José Ribamar Gomes de Oliveira nasceu em 1951, às margens do Rio Caeté, no bairro do Cereja, em Bragança do Pará. É desse lugar que começo a lembrá-lo, porque é também desse lugar que sua vida parece ter encontrado uma espécie de centro permanente: Bragança não foi apenas a cidade onde nasceu, mas a matéria que ele passou décadas pesquisando, escrevendo, ensinando e devolvendo aos outros através dos livros, das conversas, das instituições e dos projetos culturais que ajudou a criar. Sua formação em Letras e Artes pela Universidade Federal do Pará, onde foi orador de sua turma em 1997, deu passagem a uma trajetória em que a palavra acadêmica encontrou a experiência cotidiana da cidade, dos seus moradores, das suas ruas, dos seus templos, do rio, das festas, do cinema e das muitas histórias que Ribamar foi recolhendo ao longo do tempo.
Quando penso nele, penso primeiro no professor Ribamar, que é como sempre gostei de chamá-lo. Foi uma pessoa que me acolheu e com quem aprendi bastante, e suas obras se tornaram fonte inesgotável para minhas próprias escritas e pesquisas, sobretudo porque muitas das memórias que escrevo chegam até mim através de outras pessoas, de histórias que escuto, de documentos que encontro e de livros que me ajudam a compreender melhor aquilo que a cidade guarda. No texto que escrevi sobre a Escola de Poetas, em 2020, registrei justamente essa relação com Ribamar, sua perseverança na pesquisa, desenvolvida de maneira autodidata, e a dimensão do legado que ele colocava à disposição de quem quisesse continuar procurando. Foi ali que o reconheci como um educador popular das muitas gerações caeteuaras, expressão que continuo considerando uma das formas mais precisas de falar de sua presença.
Essa condição de pesquisador aparece na própria extensão de sua produção intelectual. O corpus registra quatorze livros publicados, entre eles De Vila Cuera a Bragança, Historicidade Jesuítica no Caeté, Paixões pelo Caeté, Bragança, onde está minha alma está você, Bragança, Futebol e Cultura, Memórias de nossa terra, Cem anos da Estrada de Ferro de Bragança, A Alma das Ruas e O Meu Nome é Bragança, este último apresentado como uma antologia poética com mais de duzentas páginas. Não são livros que poderiam ser deslocados para qualquer outra cidade simplesmente pela troca do nome no título, porque sua matéria é precisamente o território bragantino e aquilo que Ribamar encontrou nele: ruas, rios, templos, instituições, personagens, acontecimentos, práticas culturais e lembranças que, sem seu trabalho, poderiam desaparecer da memória de novas gerações.
A sua pesquisa fazia com que uma coisa conduzisse naturalmente a outra. O estudo de um personagem levava a uma instituição; uma instituição levava a uma rua; uma rua devolvia uma família; uma família conduzia a uma época; um acontecimento recuperava um modo de vida que já não estava presente na cidade. É por isso que seus livros continuam sendo caminhos de entrada para Bragança: quem os lê encontra informações, mas encontra também uma maneira de olhar para a cidade, procurando aquilo que está por trás dos nomes, dos prédios e das paisagens. Ribamar tornou-se, assim, um guardião da memória bragantina não por uma declaração abstrata, mas pelo trabalho insistente de registrar aquilo que conhecia, aquilo que pesquisava e aquilo que ainda precisava ser contado. O reconhecimento como Memorialista da História de Bragança, mencionado no corpus, dá nome a uma função que ele já exercia na prática.
Esse trabalho de memória encontrou também uma dimensão institucional. Ribamar esteve na fundação da Academia de Letras de Bragança, da Academia de Letras e Artes de Bragança e do Instituto Histórico e Geográfico de Bragança, e aparece ainda no corpus como fundador da Academia de Letras do Brasil — Seccional Bragança, instituição que posteriormente se reuniu para reverenciar sua memória. Essas instituições não são apenas títulos numa biografia, porque fazem parte de uma tentativa concreta de criar lugares onde a cultura, a literatura e a história pudessem continuar circulando. Ribamar tinha essa disposição de transformar a pesquisa em encontro, e o encontro em possibilidade de continuidade, colocando livros e conhecimento em movimento entre pessoas que, de outra maneira, talvez não tivessem acesso a essas referências.
Foi dessa disposição que nasceu a Escola de Poetas. O projeto começou em 24 de março de 2017 e reuniu inicialmente quarenta alunos de escolas públicas e privadas, professores voluntários e uma programação que alcançava diferentes áreas de formação. A poesia entrava ali como experiência compartilhada, nos saraus e nas atividades com os estudantes, e Ribamar imaginava que cada jovem pudesse ter um padrinho, uma espécie de tutor, chegando a sonhar com a transformação daquela experiência na primeira Academia Juvenil de Letras do território nacional. Na manhã de 2 de maio de 2017, ele próprio conversou com os alunos sobre Dom Miguel Maria Giambelli, personagem que havia pesquisado e sobre quem escrevera O Missionário Barnabita, obra que também ganhou uma versão italiana.
Eu me lembro dessa experiência principalmente através dos jovens. Lembro do brilho nos olhos, dos questionamentos, da maneira leve como eles experimentavam o mundo pela poesia e também das dificuldades concretas dos espaços onde as aulas aconteciam, das dificuldades que esses mesmos jovens enfrentavam nas escolas, nas ruas e em suas casas. A Escola de Poetas foi uma experiência de troca, e foi também um alimento para minha própria alma, como escrevi na época, porque ali estavam Ribamar, as professoras Lena Amorim e Maria José e aqueles estudantes que traziam para cada encontro uma possibilidade nova de palavra. O projeto acabou reduzido, com cerca de três professores e vinte e dois alunos, e as aulas foram transferidas do prédio da Rádio Educadora para o 33º Batalhão de Polícia Militar, mas a precariedade das condições não apaga a dimensão daquela experiência.
Quando lembro da Escola, lembro de Ribamar e dos alunos ao mesmo tempo. A poesia que ele queria levar aos jovens não estava apenas nos livros que poderiam ser publicados depois dos saraus; estava também na própria presença daqueles meninos e meninas, na maneira como perguntavam, escreviam e descobriam que a palavra podia ser uma forma de olhar para a própria cidade. Ribamar tinha a capacidade de colocar uma pesquisa histórica e uma experiência de formação no mesmo território, e talvez por isso a Escola de Poetas seja tão importante para compreender sua trajetória: ali estava o pesquisador, mas estava também o professor que desejava que aquilo que aprendera não terminasse nele. Minha lembrança daquele projeto permanece ligada à gratidão por ter participado daqueles encontros e por ter aprendido com ele e com os jovens.
Dom Miguel Maria Giambelli aparece nesse percurso como uma presença particularmente significativa. Ribamar pesquisou sua trajetória, escreveu sobre ele e levou essa memória para dentro da Escola de Poetas, fazendo com que um personagem da história religiosa e cultural de Bragança pudesse chegar aos jovens através da palavra e da pesquisa. O nome da escola carregava, portanto, uma história anterior, já investigada e escrita por Ribamar, e essa passagem do livro para a sala de aula mostra muito da maneira como ele compreendia a cultura: uma história guardada não deveria permanecer imóvel, mas encontrar novas pessoas capazes de recebê-la, interrogá-la e talvez continuar seu percurso.
A memória dos cinemas de Bragança constitui outra parte muito concreta desse trabalho. Em A Alma das Ruas, Ribamar registra histórias dos antigos espaços cinematográficos da cidade, e os textos do corpus recuperam, através de sua pesquisa e de seus relatos, o primeiro cinema de Bragança, associado à família Nazeazeno Ferreira, localizado na Travessa Coronel Antônio Pedro com a Rua General Gurjão, além da sucessão do Cinema Recreio, Cine Avante e Cine Vargas, do Cine Nazaré e, posteriormente, do Cine Olímpia. A história desses lugares não aparece apenas como uma relação de prédios: ela envolve famílias, ruas, praça, teatro, festas e formas de convivência que pertencem a uma Bragança de outro tempo. Ribamar tinha essa capacidade de fazer o cinema reaparecer como parte da vida social da cidade, e não simplesmente como uma lista de salas de exibição.
É nesse território que nossa própria história se encontra. Em 2017, eu e Christovam Pamplona Neto estivemos com Ribamar para conversar sobre cinema, educação e história cultural de Bragança, e aquela conversa foi registrada em imagem. Anos depois, as imagens deram origem a Alma das Ruas, documentário que realizei com Christovam, retomando aquela entrevista e preservando a voz de Ribamar diante da câmera. O filme, realizado em 2025, tem oito minutos e integra o X FICCA — Festival Internacional de Cinema do Caeté; na ficha técnica, Christovam aparece na correalização e na direção de fotografia, enquanto assino direção, roteiro e montagem, e nós dois dividimos pesquisa, entrevista e produção, tendo José Ribamar Gomes de Oliveira como entrevistado.
Para mim, Alma das Ruas passou a ter outro significado depois da morte de Ribamar. Quando fizemos aquela entrevista, estávamos diante de um homem que conhecíamos, pesquisando e conversando sobre uma matéria que fazia parte de sua vida; hoje, as mesmas imagens guardam também a presença de alguém que já não está fisicamente entre nós. O filme retoma suas ideias sobre cinema, educação, cineclubes, escolas, arquivos, movimentos comunitários e resistências culturais na Amazônia Atlântica, mas aquilo que mais me toca é simplesmente poder ouvi-lo novamente, falar de Bragança com a lucidez e a delicadeza intelectual que reconheci nele. A palavra de Ribamar, registrada em 2017 e retomada em 2025, transformou-se também em documento de memória.
Existe uma relação especial entre o livro A Alma das Ruas, de Ribamar, e o filme Alma das Ruas. O livro pertence à obra escrita que ele deixou sobre a cidade; o filme nasceu de uma experiência audiovisual que fizemos juntos e na qual sua voz ocupa o centro. No primeiro caso, Ribamar registra a memória dos lugares e dos cinemas através da escrita; no segundo, sua própria presença fica registrada em imagem e som, falando sobre essa cultura que pesquisou durante tanto tempo. A coincidência dos títulos acaba produzindo uma espécie de encontro póstumo entre duas obras: de um lado, a cidade escrita por Ribamar; de outro, Ribamar falando sobre a cidade diante da câmera.
É difícil não pensar que essa permanência tem alguma coisa de profundamente coerente com sua trajetória. Ribamar passou a vida registrando a memória de outras pessoas, de outros tempos e de outros lugares, e acabou deixando também registros de sua própria voz, de seu pensamento e de sua maneira de contar. Seus livros permaneceram, mas agora permanecem também suas imagens, suas conversas, suas instituições, a Escola de Poetas e as lembranças daqueles que tiveram com ele alguma forma de convivência. Quando assisto novamente às imagens de Alma das Ruas, não vejo apenas o entrevistado de um filme; vejo o professor que me acolheu, o pesquisador cujos livros consultei, o homem com quem conversei e cuja presença entrou em parte da minha própria trajetória de escrita e de pesquisa.
Talvez por isso eu não consiga falar de Ribamar apenas como uma figura pública da cultura bragantina. Existe o Ribamar dos livros, das Academias, da Escola de Poetas, da pesquisa histórica e do cinema, mas existe também o homem que estava ali quando alguém chegava para conversar, perguntar ou aprender. Foi essa disponibilidade que fez com que seu conhecimento pudesse circular de uma maneira tão particular, porque havia sempre uma passagem entre aquilo que ele pesquisava e aquilo que compartilhava com os outros. Seus livros foram fonte para mim, mas a convivência também foi, e é impossível separar essas duas coisas quando tento compreender o que sua presença significou em minha própria caminhada.
Bragança aparece em sua obra como uma cidade que precisa ser lembrada em sua concretude. O Caeté está ali, as ruas estão ali, os cinemas estão ali, as igrejas, as escolas, a estrada de ferro, o futebol, as instituições, os personagens, as festas e as muitas formas de vida que Ribamar procurou registrar. Seus contemporâneos o reconheceram, conforme o material da Academia de Letras do Brasil — Seccional Bragança, como uma presença ética, estética e afetiva, alguém associado à honestidade, ao compromisso com a verdade histórica, à palavra e ao acolhimento. É uma caracterização que ganha sentido quando colocada ao lado das experiências que efetivamente conheci: o pesquisador que trabalhava de forma autodidata, o professor que criou uma escola para jovens poetas e o homem que colocava seus livros à disposição de quem estava começando a escrever.
Também por isso sua ausência se sente em diferentes lugares. Sente-se naqueles que o conheceram como professor, nos que o encontraram como pesquisador, nos que participaram de suas instituições, nos alunos que passaram pela Escola de Poetas, nos leitores de seus livros e nos amigos que ficaram com suas conversas na memória. Sente-se ainda porque Ribamar tinha uma relação muito particular com o passado: ele não o tratava como coisa morta, mas como matéria que podia voltar ao presente através da pesquisa, da palavra e do encontro. Agora, depois de sua morte, somos nós que recebemos essa tarefa, porque aquilo que ele passou a vida inteira procurando continua existindo e continua precisando de quem o procure.
É aqui que sua obra ganha uma dimensão que ultrapassa a homenagem. Os livros de Ribamar não encerram Bragança; eles abrem caminhos para que outros pesquisadores, escritores, professores e estudantes continuem encontrando a cidade. De Vila Cuera a Bragança, Historicidade Jesuítica no Caeté, Paixões pelo Caeté, Bragança, Futebol e Cultura, Memórias de nossa terra, Cem anos da Estrada de Ferro de Bragança, A Alma das Ruas e O Meu Nome é Bragança são diferentes portas de entrada para uma mesma experiência de pertencimento e pesquisa. O que fica, portanto, não é somente uma coleção de títulos, mas um conjunto de possibilidades para continuar perguntando pela história de Bragança.
Eu penso nisso quando volto ao Cereja e ao Caeté, quando lembro das ruas que Ribamar pesquisou, quando penso nos antigos cinemas que já não existem da mesma maneira, quando lembro dos jovens da Escola de Poetas e quando vejo sua imagem em Alma das Ruas. A cidade continua mudando, as pessoas continuam chegando e partindo, os lugares continuam recebendo novos usos e as lembranças continuam correndo o risco de desaparecer. Mas agora há uma parte dessa cidade escrita por ele, pesquisada por ele e registrada por ele, e essa parte se tornou também uma responsabilidade nossa. Não para transformar Ribamar em monumento, mas para continuar lendo aquilo que ele deixou e seguir trabalhando onde ele trabalhou: na memória concreta de Bragança.
Eu prefiro guardar Ribamar assim, dentro dessa cidade em movimento. Guardo o professor que me acolheu, o pesquisador autodidata que me ofereceu tantas fontes, o homem que acreditou nos jovens da Escola de Poetas, o escritor que passou anos reunindo histórias e o companheiro daquela conversa que ficou registrada em imagem. Guardo também o seu modo de carregar Bragança dentro da palavra, porque essa talvez seja uma das coisas que mais permanecem em quem conviveu com ele: a sensação de que, para Ribamar, falar de uma rua nunca era apenas falar de uma rua, falar de um cinema nunca era apenas falar de uma sala e falar de um personagem nunca era apenas mencionar um nome. Havia sempre uma história esperando para ser puxada daquele fio de memória.
Por isso, professor Ribamar, quando penso em tua partida, não consigo pensar apenas no silêncio que ficou. Penso nos livros que continuam nas estantes, nos alunos que passaram pela Escola de Poetas, nas instituições que ajudaste a construir, nas pesquisas que ainda podem ser retomadas e na tua voz que permanece registrada em Alma das Ruas. Penso também em minha própria gratidão por ter aprendido contigo e por ter encontrado em tua obra uma fonte permanente para meu trabalho de escrever e pesquisar memórias. E penso que essa continuidade é uma das formas mais concretas de tua permanência: aquilo que pesquisaste continua podendo ser pesquisado, aquilo que escreveste continua podendo ser lido e aquilo que ensinaste continua podendo chegar a outras pessoas.
O Caeté continua correndo, as ruas continuam mudando, os cinemas já não são os mesmos, os livros continuam esperando leitores, os jovens continuam procurando palavras e a cidade continua precisando lembrar. Entre todas essas coisas permanece a obra de José Ribamar Gomes de Oliveira, não como uma peça acabada que deva ser contemplada de longe, mas como um caminho que continua aberto. Essa é uma imagem que me parece justa porque Ribamar nunca pareceu satisfeito com o que já sabia: havia sempre outro nome, outro documento, outra história, outro livro, outra conversa, outra possibilidade de compreender melhor Bragança. Sua morte interrompe a presença do homem, mas não interrompe esse movimento de procura.
E eu volto, então, ao professor Ribamar. Volto ao homem que me acolheu e com quem aprendi, ao pesquisador cujas obras se tornaram fonte inesgotável de minhas próprias escritas, ao educador popular das gerações caeteuaras, ao criador da Escola de Poetas, ao memorialista que percorreu a história de Bragança e ao homem cuja voz hoje posso reencontrar em uma imagem de cinema. Não preciso dizer seu nome muitas vezes para lembrar quem ele foi, porque sua presença já está associada a lugares e experiências muito concretos: Cereja, Caeté, livros, poesia, cinema, pesquisa, escola, memória. É nesse conjunto que o professor Ribamar continua comigo.
Descansa, Mestre Ribamar. Tua obra ficou, tua cidade ficou e nós ficamos com a responsabilidade de não deixar desaparecer aquilo que passaste a vida inteira procurando. Depois de tua passagem, quando olharmos para Bragança, já não conseguiremos vê-la exatamente da mesma maneira, porque haverá sempre entre nós e suas ruas alguma coisa da tua memória, alguma história que aprendeste a enxergar e nos ensinaste a procurar. E, para mim, haverá ainda a lembrança daquele homem que me acolheu, com quem aprendi e que, pela própria maneira de pesquisar, escrever e ensinar, ajudou a formar também o meu olhar sobre a cidade que nós dois amamos.
É por isso que não quero encerrar esta homenagem com uma despedida pronta. Prefiro retornar ao lugar de onde Ribamar veio e para onde tantas vezes sua obra me conduziu: Bragança, o Cereja, o Caeté, as ruas, os livros, a poesia, o cinema e a memória. É ali que sua presença continua, não porque a morte possa ser negada, mas porque uma vida dedicada a registrar a memória dos outros acaba deixando também sua própria marca na memória coletiva. Quando alguém voltar a A Alma das Ruas, quando alguém ler De Vila Cuera a Bragança, quando alguém procurar a história dos antigos cinemas, quando um jovem descobrir a poesia através de uma experiência que tenha alguma relação com a Escola de Poetas, Ribamar estará novamente em circulação.
Eu pensarei sempre no homem que me acolheu. E pensarei também no professor que me ensinou, sem precisar transformar isso em lição, que uma cidade pode ser pesquisada com rigor sem deixar de ser amada, que a memória pode ser objeto de estudo sem perder sua dimensão humana e que a palavra pode servir tanto para registrar o passado quanto para abrir espaço para quem ainda está chegando. Essa foi uma das maiores riquezas de sua presença para mim. E talvez seja por isso que, diante da morte, eu prefira continuar a conversa: porque os livros ainda estão aqui, as imagens ainda estão aqui, a cidade ainda está aqui e a pergunta que acompanhou sua vida também permanece aqui — o que ainda precisamos lembrar de Bragança?
É nessa pergunta que José Ribamar Gomes de Oliveira continua. Na história que ainda será contada, nos poemas que ainda serão escritos, nos livros que ainda serão lidos, nas ruas que ainda serão lembradas e na voz dele preservada em imagem, dizendo novamente aquilo que passou a vida inteira fazendo: lembrando Bragança para que Bragança não esquecesse de si mesma.
FRANCISCO WEYL – CARPINTEIRO DE POESIA
Amazônia Atlântica, 2026
Fontes e obras mobilizadas no corpus
A homenagem foi construída a partir dos materiais anexados e das referências neles contidas, especialmente os textos memorialísticos e autorais de Francisco Weyl publicados no universo do Carpinteiro de Poesia, entre eles a crônica sobre a Escola de Poetas, datada de Porto, 22 de setembro de 2020, integrante do Microprojeto Crônicas Bragantinas. Esse texto é particularmente importante porque constitui testemunho direto da convivência com Ribamar, registra seu acolhimento, sua pesquisa autodidata, sua relação com os jovens e a participação de quem escreve esta homenagem naquele projeto.
Também integram a base documental as obras de José Ribamar Gomes de Oliveira mencionadas nos próprios textos: De Vila Cuera a Bragança, Historicidade Jesuítica no Caeté, Paixões pelo Caeté, Bragança, onde está minha alma está você, Bragança, Futebol e Cultura, Memórias de nossa terra, Cem anos da Estrada de Ferro de Bragança, A Alma das Ruas, O Meu Nome é Bragança e O Missionário Barnabita, além da referência à versão italiana Un Vescovo bresciano in Amazzonia. Essas obras constituem a base bibliográfica pela qual a trajetória de Ribamar é compreendida dentro do próprio corpus.
A fonte audiovisual central é Alma das Ruas, documentário de 2025 realizado a partir da entrevista de 2017 com José Ribamar Gomes de Oliveira. O material anexado registra sua ficha técnica, a duração de oito minutos, a direção e roteiro de Francisco Weyl, a correalização e fotografia de Christovam Pamplona Neto, a pesquisa e entrevista realizadas pelos dois e a participação de Ribamar como entrevistado, no âmbito do X FICCA — Festival Internacional de Cinema do Caeté. A documentação do próprio filme explicita ainda que ele retoma imagens da entrevista de 2017 para preservar o pensamento de Ribamar sobre cinema, educação e história cultural de Bragança.
Por fim, foram considerados os textos do próprio corpus sobre a memória cinematográfica de Bragança, especialmente aqueles em que aparecem os relatos de Ribamar acerca do primeiro cinema da cidade, do Cinema Recreio, Cine Avante, Cine Vargas, Cine Nazaré e Cine Olímpia, bem como os textos institucionais da Academia de Letras do Brasil — Seccional Bragança que registram sua trajetória, sua formação, sua produção bibliográfica e sua atuação cultural.
FRANCISCO WEYL – CARPINTEIRO DE POESIA
Amazônia Atlântica, 2026

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