélia pela caatinga, relacionando progressivamente água, memória, deslocamento e retomada.

O filme incorpora ainda a memória de Itacuruba Velha sob as águas, o Toré, a escola, a recuperação de palavras da língua Pankará, o cultivo e a reconstrução comunitária.

Guerreiros Plantados organiza, assim, a questão ambiental e a questão indígena como dimensões inseparáveis. Território não é somente extensão geográfica: envolve água, memória, ancestralidade, língua, educação, alimentação, ritual e possibilidade de futuro.

A presença central de uma cacica evidencia ainda a atuação de uma liderança feminina indígena na condução política e narrativa dessa experiência territorial.

(Des)embarque recebe o prêmio de Melhor Fotografia

(Des)embarque – A luta de Cebola e outras histórias da Rodoviária de Santos foi produzido em Santos, São Paulo, e finalizado em 2021. Com 41 minutos e 6 segundos, tem codireção de Nicole Zadorestki Caroti e Wagner de Alcântara Aragão.

O documentário reúne a trajetória de Jayme Rodrigues Estrella Júnior, o Cebola, a luta pela democracia, a história da televisão e diferentes memórias afetivas a partir de um ponto comum: a Estação Rodoviária de Santos. A ficha registra narrativas de Sandra Mara Nogueira Lisboa e José Pedro Nogueira Estrella e relatos de diferentes participantes ligados às histórias recuperadas pelo filme.

Nicole Zadorestki Caroti responde pela direção de fotografia e pela montagem/edição. Wagner de Alcântara Aragão assina argumento e roteiro, e Gabriel Cordeiro Ramos aparece creditado no áudio. A ficha registra a produção como projeto contemplado pelo 8º Facult Santos.

A escolha da rodoviária como espaço cinematográfico é particularmente produtiva. Um lugar concebido para chegadas, partidas e permanências provisórias transforma-se em território de memória.

A fotografia participa dessa operação ao relacionar espaço urbano, personagens e diferentes temporalidades. A história política e a memória afetiva deixam de depender de monumentos ou espaços oficiais e passam a habitar uma arquitetura cotidiana da cidade.

Minha Religião é o Cinema vence como Melhor Montagem

Minha Religião é o Cinema, dirigido por Zefel Coff e William Alves, foi produzido em Brasília, finalizado em 2025 e tem 30 minutos.

O documentário recupera passagens de José Mojica Marins por Brasília, sua resistência diante da ditadura militar, tentativas de silenciamento, episódios ligados à morte, o êxito de Zé do Caixão e a luta do cineasta pela sobrevivência no universo cinematográfico.

Zefel Coff e William Alves assinam o roteiro; Zefel Coff responde pela fotografia e pela montagem; e Kanema Experimento e Karibu Cinema aparecem na produção.

A própria ficha de inscrição informa que o processo de montagem se estendeu por mais de seis meses. O dado ajuda a dimensionar a importância dessa etapa na construção de uma obra que precisa organizar arquivo, memória biográfica, história política, censura e história do cinema.

Ao recuperar Mojica, o filme revisita também uma experiência de dissidência estética no cinema brasileiro: um realizador ligado ao horror, à cultura popular, ao excesso e à construção de uma das personagens mais singulares do audiovisual nacional, frequentemente situado nas margens das formas tradicionais de legitimação cultural.

A montagem torna possível fazer esses diferentes tempos e registros novamente coexistirem.

NOTA TÉCNICA E METODOLÓGICA

O resultado da 1ª edição do FIM.ME — Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens foi consolidado a partir das fichas individuais de avaliação e das indicações finais registradas durante o processo de julgamento.

As obras foram analisadas segundo critérios relacionados à dramaturgia, linguagem e estética, fotografia, relação entre som e imagem e montagem, além dos parâmetros específicos estabelecidos para cada categoria de premiação.

Como as fichas utilizaram escalas numéricas distintas, as pontuações foram convertidas proporcionalmente para uma base comum de 0 a 100 pontos, permitindo a leitura comparativa dos resultados. As avaliações realizadas em escala de 0 a 50 foram multiplicadas por 2; as avaliações realizadas em escala de 0 a 30 foram convertidas proporcionalmente para 0 a 100; e as avaliações originalmente realizadas em escala de 0 a 100 foram mantidas.

A consolidação considerou o conjunto das pontuações e as indicações específicas registradas para Melhor Média-Metragem Documental, Melhor Média-Metragem de Ficção, Prêmio Especial do Júri, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Melhor Montagem.

O procedimento permitiu articular parâmetros comuns de avaliação com a especificidade de cada categoria e com a apreciação crítica e estética das obras.

Os formulários de inscrição também incorporaram informações sociodemográficas opcionais destinadas ao conhecimento e à reflexão institucional sobre diversidade, trajetórias, territórios e modos de produção presentes no universo da média-metragem. Esses elementos integram o compromisso mais amplo do FIM.ME com pluralidade, dignidade humana e não discriminação.

A primeira edição conclui, assim, seu processo de avaliação com uma metodologia voltada à transparência, à comparabilidade das pontuações e ao reconhecimento das diferentes dimensões da linguagem cinematográfica.

NOTA ESTÉTICA

Seis filmes e diferentes caminhos para a média-metragem contemporânea

O resultado da primeira edição reúne seis obras bastante diferentes entre si e, justamente por isso, oferece uma amostra significativa das possibilidades narrativas, documentais e estéticas da média-metragem.

Uma Orquestra no Contrabaixo transforma a descoberta de um registro preservado dentro de um instrumento em investigação sobre música, memória e migração. Seu dispositivo parte do vestígio material para reconstruir uma história coletiva e fazer do arquivo uma ponte entre diferentes gerações.

5 Anos escolhe o caminho oposto da grande narrativa histórica e trabalha a escala íntima. Um homem e uma mulher, ambos marcados pela solidão, compartilham algumas horas e encontram na conversa e na vulnerabilidade uma aproximação provisória. A economia narrativa permite ao filme observar afetividade e relações de gênero sem transformar seus personagens em esquemas.

Mestre Damasceno – A Trajetória de um Afromarajoara articula biografia e memória coletiva. A identidade afromarajoara anunciada pelo próprio filme relaciona presença negra, Amazônia, música, oralidade, festa e transmissão cultural. O personagem individual torna-se passagem para uma experiência histórica e comunitária mais ampla.

Guerreiros Plantados constrói sua narrativa a partir da relação do povo Pankará com o território. A barragem, a inundação, a retomada, o Rio Opará, o Toré, a escola, a língua e o cultivo integram uma mesma experiência. A presença da cacica Lucélia acrescenta ao filme a força de uma liderança feminina indígena inserida diretamente na luta pelo território. O roteiro demonstra que conflito ambiental, memória e identidade não podem ser separados quando a própria existência comunitária depende da relação com a terra e a água.

Em (Des)embarque, a Rodoviária de Santos deixa de ser simples cenário e torna-se lugar de memória. A fotografia transforma um espaço de trânsito em território onde história democrática, televisão, experiências urbanas e lembranças pessoais podem encontrar-se. A obra encontra no cotidiano da cidade uma possibilidade de reconstrução histórica.

Minha Religião é o Cinema volta-se para a memória do próprio cinema brasileiro. Ao recuperar José Mojica Marins, sua relação com Brasília, a ditadura, a censura e a sobrevivência de Zé do Caixão, o filme trabalha com arquivos e temporalidades distintas. A montagem é o lugar onde essas memórias podem ser reorganizadas e devolvidas ao presente.

Observados em conjunto, os seis filmes permitem reconhecer uma recorrência: todos, de alguma maneira, relacionam cinema e permanência.

Uma memória musical é recuperada. Um encontro afetivo sobrevive como experiência. Uma tradição afromarajoara atravessa gerações. Um povo indígena retoma seu território. Histórias políticas permanecem numa rodoviária. A memória de um cineasta atravessa censura e tempo.

Essa aproximação não transforma o FIM.ME em festival temático. Ela emerge do próprio conjunto premiado e permite perceber como questões sociais, raciais, étnicas, territoriais e de gênero podem participar da construção estética sem serem reduzidas a etiquetas.

A diversidade está nos sujeitos, nos territórios, nas memórias e nas formas de olhar.

E talvez esteja justamente aí uma das potências da média-metragem defendida pelo FIM.ME: oferecer duração suficiente para que uma pessoa, um território, uma memória ou uma diferença possam desenvolver-se cinematograficamente sem serem reduzidos à velocidade de uma passagem.

A primeira edição termina, portanto, com seis reconhecimentos e uma questão que permanece aberta para o próprio percurso futuro do festival: quanto tempo uma imagem precisa para verdadeiramente escutar aquilo que pretende mostrar?

O FIM.ME começa sua trajetória apostando que a média-metragem possui uma resposta própria para essa pergunta.

SERVIÇO - FIM.ME 2026

A divulgação oficial dos resultados da primeira edição do FIM.ME ocorre entre 10 e 17 de agosto de 2026, por meio das plataformas digitais do FIM.ME e do FICCA.

Os filmes premiados seguem posteriormente para a etapa de circulação pública, com exibições on-line previstas para setembro e outubro de 2026, através do canal do FICCA – Festival Internacional de Cinema do Caeté.

A programação presencial conjunta do FICCA e do FIM.ME será realizada em 6 de novembro de 2026, no Auditório do IFPA – Campus Bragança, no Pará, com sessão pública dedicada às obras reconhecidas na primeira edição.

A circulação integra as ações desenvolvidas pelo FICCA e pelo FIM.ME ao longo de 2026, aproximando exibição cinematográfica, formação de público, reflexão, circulação cultural e encontro entre realizadores e espectadores.

FIM.ME — Festival Internacional de Filmes de Médias-Metragens
1ª edição — 2026
Divulgação dos resultados: 10 a 17 de agosto de 2026
Exibições on-line: setembro e outubro de 2026
Sessão presencial: 6 de novembro de 2026
Local: Auditório do IFPA – Campus Bragança, Pará
Articulação cultural: Amazônia • Portugal • Cabo Verde



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